Cartas para Lula

No dia 7 de abril, o Brasil passou por um momento histórico: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi preso. Tal prisão gerou grande repercussão pelo país e dividiu a população em dois grandes e opostos polos. No mesmo dia que a prisão foi anunciada, diversas manifestações se espalharam pela nação.

Na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), o professor e doutor em física Arandi Ginane Bezerra montou um espaço no pátio da universidade para que os estudantes e funcionários escrevessem cartas para que fossem entregues para o ex presidente. Em entrevista para a AGComunique, feita no dia 15 de maio, o professor Arandi explicou que a ideia de coletar cartas e enviá-las para o ex-presidente é uma forma de mostrar que ele tem o apoio de grande parte do povo brasileiro, que muitos enxergam que sua prisão é mais um artifício do golpe político que teve início em 2016.

AGComunique: O que você acha da prisão do ex presidente Lula?

Arandi: A prisão do Lula representa uma anomalia. Ele foi condenado sem que houvesse provas. Todo este processo recente, que iniciou com o impeachment da presidente Dilma – e agora tem desdobramentos na prisão do Lula -, faz parte de uma articulação de interesses envolvendo atores que são vinculados historicamente a um pensamento reacionário. Destaco: a grande mídia, grupos ligados ao mercado financeiro, incluindo bancos, setores do empresariado, grupos do poder judiciário, dentre outros.

 

Qual é a consequência disso?

Desde o início deste processo – que constituiu um golpe na democracia e na soberania brasileiras -, a tônica vem sendo a destituição de direitos sociais (vide, por exemplo, a reforma trabalhista), a cooptação do Estado por grupos que pregam a soberania da economia (ou das finanças) sobre os direitos populares e o desenvolvimento nacional – neste sentido, a chamada “PEC da morte”, que congela os gastos do governo por vinte anos, ameaça os investimentos em saúde, educação, cultura, etc. Ou seja, estamos vivendo um retrocesso. E note que os cortes no orçamento (que vão afetar os programas sociais e o desenvolvimento da ciência e tecnologia, por exemplo) não incidirão sobre os juros da dívida (que é o dinheiro “transferido” aos grandes bancos e ao mercado financeiro). Ou seja, este golpe significa empobrecer a maioria da população e desviar dinheiro aos grandes grupos do capital.

 

Por que, na sua opinião, Lula foi preso?

De acordo com todas as pesquisas de opinião, o Lula é o candidato de escolha da maioria dos brasileiros. Isso significa que as pessoas, compreendendo o momento de crise, entendem que Lula presidente seria o melhor caminho para o Brasil reencontrar um caminho de prosperidade e justiça social. Então, os grupos que articulam o golpe têm que agir no sentido de inviabilizar a candidatura de Lula à presidência. É neste contexto que a prisão se deu. E, para isso, os trâmites da justiça brasileira não foram respeitados (vide, por exemplo, que o juiz Sérgio Moro autorizou que fossem grampeados os telefones dos advogados de Lula, num flagrante desrespeito às leis). Além disso, todo o processo que culminou na prisão do Lula foi conduzido por uma parceria entre juiz (Sérgio Moro), procuradores (da Operação Lava Jato) e a grande mídia (tendo como artífice e condutor a rede Globo) – esta dinâmica de utilização da justiça para fins políticos é conhecida como “Lawfare”.  A palavra inglesa também serve para fazer uma associação com o fato que há fortes evidências da participação de grupos de interesse estrangeiros (que teriam intenções de enfraquecer o Brasil no cenário mundial).

 

Esse processo favoreceu algum grupo empresarial?

Caberia aqui ainda mencionar que, neste golpe, empresas como a Petrobras e as grandes construtoras nacionais estão sendo desmontadas e tendo sua capacidade de ação drasticamente reduzida – o que leva à perda de divisas e de empregos. De fato, o Brasil sofre hoje uma das maiores taxas de desemprego da história recente. Além disso, o governo golpista está facilitando a empresas estrangeiras o acesso às nossas riquezas naturais, tais como o petróleo (pré-sal), a Floresta Amazônica (por conta da relaxação da legislação ambiental e da não proteção dos direitos dos povos nativos); a concessão aos americanos de acesso à base de lançamento espacial em Alcântara, a venda da Embraer e a privatização da Eletrobras também fazem parte desta política de apequenamento do Brasil.

