Patinetes elétricas: uma solução ou um problema para a mobilidade urbana?

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Texto e fotos: Leticia Cieslak Ferreira

As empresas Grin e Yellow, responsáveis pelos patinetes iniciaram suas atividades em Curitiba em janeiro e fevereiro respectivamente, e a princípio, a população foi muito receptiva com o novo meio, pois, de acordo com ambas as empresas, o patinete trás para a cidade um meio prático, barato e divertido.

Após alguns meses, começaram a haver diversos problemas com os quais os cidadãos e as autoridades tiveram que lidar, por exemplo: qual o lugar mais adequado para se andar com os patinetes, tento em vista que grande parte da cidade não possui ciclovias? Então, os usuários começaram a se utilizar principalmente das calçadas, tendo em vista que compartilhar o tráfego com os carros seria mais perigoso, mas, isso traz um segundo problema, que é: como dividir a calçada entre pedestres e patinetes?

Este problema chegou à Câmara Municipal e gerou o protocolo de um projeto de lei (005.00095.2019), do qual o vereador Jairo Marcelino (PSD) sugeriu a proibição do uso dos patinetes nas calçadas, pois de acordo com ele, isso seria uma violação da liberdade dos pedestres.

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Diante disso, onde devem circular os patinetes? Essa foi uma pergunta feita ao arquiteto Felipe Perretto, que responde: “Uma das soluções seria a limitação do uso em ciclovias compartilhadas, e incentivo do tráfego dos patinetes em faixas exclusivas e ciclofaixas”.

Porém, é preciso reconhecer que a malha cicloviária de Curitiba é limitada, tendo apenas 208,5 km, sendo dividida em diversas subcategorias, e a respeito disso, o arquiteto relata que instaurar mais vias é apenas uma solução básica de infraestrutura urbana.

Outra grande polêmica é a regulamentação dos patinetes. Na Câmara, além do projeto já citado, existe também o projeto de lei (203.00013.201) criado pelo vereador Bruno Pessuti (PSD) que busca permitir que, ao invés de estacionar na calçada, os patinetes devem ser estacionados nas vagas de EstaR, gratuitamente. Nesse âmbito, o deputado estadual Goura (PDT) diz que o excesso de regulamentação acaba atrapalhando e causando dificuldade aos empresários, e que “a cidade precisa criar espaços para esse tipo de mobilidade”.

Ainda quanto às leis, Perretto declara: “A partir do momento em que a patinete se insere na malha urbana como um meio de transporte e é passível de escolha para deslocamento, a sua regulamentação se faz necessária, principalmente nos quesitos de infraestrutura municipal e segurança”.

Acidente

Recentemente, ocorreu o primeiro caso de acidente de patinete, com uma adolescente de 15 anos que bateu de frente com uma bicicleta. Com isso, vem à tona a questão da segurança ao utilizar esse meio de transporte. As empresas Grin e Yellow disponibilizam tanto nos APPs, quanto em seus sites, manuais de instruções sobre o uso de equipamentos de segurança e formas de se manter seguro ao utilizar os patinetes, entretanto, grande parte dos usuários não faz uso de capacetes – que é uma recomendação básica feita pela própria empresa – aumenta a probabilidade de se machucar.

Perretto relata que “o usuário deve ter ciência dos requisitos mínimos para a sua segurança no equipamento e da segurança dos demais que compartilham o espaço, pautados pela regulamentação. O uso de equipamentos de proteção, tráfego em local apropriado, controle da velocidade máxima permitida e noções de comportamento no trânsito poderiam impedir esse tipo de acidente”.

Inovação

Ao mesmo tempo que existem vários problemas, também há várias soluções que acompanham esse novo modo de se deslocar pela cidade. “Acredito que as patinetes podem ser inseridas como uma solução por ocuparem pouco espaço e para vencer trajetos curtos que não são contemplados pelo transporte público”, define a arquiteta Ludmila Freitas. Por abrangerem principalmente espaços centrais e adjacentes da cidade, as patinetes trouxeram uma segunda opção ao transporte público, tão eficiente e talvez até mais rápida que os ônibus.

