Dilemas brasileiros

Guilherme Augusto Leite

O Brasil ainda tem jeito? Depois de cinco séculos de construção por vezes caótica de uma nação singular na história humana, muitos dos que se colocam diante do complexo problema que se tornou o futuro do nosso país – somatório de muitos problemas acumulados – são tentados a dizer que não.

Não é o caso de Leonardo Boff. O teólogo e ambientalista que ajudou a fundar uma nova forma de se pensar a Igreja Católica, dividiu opiniões, chegou a ser silenciado pelo então cardeal Joseph Ratzinger (atual papa emérito Bento XVI) e se tornou voz ativa na defesa da ecologia, é acostumado a buscar caminhos de renovação.

Essa é a tônica da sua nova obra, Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência?, lançada em março pela editora Vozes. Ao fazer uma análise da conjuntura nacional em que nos encontramos, ele retrata de forma crítica o processo de formação do país, marcado desde o seu início por desigualdades e sem um projeto conciso de nação, ao mesmo tempo que identifica as potencialidades que perfazem o caminho para a refundação do país.

Na primeira parte, Boff descreve o caminho pelo qual chegamos até aqui, com ênfase nas mazelas do nosso modelo de colonização, e nos reveses políticos da nossa democracia recente, resultado de uma estrutura de poder que ainda reflete os processos de dominação do Brasil colônia. O sopro de esperança que representava a ascensão do Partido dos Trabalhadores (PT) foi subitamente rompido com o impeachment da presidente Dilma, e com o envolvimento de parte das lideranças do PT em esquemas de corrupção, traindo os ideais que sustentaram o seu crescimento.

Nessa primeira análise, o cenário parece desolador, e o leitor é tentado a concordar que não há saída. Mas Boff não se contenta em apenas constatar a dependência, é necessário apontar os caminhos para a refundação. São dois os grandes potenciais que ele vê no país e que devem nortear esse processo. O primeiro é a sua diversidade ecológica, o segundo, a diversidade humana, o próprio povo brasileiro.

Boff vislumbra a substituição da globalização por uma ecologia globalizada, em que as relações entre as nações se pautem por seus recursos naturais e pela sua preservação, face ao seu caráter indispensável para a permanência da vida humana no planeta. Como detentor da maior diversidade do planeta, o Brasil tem um papel importante no planeta como um grande organismo vivo, e será ainda mais nesse novo modelo de relações internacionais. Essa transição abre novos caminhos para o Brasil, tanto em termos econômicos, quanto em dar relevância aos conhecimentos até então esquecidos dos povos originários, conhecedores do manejo das nossas riquezas naturais.

Também nessa perspectiva, o autor sugere um socialismo de matriz ecológica, em que mais que a desigualdade financeira, é necessário promover uma igualdade de acesso aos meios de sobrevivência, como água, ar e alimento. Esse socialismo tem muito daquele primeiro modelo utópico, mas tem também muito daquilo que é essencialmente brasileiro, das características que o povo traz em si, e que são o outro pilar do caminho apontado. É o próprio povo que, ciente das suas qualidade e do seu poder, transformará o país e concluirá sua refundação.

Aos mais alarmistas, essa refundação ocorrerá por vias democráticas. A democracia é justamente o lugar em que esse poder emanado do povo se torna concreto, em que ocorrerá a integração das tendências sociais e ecológicas num novo projeto de país, mais justo, livre das dependências históricas e que superará as estruturas de poder que nos oprimiram no passado. É utópico, o próprio Leonardo reconhece, mas afirma, a cada pequena utopia alcançada, rumamos para a grande utopia de um país refundado.

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