Por que o Brasil é o país que mais mata pessoas LGBTI+ no mundo? ENTREVISTA COM TONI REIS

Toni Reis está há 26 anos à frente do Grupo Dignidade – Foto: Geisa Costa

Roberson Popadiuk

Uma pesquisa publicada no início de 2018 pelo Grupo Gay da Bahia (GGB) mostra que o ano de 2017 foi o mais violento para a comunidade LGBTI+ no Brasil, tendo em vista os 38 anos em que o levantamento vem sendo realizado. Ao todo, foram 445 assassinatos de pessoas LGBTI+ vítimas de LGBTfobia. Isso equivale a uma morte a cada 19 horas.

A pesquisa do GGB se baseia em dados obtidos na mídia, ou seja, o grupo prevê que esses números podem ser muito maiores, pois muitas mortes não são registradas. A pesquisa ainda revela que o estado de São Paulo liderou o ranking de mortes, seguido por Minas Gerais e Bahia. Na sétima posição, empatado com o estado do Alagoas, está o Paraná, que somou um total de 23 mortes. Atualmente, o Brasil é um dos países que mais matam LGBTI+ no mundo.

Para esclarecer algumas dúvidas sobre o tema, convidei o ativista e professor Toni Reis. Toni é licenciado em Letras e Pedagogia, especialista em Sexualidade Humana, mestre em Filosofia e doutor em Educação. Toni é um dos fundadores de uma das maiores e mais importantes organizações que lutam pela causa LGTBI+ no Brasil, o Grupo Dignidade. É reconhecido internacionalmente pelo seu ativismo nas áreas de cidadania e igualdade. É casado com David Harrad há 28 anos, que não é apenas seu parceiro de vida, mas também de luta. Juntos os dois são pais de 3 filhos adolescentes e se dividem em uma rotina corrida entre Curitiba e Brasília.

AGComunique: Toni, pesquisas mostram que nos últimos anos o número de mortes por assassinato ou suicídio vítimas de LGBTfobia vem crescendo no Brasil. Qual o motivo desse crescimento?

Toni Reis: Há duas justificativas. Primeiro, com o aumento do ódio, a discriminação tem crescido. No nosso país e no mundo há uma extrema direita organizada, e o fundamentalismo religioso também contribui para isso. Então, percebe-se que a LGBTfobia está aumentando, a xenofobia e a questão do machismo. E a segunda vertente é que agora está sendo noticiado mais. Sempre houve assassinatos e suicídios, mas agora está se sabendo mais. Temos várias pesquisas. Inclusive no site “Quem a Homotransfobia Matou Hoje” você vai verificar que todo dia tem notícia sobre isso.

 

Nos últimos anos, nota-se que no Brasil o movimento LGBTI+ tem ganhado cada vez mais visibilidade e apoio. Considerando esses avanços, por que ainda somos um dos países que mais matam pessoas LGBTI+ no mundo?

A visibilidade é fundamental para qualquer movimento. É como um time, se você não joga, não tem torcida. Então, precisamos ter muitas pessoas que se assumam e assumam o movimento. E o movimento é feito tanto para promover os direitos humanos, como para defender. Promover é semear a ideia do respeito aos direitos humanos e defender quando há qualquer tipo de discriminação. É importante que as organizações e os movimentos façam essa denúncia. E ainda no Brasil, agora que está se dando muita visibilidade a essa discriminação e essa violência.

 

 

Quais as principais barreiras que impedem o Brasil de evoluir em medidas contra LGBTfobia e, consequentemente, essas mortes?

O principal problema é o fundamentalismo religioso, é o povo mais organizado. E também a extrema direita, esse pessoal que tem uma filosofia nazista e uma filosofia fascista, que quer a morte dos diferentes.

 

 

Toni, você já morou em diversos países e conhece muito sobre a causa LGBTI+ de outros lugares. Há algum país que você considere exemplar com           relação à   ações, medidas ou políticas de prevenção de assassinatos causados por LGBTfobia? Há algum lugar específico em que você tenta se espelhar na hora de elaborar suas estratégias de ações ativistas aqui no Brasil?

Gostei muito da Europa. O primeiro país em que morei foi a Espanha, lá eu participei das paradas LGBTI+ e participei dos grupos de ativismo. Então tinha um grupo de esquerda e um grupo de direita – participei dos dois. Gostei muito da Espanha, a forma do tratamento e do respeito, e é uma cultura muito parecida com a do Brasil, um país em que a maioria é cristã, mas há um respeito muito grande, e a organização é muito parecida com a nossa. Participei também em Milão e em Londres, mas gostei muito mais de Madrid. Inclusive é uma cidade em que gostaria muito de morar.

 

Toni, em 26 anos de Grupo Dignidade, quais foram as principais ações da organização para mudar o cenário no Brasil?

Primeiro foi o aumento de afiliados. Hoje nós temos um grupo muito grande. Antes nós éramos apenas em dois, eu e meu marido David. Hoje nós temos muito mais associados, simpatizantes e aliados a nossa causa. Creio que foram as parcerias, hoje nós temos parceria com o Ministério Público, com a Secretaria de Estado de Segurança Pública, Secretaria de Justiça, com o Governo Federal. Eu acho que essas parcerias foram nos fortalecendo, para inclusive dar visibilidade a toda essa discriminação e essa violência que existe em nossa comunidade.

 

Na sua visão, quais os rumos que o Brasil irá tomar no futuro com relação a essa questão? Vamos progredir com ações em prol da diminuição das mortes?

Vejo com bons olhos, vejo que precisamos ter mais envolvimento das empresas, das universidades, de todos os partidos, não somente os partidos de esquerda, que hoje estão muito bem envolvidos. Temos que envolver também setores das igrejas que são mais progressistas e que respeitam a diversidade. É preciso envolver e fazer um movimento em que as pessoas respeitem as individualidades.

 

Toni, considerando você não apenas como ativista da causa, mas como membro dessa comunidade, já passou por alguma situação de perigo e risco à vida decorrente de LGBTfobia?

Várias vezes me ameaçaram de morte, inclusive estamos com um processo muito grande de uma pessoa que ficou dois anos me ameaçando de morte. Tive que fazer denúncia na delegacia. Hoje não mais, mas já tive ameaças de morte e espancamento, mas pessoalmente não tenho medo. Isso fortalece ainda mais a nossa luta do Grupo Dignidade da Aliança Nacional LGBTI+.

 

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