A novela mexicana brasileira

TEXTO DE OPINIÃO

Marina Scheffer (*)

Eis que abro a página do G1 em busca de atualizações – tudo bem, pode não ter sido um bom começo – e me deparo com o que parece mais a página de resumo dos capítulos de alguma novela mexicana. E mais do que isso: uma comédia mexicana.

A verdade, entretanto, é que o que meus olhos realmente leem são notícias reais de um país real, com pessoas reais, performando atos verdadeiros, por mais inverossímeis. Num toma-lá-dá-cá extremamente imaturo, assistimos nossos representantes se golpeando nos bastidores do impeachment.

É isso mesmo, bastidores, pois nos fazem acreditar que os protagonistas dessa dança das cadeiras somos nós. Agora, para entender a situação, preciso olhar atentamente o horário da postagem da matéria, porque em dez minutos decide-se dar continuidade à tramitação do processo, e nos próximos dez ele já está anulado. O grande problema é que um único dia possui cerca de… bem, vários períodos de dez minutos (sou de humanas, melhor não arriscar).

E como é que faz o povo para escolher um lado da maçã, quando os dois estão podres e cheios de larvas? Não faz! Aceita. É isso que vemos: o povo não está contente, está lutando, está exigindo, mas o simples fato de existir a possibilidade de matérias como essas não estarem em um página do facebook como a Sensacionalista, satirizando acontecimentos do dia a dia, mas estarem em sites e jornais oficiais, com credibilidade, repassando, mesmo que através de diversos pontos de vista, a mesma mensagem, leva a uma única conclusão: temos aceitado demais, para chegar ao ponto de vermos uma situação cômica dessas num momento tão crítico e frágil do país, com certeza erramos, e sabemos.

(*)Estudante de comunicação Organizacional da UTFPR

DESCER A RAMPA É IMPORTANTE

TEXTO DE OPINIÃO

Samuel Gonzaga (*)

 A presidente Dilma fez isto na última terça-feira à noite, após receber mulheres militantes em seu gabinete, ela desceu a rampa do Palácio do Planalto e conversou com outras centenas de mulheres que estavam a sua espera. Conforme palavras da presidente, ela afirmou que sentia-se de “alma lavada”.

Isso me levou a reflexão de quão importante e simbólico foi esse ato. Afinal, em um dos momentos mais turbulentos da democracia brasileira, onde a imagem do Partido dos Trabalhadores (PT) está bastante arranhada e a Presidente enfrenta um processo de impeachment enquanto despenca em índices de aprovação, um ato como esse mostra o tipo de alento que o governo Dilma deveria ter buscado nos últimos seis anos. Um alento popular, de pessoas que acreditavam que, de fato, ela daria continuidade aos progressos conquistados no governo Lula – esse, inclusive, dono de um carisma que Dilma não tem.

A presidente se afastou daqueles que a elegeram, passou a governar de maneira distante, agindo dentro de em um casulo em que estavam ela, seus assessores, seus ministros e nenhuma representação popular significativa. Isso feriu e muito sua reputação, além, é claro, de sua incapacidade administrativa. Dilma provou, nos últimos, que não era a pessoa certa a ocupar o cargo de Presidente da República.

Continuar lendo

A TRAGÉDIA DE 1964 E A FARSA DE 2016

Luciano De Marchi Mello (*)

Nas últimas semanas, a fragilidade política brasileira foi escancarada. Se por um lado setores da sociedade acreditam que a saída da presidente Dilma Rousseff resolveria boa parte dos problemas, outros defendem que o que está em jogo é a democracia e o respeito, fundamentalmente, ao Estado Democrático de Direito, que estaria em vias de sofrer um golpe de Estado. Mas afinal, o que é um golpe de Estado?

Golpe de Estado pode ser caracterizado pela derrubada ilegal de um governo democraticamente estabelecido por meio de um processo constitucional. O uso da força, apesar de muito comum (como aconteceu no Brasil em 1964 e em outros países da América Latina), não é um requisito obrigatório. É possível conceber um golpe de Estado pelo viés jurídico, por exemplo, bastando que a própria Justiça haja de maneira ilegal. O golpe pela perspectiva jurídica, inclusive, acarreta menos prejuízo à imagem de seus atores, diminui as chances de uma convulsão social e transmite à população uma pretensa legitimidade do processo, produzindo os mesmos resultados. Continuar lendo