Aborto: crime ou liberdade?

#OPINIÃO

Por Jeane Amaral, Laura Bedin e Luiza Queluz*

A interrupção da gravidez continua sendo um tabu e crime no Brasil. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), em média, 1 milhão de mulheres abortam clandestinamente por ano no país, devido à falta de estrutura, que é consequência da proibição dessa prática. São inúmeros os métodos de aborto existentes e os motivos que levam a mulher a realizar esse procedimento são vários: financeiros, sociais, religiosos, sentimentais e psicológicos. A não legalização do aborto não abona a prática e é uma decisão que deveria  ser da mulher e não do Estado.

Conforme o Código Penal brasileiro, o aborto é permitido somente em casos de estupro, de feto com anencefalia e quando há risco de vida para a mulher. Em outras situações, está prevista detenção de um a três anos para a gestante que provocar ou consentir que outro o provoque (Art. 124), decisão no mínimo equivocada, já que a escolha de gerar ou não o feto deveria ser exclusivamente da mulher que o carrega em seu corpo.

Embora haja essa criminalização expressa em lei, as mulheres continuam recorrendo ao aborto. Segundo uma pesquisa realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em 2015, cerca de 8,7 milhões de mulheres entre 18 e 49 anos já realizaram o procedimento no país. A maioria delas não tem condições de arcar com os valores altíssimos cobrados por clínicas clandestinas ou de ir para outros países onde a prática é liberada. Por isso, acabam utilizando métodos caseiros, muitas vezes perigosos, que podem provocar hemorragias graves e em alguns casos o óbito.  Continuar lendo

Coletivo feminino inova ao realizar entregas com bicicletas

Por Allyson Rafael, Maísa Barbosa e Vivian Vieira

Neste ano, foi criada a Camomila Vulgar, o primeiro coletivo de entregadoras de bicicleta em Curitiba. O movimento, fundado por mulheres e para mulheres, surgiu após um grupo de amigas realizar entregas por conta própria para uma marca de camisetas na cidade. Um dos objetivos do movimento é incentivar o empreendedorismo feminino, além de lidar com as ruas enquanto um ambiente hostil para as mulheres.

Para engajar e incentivar as mulheres a participarem do coletivo, foi criado um formulário (disponível aqui) que é deixado em destaque em suas redes sociais – para ser preenchido por quem tem interesse em fazer entregas e participar do coletivo. “Só mulheres que pedalam participam. Infelizmente, como estamos no início, vamos chamando as participantes aos poucos, pois não temos entregas para todas ainda”, ressalta Isadora Palhano, participante do coletivo.

Como é considerado um trabalho independente, as participantes do movimento recebem conforme as entregas que realizam, sendo uma pequena porcentagem do dinheiro ida para os custos que a Camomila Vulgar possui, como cartões de visitas e camisetas. O restante do dinheiro para a entregadora.  Continuar lendo

Ser mulher não é ser mãe

#OPINIÃO

Por Deborah Deluchi*

Ser mãe não deveria ser uma obrigação, nem é mais um sonho de todas as mulheres como um dia já foi. Cada vez mais, mulheres decidem adiar a maternidade ou ainda chegar à decisão de não ter filhos. Assim, ser mãe não é mais o dever de toda mulher como antigamente. A mulher deve ser livre para optar se quer ou não engravidar, pois cabe só a ela a escolha de se tornar mãe ou não. Reduzir a mulher à maternidade, precisa deixar de ser cultural. Mas como explicar esse direito de não se tornar mãe para a sociedade? Antes de falar sobre como se chegou a essa situação nos dias atuais, é preciso voltar no tempo e perceber como era o modelo de vida de algumas décadas atrás.

Durante a época em que as cidades ainda eram poucas no país, e muitas famílias viviam no campo, meninas eram impulsionadas a casarem cedo, para engravidar e assim, dar continuidade à família. Também significava produzir mais mão de obra para trabalhar e assim contribuir com o seu papel para a sociedade da época. Ter filhos e cuidar da casa eram uma das poucas obrigações que cabiam à mulher fazer. E era ensinado que este era o único destino para todas elas, pois são fêmeas e afinal: “fêmeas procriam. É biológico.”  Continuar lendo

Em busca de uma igualdade de gênero

#OPINIÃO

Por Amanda Correia e Vivan Vieira*

Desde crianças somos ensinados a diferenciar as brincadeiras, cores e afazeres entre “coisas de meninos e coisas de meninas”. É um fator cultural e pode ser considerado como o primeiro passo para definir padrões de diferenciação, que nos afastam cada vez mais de uma sociedade justa e respeitosa. A igualdade entre homens e mulheres é uma questão de direitos humanos e uma condição de justiça, além de ser um requisito necessário e fundamental para um desenvolvimento social. Ela também exige que, numa sociedade, homens e mulheres usufruam das mesmas oportunidades, rendimentos, direitos e obrigações em todas as áreas. Devem se beneficiar das mesmas condições, como educação, saúde e carreira profissional.

