Fone de ouvido na algibeira

Rodolfo Egito 

No ano eleitoral de 2018, em que “A forma da água” ganhou o Oscar de melhor filme, que a França conquistou sua segunda Copa do Mundo, Eike Batista foi preso e o estado do Rio de Janeiro proibiu o uso dos canudos plásticos, também  vivemos uma das maiores oposições políticas já vista.

A polarização (acentuada após o primeiro turno), e são poucos os que omitem seu posicionamento, seja nas ruas, universidade e nas redes sociais.

Amizades estão sendo postas à prova, namoros estão acabando e a ceia de Natal em família nunca esteve tão em risco como agora. Mas como todo momento político, as discussões não se limitam ao campo social, e artistas acabam sendo grandes arautos e porta-vozes de ambos os lados, seja por intervenções artísticas, peças de teatro, pinturas e músicas.

É engraçado como uma obra artística torna-se atemporal, servindo como base de interpretação para diversos momentos da história, e a música nos dias atuais torna-se a opção de mais fácil acesso para qualquer um que tiver a audácia de escutar. Em tempos de #EleNão, a lista do que ouvir é extensa.

Lançada em 2016 no álbum Caça às Bruxas, a música “Bolso Nada”, da banda Francisco el Hombre faz uma crítica dura e direta ao presidenciável do PSL. Inserida no ano em que as polêmicas do pretendente ao Palácio do Guanabara já atingiam âmbitos internacionais, com críticas da imprensa estadunidense e europeia, além é claro da fatídica entrevista sobre homossexualidade com a atriz canadense Ellen Page, a canção é cantada a plenos pulmões nos atuais dias por opositores do mesmo. Sobre a música, um dos integrantes da banda disse ao Estadão: Não tinha como ser diferente. Além de 2016 ter sido particularmente conturbado para todos os integrantes da banda, o Brasil viveu um dos piores momentos da sua história.”

https://www.youtube.com/watch?v=ncchVgkOO_A 

É conhecido também que o candidato de direita é totalmente contra a liberação da prática do aborto, causa que é defendida por boa parte da população, principalmente mulheres. Essa é a temática da música “Artemísia”, da banda goiana Carne Doce, escrita a partir de uma experiência vivenciada em 2012 pela própria vocalista, Salma Jô, que optou por realizar um aborto no começo da carreira da banda. A letra da música começa com o trecho não vai nascer / porque eu não quero / porque eu não quero e basta eu não querer”, que por si só, já traz todo o tema por trás da composição.

https://www.youtube.com/watch?v=sJWRv99K5Tw 

Em tempos em que o termo “estado laico” não mais se encaixa tão bem à realidade do país (apesar de previsto na Constituição), e quando uma das maiores bancadas no congresso é a evangélica, Elza Soares chega com a impactante faixa “Exu nas Escolas”, de seu novo álbum “Mulher do Fim do Mundo”, trazendo praticamente um clamor por reconhecimento e respeito pela diversidade e  cultural de origem africana inserida no Brasil. A cantora ainda traz em trecho da música: “Num país laico, temos a imagem de César na cédula e um ‘Deus seja louvado’, evidenciando ainda mais a não neutralidade do Estado em relação à religião”. 

https://www.youtube.com/watch?v=NmDsmHtOgyw

Já faz 4 anos que tivemos uma Copa do Mundo em solo nacional: muita alegria, festa e protesto. Mas entre gritos de “não vai ter Copa” e “gol da Alemanha”, também tivemos o lançamento de “Bem-Vindo ao Brasil” dos cearenses do Selvagens à Procura de Lei, música que apesar de ter sido inserida num momento um tanto quanto diferente, nunca esteve tão atual. A letra com pitadas de ironia parece ter sido escrita em pleno 2018, de tão similar a vários discursos frequentemente vistos nos últimos tempos. “Queríamos que ela fosse simples, direta e rápida, como um soco”, disse um dos integrantes da banda em entrevista à revista Rolling Stone. Eu senti.

https://www.youtube.com/watch?v=8cfTFHl2iZM

“Infelizmente não é uma baladinha de amor. Infelizmente é um textão. Infelizmente não é a música que vocês querem ouvir, mas talvez seja a música que vocês precisem de ouvir. Infelizmente, se não fosse assim, não seria Lupe de Lupe”. Lançada com essa frase pelo Facebook da banda de Belo Horizonte em maio deste glorioso ano de 2018, o single “O Brasil Quer Mais” traz em sua letra ácida toda a pluralidade e a divergência de opiniões tão comuns de se ver nos dias atuais, dando relevância ao passatempo preferido do brasileiro: julgar. A música é dividida em três partes principais e vem como uma mescla de desabafo e reflexão, longa com duração de mais de 8 minutos, requer tempo e paciência do ouvinte, que se não tiver nem um nem outro, não se arrependerá de ao menos ler a letra da composição.

https://www.youtube.com/watch?time_continue=7&v=YdjjvVP4BO8

São cinco músicas, de cinco artistas distintos, que valem cada segundo escutado. Concordando ou não com os dizeres delas, é sempre bom deixar o senso crítico em primeiro plano e tentar absorver ao máximo o que cada composição busca trazer, como elas se inserem no atual momento (2018 ou não) e acima de tudo prestigiar o talento e coragem de seus compositores.

A diversidade cultural do nosso país é enorme. A facilidade de acesso à tudo isso nos dias de hoje é clara. Fora os já citados, muitos outros artistas trazem em suas músicas conteúdos que transcendem o uso dos fones de ouvido como recreação e os transformam em uma ferramenta de resistência, reflexão e canal de transporte para uma mensagem maior, e tudo isso a um clique ou um simples toque de distância. A escolha é sua: vai dar play ou pular para a próxima faixa?

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