As mãos que plantam

Texto e fotos: Hannah Sarah

Curitiba recebeu, de 6 a 9 de junho, a 17ª edição da Jornada de Agroecologia, realizada por diversos movimentos sociais, dentre eles o MST. O objetivo foi promover discussões e cursos sobre o tema, mas também uma aproximação entre os moradores da cidade e os camponeses.

A jornada acontece desde 2002. O evento tradicionalmente reúne agricultores de todo o Paraná que realizam uma produção agroecológica. Este ano foi a primeira vez que o evento foi realizado em Curitiba.

A feira aconteceu na Praça Santos Andrade e contou com diversas barracas de produtos agroecológicos

A integração cidade-campo foi a marca desse evento, a Feira da Reforma Agrária, da Agricultura Familiar e da Economia Solidária aconteceu na Praça Santos Andrade, oferecendo para a cidade muitos produtos sem veneno e de qualidade.

Além da feira, a Jornada ofereceu oficinas, seminários e atrações culturais. Nesta edição foi instalado um túnel do tempo no pátio da reitoria da UFPR, lá o visitante teve acesso a histórias das lutas do campo, da reforma agrária, da agroecologia e da agricultura familiar.

A AG Comunique entrevistou seis produtos que estavam vendendo seus alimentos na feira. Cada um ajuda a contar a história da agroecologia no Paraná, os desafios da agricultura familiar e as lutas pela reforma agrária, trazendo reflexões sobre a origem dos alimentos e quem são os trabalhadores por trás desse processo pouco conhecido e valorizado.

Rose, Elisete e Marcia

Roseli dos Santos, conhecida como Rose, 45 anos, viveu no campo quase sua vida inteira. Hoje, ela é assentada no “Ele vive”, assentamento que fica no município de Londrina. Rose e seu filhos procuraram o acampamento do MST em 2009, após um período morando na cidade por causa da separação do ex-companheiro.

Ela permaneceu no acampamento até conseguir um lote no assentamento, um “sitiozinho” como ela gosta de chamar, onde se planta principalmente milho. Com um sorriso no rosto, ela afirma gostar muito de morar lá: “É ótimo, é a vida que eu sei, que eu sempre tive, não quero outra”.

As agricultoras Marcia, Elisete e Rose: produção de alimentos para a família e para venda

A plantação é para consumo próprio, mas também para o comércio. Os produtos são vendidos em Londrina mesmo. Ela diz não sentir a concorrência com os grandes produtores da região, pois eles têm suas monoculturas, principalmente grãos, e o assentamento produz uma maior variedade. Desde o mesmo ano que entrou para o acampamento, ela participa da Jornada da Agroecologia.

Ela vê a jornada como uma oportunidade para vender os seus produtos, porém o que acha mais proveitoso no evento é o conhecimento que ela adquire, pois se faz muito cursos, se troca produtos. Para Rose, é um ótimo momento para aprender mais.

Elisete Aparecida França, 44 anos, também é residente do assentamento “Ele Vive”. Elisete foi para o acampamento em 2008, onde ficou até o final de 2011 quando conseguiu um pedaço de terra no assentamento. Ela sempre morou na roça com seu avô, e a sua rotina sempre foi a mesma. Hoje ela planta batata, milho doce, mandioca, gengibre e inhame. Como a de Rose, a produção é tanto para o consumo próprio como para vender no município.

Participa da Jornada desde a primeira edição, pois antes de ser assentar com a família, o seu marido trabalhava como caminhoneiro, assim, eles tinham convivência com sitiantes, e foi com eles que ela participava do evento. Para ela, a jornada é forma de conhecer as pessoas dos outros acampamentos e assentamentos, trocar sementes, e como todos os anos levar novidades para a sua região.

Provando que a Jornada da Agroecologia é um momento rico para trocar ideias e conhecimentos. Rose e Elisete dividiam sua tenda com Marcia Gamas, 37 anos, acampada há três anos no “Acampamento Quilombo dos Palmares”, em Paranapoema. Por causa do frio, Marcia não plantou na última temporada, mas geralmente planta milho, feijão, arroz, abóbora, mandioca etc. Sua produção é quase exclusivamente para seu consumo e de sua família.

Marcia tem quatro filhos, três deles moram com ela, e sua filha mais velha está na cidade de São Paulo. Antes de acampar, ela morava na cidade, mas ficou muito doente por causa da depressão, e o acampamento foi o único lugar que ela teve para morar.