Outro ponto é que Curitiba é conhecida por ter desenvolvido diversas ações buscando melhorias ambientais. As patinetes são uma oportunidade de mostrar que a conscientização também deve ser realizada em relação aos meios de transporte utilizados pelos cidadãos, e a patinete se encaixa como meio sustentável, por não emitir nenhum poluente, diferentemente dos ônibus e automóveis. “Acredito que a gente tem um potencial aqui em Curitiba. E tudo tem que ser considerado numa cidade realmente sustentável, numa cidade que quer ser inovação, que quer ser referência para outras capitais, e para outras cidades no Brasil e no mundo”, afirma Goura.

As patinetes trouxeram mais opções de locomoção para os cidadãos, ampliando a gama de possibilidades, na opinião de Perretto: “Uma solução apresenta-se a partir da intermodalidade, da oferta saudável dos serviços e possibilidades de escolha para o usuário.” Sendo assim, como as próprias empresas relatam, é um meio de encurtar distâncias, diminuir o tempo de locomoção e ainda ser divertido.

Solução ou um problema?

Cada habitante da cidade possui uma opinião a respeito do uso das patinetes, mas certamente alguns concordam que ela e outros novos modais trouxeram oportunidades secundárias ao transporte coletivo e à utilização de automóveis. Um meio de transporte barato e rápido, mas que demanda uma malha cicloviária ainda não existente em Curitiba, e portanto não tão eficiente como poderia ser.

O arquiteto Felipe Perretto defende que as patinetes, assim como outros modais que vêm surgindo na cidade, são uma solução, desde que haja isonomia entre os três principais agentes envolvidos nessa relação: o poder público, a empresa prestadora do serviço e os usuários, ou seja, cada qual cumprindo o seu papel para que de fato funcione como uma opção sustentável e de qualidade para o transporte em centros urbanos.

Para o deputado Goura, “as patinetes são parte de tentativas para solucionar um problema de mobilidade.” Para ele, o problema é a falta de opções coletivas de meios de transporte para que as pessoas pudessem escolher democraticamente.

Perfis de usuários

O perfil dos usuários é dos mais variados possíveis. Podem ser vistos nas ruas desde os mais jovens, utilizando a patinete para se locomover de forma divertida, até mesmo os engravatados, saindo do almoço para voltar a empresa. A seguir, os principais perfis de usuários.

A turista

É aquela pessoa que usa só para o lazer, e para “turistar” pela cidade de forma divertida. Nessa categoria encaixam-se as estudantes Amanda de Lara Hey e Juliana, que declararam que utilizaram o meio de transporte apenas por diversão. “Acho a patinete incrível. Ele sempre nos salva no dia a dia quando estamos atrasados, além de ser sustentável”, diz Juliana.

O engravatado

É aquele homem de meia idade que a utiliza no trajeto do trabalho para casa, ou do restaurante para o trabalho e assim por diante, como forma de locomoção de um ponto a outro. Sempre que o vemos, ele está de roupa formal. O deputado Goura relatou que utiliza do meio “para se deslocar pela cidade”.

O curioso

É aquela pessoa que usou o patinete uma vez e adorou a experiência, e desceu do patinete já contando para todos os amigos e colegas sobre a experiência. O estudante Gabriel Rizo Silva Soares relata que “a experiência é bem animadora”.

A atrasada

É aquele indivíduo que precisa correr para um compromisso pois se atrasou um pouquinho, admitindo que ir de patinete talvez seja a melhor solução. A estudante Ana Carolina Miranda de Barros conta que algumas vezes quando precisava chegar logo a compromissos optou por se deslocar de patinete, só que imprevistos acontecem. “Acontece que eu acabei me atrasando mais ainda, em todas, porque o momento de ligar o patinete, escanear ou então terminar a corrida são chatos e dependem de uma internet boa”, lamenta.

 

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