Intervenção militar no Rio é criticada em debate na Flip

freixo

Marcelo Lima

A violência e a insegurança entre a população mais pobre aumentaram desde que o governo federal iniciou a operação de intervenção militar do Rio de Janeiro. Cinco meses depois do início da ação, foram investidos R$ 3 bilhões, mesmo assim, ocorreu um aumento de 37% em conflitos armados e 80% em chacinas nas regiões mais pobres da cidade.

Estas informações foram apresentadas no debate sobre a intervenção promovida hoje pela manhã no Flipei, barco que reúne editoras independentes – na 16ª Flip, que contou com a participação da professora Anielle Franco, irmã da vereadora Marielle Franco; o deputado estadual Marcelo Freixo (Psol) e a professora Jaqueline Muniz, ex-diretora de segurança pública do Rio de Janeiro e pesquisadora nessa área há 20 anos. 

“A intervenção não tem o menor sentido. Com muito menos dinheiro poderia ter sido feito um investimento mais eficiente em um serviço de inteligência que combatesse o crime sem violência contra a população”, afirmou Freixo. Segundo ele, o Brasil tem uma das taxas de esclarecimento de homicídios mais baixas do mundo – menos de 4% dos casos.

Para o deputado, trata-se de “uma intervenção política e não militar. Ela foi elaborada pelo marketeiro do Temer depois do carnaval para melhorar a imagem do governo, que foi atacado por algumas escolas de samba”. O deputado, um dos responsáveis pela CPI das Milícias iniciada em 2008 na Assembleia Legislativa do Rio, que resultou no indiciamento de 225 pessoas, disse que a ação militar não teve nenhum planejamento, e que cumpre papel de propaganda com um resultado desastroso para a população mais pobre.

“Em nome da lógica do combate ao tráfico, se mata muita gente nas áreas pobres nas cidades brasileiras. Não se trata apenas de um debate de economia, mas de território. A taxa de homicídio é muito diferente na Maré e no Leblon. Em nome da segurança, está ocorrendo uma flexibilização das ideias de democracia e liberdade”, defendeu Freixo.

Para ele, a política de segurança do Rio de Janeiro tem incentivado a formação de áreas segregadas onde se concentram as pessoas que são as maiores vítimas das violências. O número de homicídios de negros pobres pode ser até 30 vezes maior do que o de brancos de classe média numa mesma cidade brasileira. O deputado contatou que a classe média, intimidada com notícias sobre o aumento da violência, acaba apoiando políticas autoritárias que mantêm a segregação.

“Em nome da segurança, determina-se quem são os meus iguais. Com isso, são definidos os novos muros da cidade. Não é à toa que ser defensor dos direitos humanos no Brasil se tornou muito perigoso, pois é o país que mais mata esse tipo de ativista no mundo”.

A professora Anielle Franco, de 34 anos, relatou que desde sua infância, ela e sua irmã – que teria completado 39 anos ontem – presenciaram vários episódios de violência na região da Maré, onde moravam com seus pais. “Quando era pequena, a Marielle me protegia com o corpo dela quando passávamos por lugares onde havia a presença da polícia”, relatou.

Ela contou que, durante a infância e a juventude, a casa onde moravam foi invadida várias vezes pela polícia. “Não é de hoje a presença ostensiva das forças policiais contra as pessoas pobres que moram nas favelas. Eles chegam sem avisar e fazem o que bem entendem na casa dos pobres”, relatou.

A professora Jaqueline Muniz, do Departamento de Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense, afirmou que no Brasil há uma política equivocada de segurança pública, baseada na exclusão das pessoas pobres. “Existe uma polícia do bem, que é a polícia de verdade, e uma polícia dos bens, que se chama milícia e que funciona dentro do próprio estado, que sabe antes de todos como as coisas acontecem”.

Assim como Freixo, ela concorda com a ideia de que é preciso investir em um sistema de inteligência, com produção de conhecimento e organização de saberes, para que medidas efetivas contra o crime possam ser tomada.

Ela lembrou que o Rio de Janeiro, desde a Eco-92, teve 33 GLOs (garantias da lei e da ordem), com a utilização das forças armadas, “sempre de forma improvisada”, sob o pretexto de estar protegendo a população. Segundo a pesquisadora, trata-se de uma ação que trabalha diretamente com o medo em relação ao outro na sociedade. “A segurança é uma espécie de síntese de todos os nossos medos. O medo de perder emprego, de ser vítima de um crime violento. No Rio de Janeiro de hoje, o maior medo é o de ficar perdido no meio de um tiroteio e não voltar para casa”.

Jaqueline explicou que esse sentimento de insegurança tem rentabilidade política, que justifica um regime de exceção continuada.  “E o medo é um péssimo conselheiro. Diante desse medo, a gente quer um fortão imediato que possa garantir a nossa vida. Esse fortão de ocasião será o seu libertador hoje e amanhã vai ser o tirano a cobrar taxas”.

“Hoje o que experimentamos no Rio de Janeiro é ascensão predatória de governos autônomos. O rendimento disso é que há uma economia política em rede, que nada tem a ver com tráfico de drogas. Essa economia é controlada pelas milícias. Com o argumento da lutar contra as drogas, os efeitos colaterais viraram rotina. A metáfora da guerra serve para naturalizar a predação. Normalmente, quem morre são os pretos e pobres que moram nas favelas, assim como os próprios policiais, que vem desse mesmo extrato social”, explicou.

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