Graças ao movimento feminista, que se iniciou nos séculos XVIII e XIX, as mulheres vêm conquistando diversas e importantes áreas da sociedade. A busca por direitos democráticos e a quebra da desigualdade está proporcionando a elas oportunidades de se defender de casos como machismo e abusos sexuais, fatores ainda muito presentes em nossos atuais campos sociais.

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública acredita que possam ter ocorrido entre 136 mil e 476 mil casos de estupro no Brasil no ano passado. Entretanto, segundo o estudo ‘Estupro no Brasil: uma radiografia segundo os dados da Saúde’, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apenas, 10% dos casos chegam ao conhecimento da polícia, pois muitas mulheres não relatam casos assim por medo, receio da reprovação da sociedade e de suas famílias, por acreditarem na ineficácia de denúncias ou até mesmo por dependerem financeiramente de seus parceiros.  Continuar lendo

O problema da fetichização da mulher asiática na cultura brasileira

#OPINIÃO

Por Jéssica Guimarães, Julia Duda e Sara Takatsuki*

De acordo com dados do Censo de 2010 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), dois milhões de residentes no Brasil se autodeclararam de cor “amarela”, indo de um percentual de 0,45% da população nacional de 2000 para 1% em 2010. Esse salto no número de moradores asiáticos tem também ligação com os fluxos migratórios, mas não é só isso, há um crescimento considerável de pessoas que assumiram de fato suas origens. Com isso, o número de coletivos de debate e militância no país também aumentou e os problemas de discriminação, fetichização, privilégios, visibilidade e racismo sofrido por asiáticos vêm se tornando cada vez mais discutidos na sociedade.

É perceptível a luta dessa minoria social por uma voz representativa. Os coletivos organizados por esses descendentes evidenciam que não toleram mais esses preconceitos. Uma “brincadeira” racista não pode mais ser considerada normal, a objetificação do corpo feminino oriental não é mais admissível. Dentro desses vários propósitos na luta, o feminismo asiático vem ganhando força e é preciso perceber a realidade de hiperssexualização ainda existente da mulher asiática.

Você já deve ter ouvido frases como “Sempre quis namorar uma asiática” ou “As asiáticas são muito fofas”.  O que você, provavelmente, não sabia é que esse tipo de frase estimula a existência da fetichização das mulheres asiáticas.  Essas expressões, muito normatizadas na nossa sociedade, impõem um estereótipo hiperssexualizado somados de racismo e machismo. Existe uma ideia fixada de que as asiáticas são envergonhadas, fofas, tímidas e muito gentis: o estereótipo de submissão.  Continuar lendo

Semana Acadêmica debateu a presença da Mulher Negra na Moda

#COBERTURAESPECIAL #TAMBOR

Por Jessica Guimarães, Julia Duda e Sara Takatsuki*

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Colóquio reuniu estudantes para discussão em torno de Designer de Moda Suelen Matos (Foto: AG Comunique)

Na manhã do segundo dia (26/09) de programação da Tambor, a Semana Acadêmica de Comunicação da UTFPR, foi realizada um colóquio sobre a representatividade da mulher negra na comunicação de moda. A convidada Suelen Matos, designer e pesquisadora na área de plástica afro-brasileira na moda feminina, explicou que há empecilhos para a entrada definitiva da mulher negra na moda. Entre eles, afirmou que o racismo e o machismo são as principais causas e que, no Brasil, o racismo institucional velado é naturalizado. “Se é questionado, é rotulado como ‘mimimi’. O racismo existe, sim. O motivo pelo qual o negro não se insere definitivamente na moda e na comunicação é o racismo velado”, declara. Continuar lendo

O protagonismo do feminismo: branco, classe média e elitista

#OPINIÃO

Por Camila Mancio

“Yo solo pido un espacio pa’respirar”,  Jelena Dordevic

O feminismo é um movimento político e social que prevê a equanimidade de gêneros. Isto é, que os indivíduos tanto do sexo masculino quanto do feminino possam ter as mesmas oportunidades. No entanto, há várias divisões dentro do movimento que são marginalizadas e excluídas, sem que se leve em conta as demandas individuais de cada grupo. O protagonismo do feminismo, por exemplo, coloca em debate a liberdade do corpo e uso da maquiagem como questões prioritárias, mas essas não são pautas que atingem todas as mulheres, principalmente as de menor poder aquisitivo.