“Catei meus filhos e fui, não quero saber mais de cidade”. Ela diz já ter se acostumada com o campo, e acha que não consegue e não pretende voltar para cidade. Juntando as palmas das mãos sob as pernas, ela diz emocionada que não vê a hora de pegar seu lote e assim aumentar o seu plantio.

Nelsinho 

Nelson Dias da Silva, Nelsinho como é conhecido, é de São João do Triunfo. Aos seus 53 anos de vida, tem quase todos esses anos voltados às atividades do campo. É presidente do sindicato dos trabalhadores rurais do município, agricultor orgânico e cooperado da “Rede ECOVIDA”, rede de articulação entre produtores familiares do Sul do Brasil.

A erva-mate orgânica é motivo de orgulho para o agricultor Nelsinho, de São José do Triunfo

Sua principal produção é a de erva-mate orgânica, trabalho de que se orgulha muito. Ele destaca as ações das cooperativas locais, como a COAFTRIL, que têm realizado um grande trabalho, inclusive o de conquistar uma lei municipal em que a cidade de São José do Triunfo, em prazo de 3 anos, use apenas alimentos orgânicos na merenda escolar, além de realização de feiras municipais e regionais focados nos agricultores familiares e na biodiversidade.

Gabriel

Gabriel Nascimento, de 27 anos, desde 2016 mora com sua filha e esposa em um sítio localizado na região do Rio Sagrado, em Morretes. A propriedade onde vivem é dividida com oito famílias que trabalham de forma colaborativa.

As famílias decidem em conjunto como e o que vão plantar.  No momento estão começando a produzir no sistema agroflorestal, com produções de açafrão, frutas, principalmente banana, mandioca etc. Eles estão no processo de adquirir o selo orgânico, acreditam que o selo irá agregar mais valor e facilitar as vendas no comércio da cidade, aumentado a renda de toda a comunidade.

Gabriel com sua filha no colo mostrando a conserva de pupunha

Gabriel nasceu na cidade grande, e em 2011 entrou para o curso de agroecologia da Universidade Federal do Paraná, câmpus Matinhos. Dessa forma, ele se apaixonou pelo campo e pela agroecologia. Muito sorridente e simpático, apresenta os produtos da sua tenda sentado em uma cadeira com sua filha de um ano e meio no colo, enquanto sua esposa atende os clientes.

A tenda em que Gabriel estava expondo seus produtos faz parte de uma associação chamada AMAE, Associação Morretes Agroflorestal e Ecológica, formada por diversos produtores,  todos trabalhando no sistema agroflorestal. Um dos orgulhos de Gabriel são os frutos tipicamente da Amazônia que estão sendo produzidos em seu sítio, o fruto da pupunha também é outro diferencial apontado por ele em sua produção, além das diversas conservas e doces que fazem. Ele conta que já tinha participado outras vezes do evento, e nesse ano os agricultores da associação se revezam durante a Jornada da Agroecologia no atendimento da tenda.

Vinagre

Valdecir José Cadena, 46 anos, se apresenta com seu nome de batismo, mas logo revela seu apelido “Vinagre”, que é a forma como é mais conhecido. Ao ser questionado sobre o motivo do apelido, ele ri tímido e diz ter esse apelido desde menino. Morador da região rural de Telêmaco Borba, com seus quatro filhos e sua esposa, em um sítio de 21 hectares, trabalha essencialmente com sementes crioulas como o milho, feijão, arroz.

Valdecir José Cadena, o Vinagre, já participou de mais de 10 jornadas de agroecologia

Filho de agricultor, sempre morou do campo e nunca foi empregado de carteira assinada. Ele planta há mais de doze anos no único assentamento do município, o Guanabara, e fala com orgulho da filha que está seguindo seus passos – a jovem está concluindo o curso técnico em agroecologia.

Atualmente, sua plantação voltou o foco para os orgânicos, as hortas já estão certificadas, mas ainda estão batalhando para certificar os grãos e quando isso ocorrer será um grande avanço da sua produção. Valdecir relata que a vida do campo nunca foi fácil e, para sobreviver, já plantou de tudo, teve criação de animais e sua produção é tanto para subsistência como para a venda.

Ele já participou de mais de 10 edições da Jornada da Agroecologia, e diz valer muito a pena participar, pois está divulgando para a sociedade o seu trabalho e os produtos: “Hoje nós temos que mostrar nossa resistência no campo”.

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