Professor: entre a nobreza e o descaso

Professor Ricardo exerce a profissão há 15 anos – Foto: Arquivo Ricardo Grokorriski

Jéssica Pacheco 

Ser professor significava antigamente ser visto com superioridade e respeito. Ele era aquele profissional que deveria receber toda a valorização pela nobreza que seu cargo representava para a sociedade. Atualmente, o educador, apesar de ainda ser uma das bases para a construção de um país melhor, vem sendo constantemente desvalorizado e desrespeitado.

Segundo pesquisa da Varkey Foundation (Global Teacher Status Index 2018), dos 35 países analisados o Brasil ficou em último lugar em relação à temática sobre se a sociedade valoriza o professor. A pesquisa mostrou que apenas 9% dos brasileiros acreditam que o aluno respeita o professor.

O quadro pessimista sobre a profissão está relacionada diretamente à forma como o país percebe a educação dentro daquilo que elenca como sendo mais relevante para seu desenvolvimento. O Brasil destina apenas 6% de seu PIB para esta área – seu gasto médio é de apenas US$ 2,9 mil por aluno/ ano, quando a média de investimento em outros países é de US$ 8 mil por aluno/ ano, de acordo com Gregory Elacqua, economista do Banco Interamericano de Desenvolvimento, em entrevista concedida ao Jornal Nexo.

Dentro dos 6% destinados à educação está a remuneração dos professores, que é um dos fatores acentuam a sua desvalorização. No Brasil, este profissional é mal remunerado, ganhando cerca de metade do salário de outros trabalhadores com o mesmo nível de formação, conforme o relatório do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento).

De acordo com pesquisa realizada por esta repórter com uso de questionário que contou com a participação de 100 professores paranaenses, a educação no estado do Paraná ainda precisa evoluir muito para que se tenha bons resultados. Para 84% dos professores ouvidos, não há valorização, os salários são baixos e as condições de trabalho não são adequadas.

A forma como o professor é visto pela sociedade influencia diretamente no desempenho final dos alunos e nos índices educacionais, assim como a forma como é tratada a própria estrutura física e organizacional destinada à educação, que muitas vezes é precária e limitada.

“Nossas escolas são mal cuidadas, esteticamente não são agradáveis, são feias, as bibliotecas, os laboratórios de informática ou mesmo as salas de aulas não são confortáveis para valorizar uma ação de educação”, diz o professor Ricardo Grokorriski, que atua há 15 anos na escola pública.

O professor se vê frequentemente limitado em suas funções, sua rotina de trabalho é exaustiva, sua formação é limitada pela exaustão e a falta de incentivo e seu ambiente de trabalho é na maioria das vezes imprópria para a formação integral do ser humano para que é proposta, relatou ainda o professor. Todos esses fatores ajudam a compreender por que a colocação do Brasil nos rankings educacionais é tão ruim.

A formação contínua do professor ajudaria sem dúvidas na melhora da qualidade de ensino nas escolas, mas faltam programas de incentivo aos professores. Como conta o professor Ricardo, os professores geralmente trabalham 40 horas semanais, e esse período “suga” qualquer energia do professor, que faz com que ele não se sinta com energia para expandir seu conhecimento para estudar mais.

Continuando a observação dos percalços na carreira de professor, também percebe-se que o professor além da carga de horário temporal grande também tem que enfrentar diariamente uma sobrecarga de funções. O professor se depara cotidianamente com dificuldades que estão além do pedagógico: são alunos com problemas familiares, problemas psicológicos, fome, alunos expostos à violência, alunos com necessidades especiais. Todas as dificuldades se evidenciam dentro da sala de aula, e o professor tem que “dar conta” de tudo.

“Estamos com uma demanda de alunos que a cada dia chegam com mais problemas, famílias desestruturadas, que afetam diretamente o processo de ensino aprendizagem”, afirma a professora Vívian Barausse de Moura, que atua há 11 anos na educação.

A decisão de se manter na carreira de professor é, na maioria das vezes, motivada pelo fator da gratificação pessoal da profissão, como demonstrou a pesquisa própria, em que 81% dos professores consideraram a carreira satisfatória por esse motivo, mas insatisfatória por conta do salário e dos diversos ataques contra seus direitos adquiridos.

“A atual situação da educação no estado do Paraná é muito ruim, vários direitos dos professores estão sendo retirados, a redução da hora atividade, por exemplo, foi um dos fatores que mais nos prejudicou”, relatou a professora Evelyn dos Santos Filla.

Redução de hora atividade, não pagamento da data-base, congelamento de promoções e progressões, manutenção de anuênios e quinquênios e a ameaça ao fim da licença-prêmio e não realização de concursos, são alguns dos motivos que fazem com que os professores acabem muitas vezes desmotivados e cansados dessa profissão que é tão nobre.

Dentre 100 professores que participaram da pesquisa, 61% indicariam a profissão para outras pessoas, mas afirmam que fariam ressalvas sobre todo o cenário atual da educação. Nas palavras da professora Evelyn, apesar das barreiras e obstáculos encontrados pelo caminho, ser professor é muito gratificante, porém para seguir nesta profissão a pessoa precisa amar o que faz, só assim terá ânimo para continuar.

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