Em lugares que ainda perpetuam a exclusão social, como nas universidades brasileiras, rodas de conversas e palestras são frequentemente levantadas – internamente. No entanto, será que essas estudantes são realmente as que mais precisam desse debate? E as mulheres na periferia? As que não podem estudar porque têm um filho para criar? As que moram em zona de risco? As que trabalham 12 horas em pé dentro da sua universidade – isso mesmo, essa que você estuda – limpando os escritos sobre amor próprio que você deixou no banheiro, de batom ou de sangue, para empoderar outras mulheres? Esse feminismo não me representa.  Continuar lendo

Amizades Tóxicas

TEXTO DE OPINIÃO

Érica Jênifer (*)

Nos últimos anos o feminismo tem ocupado cada vez mais espaço na sociedade. Com o movimento feminista aprendi que não devo deixar que me rebaixem pelo fato de ser mulher, conheci e entendi o significado das palavras “sororidade” e “empoderamento”, encontrei a oportunidade de mudar meu mundo e o de todas as mulheres. Graças a ele também passei a usar a frase “fuja de relacionamentos tóxicos” como um guia na vida, sendo assim capaz de evitar vários possíveis namoros desagradáveis.

Mas não é apenas em um namoro, casamento, ou qualquer tipo de envolvimento amoroso, que acontece de alguém, que deveria fazer bem, fazer mal a você. Percebi isso quando um desentendimento com uma amiga me fez lembrar de uma amizade no início da adolescência, em que me via obrigada a obedecer se me mandavam fazer algo, rir junto quando tiravam sarro de mim, concordar com qualquer coisa que fosse dita, e aceitar se decidiam me excluir de vez em quando.

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Marcha das Vadias acontece neste sábado em Curitiba

Em sua 5ª edição em Curitiba, a Marcha das Vadias acontece no próximo dia 4 de julho e tem como principal grito a reinvindicação pelo aborto.

(*) Dayse Porto

Arte: Tayná Miessa

A capital paranaense recebe a 5ª edição da Marcha das Vadias que, com o tema “Vadias sabotando o Estado”, vai às ruas no próximo sábado, com concentração às 10h30, na Praça da Mulher Nua (Praça 19 de Dezembro).

Planejada há meses coletivamente por mulheres organizadas na cidade, em 2015 a Marcha das Vadias de Curitiba vai às ruas pelo direito e autonomia ao próprio corpo, contra a violência do Estado, pela não culpabilização da vítima, pelo fim do extermínio da juventude negra, pela despatologização das identidades trans e pela não criminalização da pobreza.

A Marcha sairá da Praça da Mulher Nua, às 12h, em direção a imagem da Nossa Senhora da Luz (Rua Barão do Serro Azul), seguindo até a imagem Maria Lata D’água (Praça Generoso Marques) tendo fim com uma confraternização na Boca Maldita.

Em cada uma das paradas, será realizado ato simbólico em apoio aos professores massacrados pelo Governo do Estado no dia 29 de abril, ato das Mulheres Negras, ato das Mulheres Trans — com o Transgrupo Marcela Prado de Curitiba, e ato pelo aborto. São esperadas aproximadamente 2 mil pessoas marchando este ano.

O organização da Marcha das Vadias também está vendendo botons a R$ 2, ou 3 por R$ 5, camisetas brancas personalizadas a R$ 20, camisetas personalizadas coloridas a R$ 25 e ecobags personalizadas por R$ 5.

 

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“Só por cima do meu cadáver!”

Quinta maior causa de mortes maternas no Brasil, o aborto induzido é considerado crime. Segundo um estudo da Universidade de Brasília (UnB), uma a cada cinco mulheres com mais de 40 anos já fizeram, pelo menos, um aborto na vida. De acordo com os dados do o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) existem 37 milhões de mulheres nessa faixa etária, portanto estima-se que 7,4 milhões de brasileiras já fizeram pelo menos um aborto na vida.

Ainda assim, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara dos Deputados, foi enfático ao dizer que “O aborto e regulação da mídia só serão votados passando por cima do meu cadáver”, na primeira semana de seu mandato na Casa. Foi assim que começamos os tempos sombrios com o Congresso, que está sendo cunhado de “o mais conservador desde 64”.

O peso dessa afirmação recai constantemente na violência cometida contra mulheres. O deputado evangélico de 56 anos, fiel da Igreja Sara Nossa Terra, não apenas não pretende pautar a legalização do aborto, como pretende impedi-la.

Em um país com taxa anual de 527 mil tentativas ou casos de estupros consumados, dos quais 10% são reportados à polícia, segundo um questionário sobre vitimização do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o aborto é considerado crime. Em vigor desde 1984, o Código Penal Brasileiro categoriza o aborto como crime contra a vida humana, prevendo detenção de 1 a 3 anos para a mulher que o praticar.

A Marcha das Vadias de Curitiba questiona a criminalização vinda de uma sociedade — muito bem representada por Eduardo Cunha — escandalizada com a palavra vadia, mas que não se escandaliza diante da violência diária e institucionalizada contra às mulheres.

Marcha das Vadias 2015: Vadias Sabotando o Estado!
Sábado, dia 4 de julho, na Praça da Mulher Nua, às 10h30.

*Dayse Porto é aluna do CTCOM.