Assim, a prisão do Lula coloca em perspectiva todo este estado de coisas, esta agressão à soberania brasileira, a condenação mesma de gerações de brasileiros à pobreza.

 

Por que surgiu essa ideia das cartas?

Porque sou professor, funcionário público, formado em universidades públicas brasileiras. Porque sou um humanista, nacionalista e porque conheço história do Brasil. Porque me importo com meu país, com a democracia, a justiça, nosso presente e nosso futuro, não posso me calar ante a tamanho escândalo. Entendo que a prisão do Lula sintetiza esta série de desmandos e injustiças. Trata-se de um homem que está sendo perseguido. Ele não cometeu os crimes a ele atribuídos. Não há provas. O processo é viciado e ilegal. Uma monstruosidade. Então, tenho que lutar pela liberdade de Lula. Denunciar a prisão ilegal. Denunciar este estado de coisas. Participar e colaborar com os grupos e partidos que lutam e defendem a democracia. Outra coisa importante é que, ao ver Lula sendo levado preso, conhecendo a sede da polícia federal no Santa Cândida, sabendo que as noites de Curitiba podem ser frias, sabendo que Lula ficaria isolado, algo de profundamente humano começou a falar alto em mim: um homem não pode se curvar ante à injustiça e à infâmia! E um homem deve ser solidário.

 

Como você organizou a coleta das cartas?

Tendo em vista minha profissão, meu envolvimento com a universidade, meu desejo de manifestar solidariedade e minha sensação de que haveria outras pessoas em situação semelhante à minha, achei por bem organizar esta escrita de cartas. “Escreva uma carta pro Lula”, “Lula Livre!”, foram coisas que escrevi… Aí montei a banquinha e busquei conversar com as pessoas. Ofereci caneta e papel, um lugar no banquinho pra escrever… E tivemos alguns momentos muito interessantes, de elaboração, de conversa. É um processo humanizante. Ah, e as cartas estão sendo reunidas em grupos e encaminhadas ao Lula por meio de professores que vão até ao acampamento por Lula Livre no bairro Santa Cândida.

 

Quanto tempo durou essa ação?

Iniciei logo na semana em que Lula foi preso, na mesma época em que o curso de extensão sobre o golpe de 2016 teve início na UTFPR. Até agora, foram quatro dias (uma vez por semana). Na semana passada, viajei para participar de um congresso e, por isso, não organizei a banquinha. Pretendo retomar na semana que vem. E continuar escrevendo até Lula estar livre.

 

Como foi o engajamento dos estudantes e funcionários da UTF? Quantas carta, mais ou menos, foram escritas?

Algumas pessoas passam e nem se importam, outras me hostilizam (de forma amena), outras fazem contato em apoio, algumas param pra conversar e, eventualmente, escrevem.

Nós conversamos, eu gosto de falar, de argumentar, de contar histórias. Muita gente também gosta. E, com esta atividade – escrever – conseguimos elaborar aquilo que pensamos e sentimos, conseguimos nos “implicar” – isto é importante, é libertador. Escrever tem também uma dimensão, digamos, psicanalítica, além da política… mas isso é outra história. Até agora reunimos cerca de 50 cartas. Pretendo digitalizar todas elas e, daqui a algum tempo, organizar uma exposição.

 

Como as cartas foram entregues?

Vários docentes da UTFPR têm ido com frequência ao acampamento (Acampamento Dona Marisa) no Santa Cândida. Pessoas como a professora Maurini, da UTFPR. Eu coloco as cartas num envelope e peço a ela que entregue aos responsáveis (o presidente do PT no Paraná, algum deputado que vá se encontrar com o Lula, ou congêneres). Tenho a confiança de que as cartas estão sendo entregues.

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