Cheio de vida – Luís Felipe Sprotte Costa

luis
Roberson Popadiuk

O ano é 2005, seu primeiro em Budapeste. Estava com seus colegas de classe de húngaro em uma visita ao parlamento. Após a visita, pegou uma carona com sua colega russa de volta ao Instituto Balassi Bálint, onde morava e estudava. Narrússia, nome carinhosamente dado por ele, era uma mulher muito peculiar, reclamona, sempre falando do país de origem.

Ele entrou no carro e imediatamente começou a ouvir os protestos de Narrússia sobre o trânsito de Budapeste. Já estava completamente perdido na conversa, pois a amiga já estava a falar apenas em russo. Olhou o trânsito e disse: “Há tanto carro em Budapeste hoje em dia!” E aí começou uma das mais emocionantes viagens que Luís Felipe Sprotte Costa fez na vida.

Inspirado em experiências que viveu em suas temporadas em Budapeste, nasceu o livro de contos “Há tanto carro em Budapeste hoje em dia”, que também dá nome ao primeiro conto da obra. Esse foi o marco da vida de Luís Felipe, um catarinense pra lá de curioso, um tanto quanto perdido em meio a milhares de lembranças que coleciona, porém esperançoso com o futuro que planeja nas páginas que escreve.

Cineasta por formação, Luís iniciou sua vida adulta almejando ser escritor. Apesar do diploma, escreveu e dirigiu apenas um curta-metragem. “Nunca gostei muito de dirigir e de trabalhar no set de filmagem, muita gritaria e muito inquietante”. O curta, que também foi seu trabalho de conclusão de curso da faculdade, é a narração de um poema escrito pelo próprio. O poema é narrado em 5 línguas e nasceu em sua primeira viagem a Hungria, quando ganhou uma bolsa de estudos para estudar húngaro no Instituto Balassi Bálint. A viagem aconteceu no meio da faculdade de cinema, por isso, Luís trancou o curso por um ano para ter sua primeira paixão chamada Hungria. Isso mesmo, seu primeiro amor foi um país, o primeiro ser humano veio depois, alguém que conheceu também na Hungria em sua segunda passagem pelo país. O namoro com o belo húngaro (de acordo com Luís) não durou muito, mesmo ainda apaixonado, resolveu terminar seu relacionamento para voltar ao Brasil. A ideia era voltar e começar a estudar para um concurso para ser diplomata (ninguém segurava esse catarinense).

Apaixonado por línguas, em conjunto com a faculdade de cinema, também iniciou o curso de Letras Português-Alemão na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em Florianópolis, cidade na qual viveu a maior parte da sua vida acadêmica. Nunca conseguiu se formar em Letras, ou melhor, nunca conseguiu achar tempo para se formar dentre as milhares de coisas que fez durante seus 33 anos de vida. Até tentou, depois de se formar em Cinema e algumas viagens a Europa, mudou-se para Curitiba e transferiu o curso de Letras para a Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Com uma trajetória de vida bem aventureira, Luís foi de recém-formado em Cinema para vendedor de microchips em uma multinacional americana em Budapeste (sua segunda ida ao país), recepcionista em um cruzeiro na Itália, assistente em educação patrimonial em uma companhia de arqueologia em Curitiba e comissário de bordo na Emirates em Dubai. Como comissário chegou a voar apenas duas vezes, seu primeiro voo foi de Dubai para Paris e o segundo de Dubai para o Paquistão, depois disso se demitiu e retornou ao Brasil. De volta ao país, o cineasta e pseudo-escritor começou a dar aulas particulares de idiomas. O catarinense, nascido na cidade de Mafra, fala fluentemente cinco idiomas: português, espanhol, inglês, húngaro e italiano. Além desses, ainda se arrisca um pouco no alemão e francês. Em meio às aulas que dava e outras atividades que fazia, começou a escrever em 2012, apesar de as ideias já estarem “escritas em sua mente” há muito tempo atrás.

