Produção literária de mulheres negras precisa ter mais visibilidade, defende Conceição Evaristo na Flip

Conceicao

Marcelo Lima

A visibilidade de escritoras negras está crescendo nos últimos anos no Brasil. Um passo importante foi dado em 2017, quando muitas delas conquistaram espaço na 15ª edição da Festa Literária de Paraty (Flip), dentre as quais a mineira Conceição Evaristo, de 71 anos, que, com muito carisma, tem arrancado aplausos nos eventos de que participa em várias cidades brasileiras.

Não foi diferente na tarde de hoje (26/07), quando Conceição participou de uma roda de conversas na programação da 16ª Flip, que acontece de 25 a 29 de julho em Paraty (RJ), contando com uma vasta programação de palestras, mesas-redondas, sessões de autógrafos e encontros com autores brasileiros e estrangeiros. Nesta edição, a Flip homenageia a obra da escritora Hilda Hilst.

Conceição defendeu que, apesar do cenário político reacionário do Brasil atual, as escritoras negras estão começando a ocupar espaço na literatura. Ela mesma é exemplo dessa ascensão.

A escritora publicou seu primeiro livro no início da década de 1990, mas só se tornou nome conhecido nacionalmente há poucos anos. Hoje é candidata a uma cadeira da Academia Brasileira de Letras (ABL). A resposta da homologação de sua candidatura será dada pelos acadêmicos em meados de agosto. Se depender do público de Paraty,  já está eleita.

Para Conceição, a literatura produzida por mulheres negras deve traduzir as lutas desse grupo social, historicamente um dos mais discriminados no país. Ela relembrou que uma das funções das mulheres negras era, durante o período da escravização, contar histórias de ninar para adormecer os filhos dos senhores brancos. “Hoje, nossa escrita tem como função acordá-los de seus sonhos injustos”.

A escritora afirmou que o atual cenário da produção cultural oferece algumas aberturas para as mulheres negras, com a publicação de livros, realização de palestras e estudos acadêmicos. Ela própria fez suas pesquisas de mestrado e doutorado tendo como tema a literatura produzida por mulheres negras. Está preparando um livro com artigos de várias autoras sobre a literatura de mulheres negras no Brasil.

Conceição explicou que sua literatura é uma “escrevivência”, ou seja, uma mistura de vivência pessoal com uma preocupação com os elementos formais do texto. Ela contou que, em suas narrativas, procura preservar a força da oralidade. “Sempre leio os meus textos em voz alta, antes de finalizá-los. Uso também muitas palavras do português arcaico e vocábulos na língua bantu. Quando escrevo, não basta ter uma história para contar, mas é preciso ter uma forma literária”.

Conceição disse que seu texto está comprometido com a realidade e com a vivência, e procura trazer a história de outras mulheres negras que abriram o caminho para as gerações mais novas.

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