Projeto apresentado na Flip incentiva participação de mulheres negras na política

As ativistas Ana Carolina Lourenço, Dayse Sacramento e Juliana Marques

Marcelo Lima e Eliane Basilio de Oliveira

Um espaço para discutir exclusivamente temas relacionados à produção literária e a questões próximas às mulheres negras. Este é o objetivo da Casa Insubmissa de Mulheres Negras, que conta com uma vasta programação na 16ª Flip – festa literária de Paraty, realizada de 25 a 29 de julho. O espaço foi criado e patrocinado por um grupo de ativistas de Salvador (BA) cujo objetivo é refletir e criar ações para aumentar a visibilidade dessas mulheres.

Na noite de sexta-feira (27/08), a Casa promoveu uma conversa sobre política com as ativistas Ana Carolina Lourenço e Juliana Marques, que estão à frente do projeto “Rede Umunna: Mulheres Negras Decidem”, que elaborou uma plataforma e uma campanha destinada a gerar dados positivos sobre esse grupo social. O projeto foi desenvolvido em parceria com a ONG Transparência Brasil.

“Quando se fala em dados sobre as mulheres negras, sempre se pensa em informações negativas. A plataforma, ao contrário disso, busca trazer dados que mostram o protagonismo dessas mulheres”, afirmou Ana Carolina. É a primeira plataforma brasileira de mobilização desse grupo social centrada em dados, contando com números, entrevistas de ativistas, políticas e candidatas.

Um dos dados mais expressivos é que as mulheres negras representam 27% do eleitorado brasileiro, ou seja, são a maior força eleitoral do país, capaz de decidir uma eleição. “Elas têm o poder de compor boa parte da política institucional”, explicou Ana Carolina.

Segundo ela, os dados desmentem uma série de mitos sobre a sub-representação desse grupo social na política. Dentre eles, as ideias segundo as quais negros não votam em negros, mulheres negras são eleitas com votos da elite branca, mulheres negras não são eleitas porque não têm qualificação, não há nenhuma relação entre ser mulher negra e defender direitos humanos.

“Reunimos oito grandes mitos e fizermos uma contra-argumentação baseada em dados, mostrando que eles são apenas mitos”, explicou Ana Carolina. “O que fizemos foi apenas cruzar algumas bases de dados públicos, debates de teoria política e de igualdade racial e criar contra-argumentos”. Foram usados dados do Tribunal Superior Eleitor (TSE), do IBGE e mapas de votação.

“Essa uma grande cartada para as ativistas, pois essas frases não são verdadeiras e elas são absolutamente desmobilizadoras”, afirmou Juliana Marques. Segundo ela, muitas vezes os próprios partidos políticos, com base nesses mitos, desestimulam as candidatas negras a criarem lemas de campanha ligados a temas relacionados à negritude.

A pesquisa realizada pelo grupo desmente a informação de que a vereadora Marielle Franco (Psol) teria sido eleita pelo voto da Zona Sul do Rio de Janeiro, que conta com um percentual mais alto de brancos do que as áreas periféricas da cidade. “Na verdade, ela teve uma porcentagem expressiva no Cosme Velho e Laranjeiras, que são bairros mais ricos, acompanhando uma tendência de voto do partido dela, mas seu diferencial em relação aos outros candidatos do Psol foi uma votação muito mais expressiva na periferia”, analisou Juliana Marques.

Ações

Além de disponibilizar o acesso a esses dados, uma das propostas do grupo de trabalho é realizar reuniões envolvendo mulheres negras que já têm experiência na política institucional, com aquelas que pretendem ingressar nessa área. Nos “Ciclos mulheres negras decidem”, além da troca de experiências, elas têm acesso a informações sobre o funcionamento do sistema político brasileiro.

Ana Carolina contou que o projeto foi lançado no dia 14 de março, na comunidade da Maré, no Rio de Janeiro, no mesmo dia em que a vereadora Marielle Franco foi assassinada. A comoção e o choque causados pela execução da vereadora não intimidou a participação das mulheres. O grupo contou com um número maior de pessoas interessadas em participar das reuniões e concorrer a cargos políticos nas eleições deste ano. Até agora, participaram cerca de 100 pessoas, no Rio de Janeiro e São Paulo. A meta é levar o projeto para outros Estados.

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