“Comecei a escrever para relembrar todas as experiências incríveis que tive nas minhas viagens para Hungria”, conta Luís Felipe. Escreveu por alguns anos e arriscou um tentativa de publicação, enviou os contos para uma editora e foi rapidamente aprovado. “Tudo aconteceu muito rápido. Não planejei muito bem esses acontecimentos”. Entre o envio dos contos para a editora e a publicação, o tempo voou. Uns ajustes aqui e ali e em outubro de 2016 Luís têm seu primeiro livro de contos publicado pela editora Kazuá. Com um total de 91 páginas que carregam 10 contos, o jovem escritor mistura ficção e realidade para encantar a todos (inclusive a mim) com suas histórias sobre o país europeu. Logo após o lançamento, em 2017, foi convidado pelo Consulado Húngaro em São Paulo para participar da Semana Cultural da Hungria onde palestrou e autografou seu livro para os participantes do evento.

Também em 2017, Luís deu entrada no seu processo para conseguir cidadania húngara, um direito de sangue, pois seu pai é descendente de húngaros, mas não somente. O pai tem um mix de ascendências: húngara, austríaca, portuguesa e angolana. Já a mãe é alemã (de onde Luís herdou a paixão pela cerveja).

E por falar em família, parece que ser escritor nessa família não é novidade, pois o pai de Luís, o biólogo Arlindo Costa já publicou dois livros, ambos falam sobre a complicada infância de Arlindo, filho de um militante do Partido Comunista Brasileiro, que está misteriosamente desaparecido desde 1967 durante uma viagem de Mafra a Curitiba. Apesar de existir um atestado de óbito, o corpo do pai de Arlindo, Lucindo Costa, nunca foi encontrado. Os rumores são de um possível assassinato por militares. Algo comum na época, pois a repressão caçava ativistas políticos, torturava, matava e depois forjava os documentos de morte como sendo causadas por acidentes de carro, suicídio, entre outros. O caso nunca foi solucionado e aflige a família até hoje.

O abalo entre os familiares é grande e toda essa trama é tema de um roteiro que está sendo escrito por Luís. Uma ficção que conta como termina todo o mistério do desaparecimento de seu avô. Além disso, atualmente Luís trabalha em um novo livro de contos e continua a dar aulas de idiomas. Apesar de agora ser oficialmente um cidadão húngaro, não tem planos de voltar ao país imediatamente, mas pretende fazer a sua mudança assim que possível. “Quero finalizar tudo que estou fazendo agora, o roteiro, o livro e outras coisas, não gosto de fazer uma coisa de cada vez (risos)”.

Dentre os mais de 13 países já visitados e as milhares de viagens que Luís Felipe Sprotte Costa já fez, não há nenhuma capaz de competir com a magia das viagens que imagina em seus sonhos e escreve em sua escrivaninha. E nenhuma jornada é tão inesquecível quanto ao dia que entrou no carro de Ekaterina (nome oficial de Narússia), o dia que deu luz a sua carreira, ao seu futuro e às milhares de linhas escritas em seu computador. Um dia que, de acordo com ele, haviam muitos carros em Budapeste!

Nascido no dia 9 de agosto de 1984, natural de Mafra, uma pequena cidade em Santa Catarina, Luís é graduado em Cinema pela Universidade do Sul de Santa Catarina, é solteiro, filho de um biólogo e uma matemática, o mais velho da casa, seguido de duas irmãs. Com seus 33 anos já é tio de um menino de 6 anos pelo qual é apaixonado e foi o primeiro a segurar nos braços. Atualmente mora em Curitiba onde trabalha como professor de idiomas e em seu tempo livre trabalha na sua segunda obra literária e escreve um roteiro para uma ficção. Além disso, o ambicioso escritor tem em mente escrever um segundo romance, isso mesmo, segundo romance! Em 2010, Luís publicou seu primeiro livro, um romance, mas isso é uma outra história, uma outra página de sua vida.

Link para o curta: https://www.youtube.com/watch?v=Plmfn_MAaBg&t=5s

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