Uma em cada quatro mulheres sofre violência obstétrica no Brasil

Juliana Borba de Lemos

Os números da violência obstétrica no Brasil e na América Latina são alarmantes. Dados da Fundação Perseu Abramo indicam 25% das mulheres sofrem esse tipo de violência antes, durante ou após o parto. A porcentagem de cesárias deste lado do mapa chega a 66% e, se contarmos apenas a rede privada de saúde, elas ultrapassam 88%. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), são recomendados que no máximo 15% dos partos sejam cesarianas.

Ainda, segundo a pesquisa, apenas 26,6% dos recém-nascidos tiveram contato com a mãe logo após o nascimento e só 40,9% das mães puderam amamentar seu bebê imediatamente após nascer. Thaysa Ravanello, especialista em Neuropsicopedagogia, educadora perinatal e doula, explica que o abuso ocorre quando o processo fisiológico do parto é ignorado e  transformado em um evento medicalizado, voltado apenas para atender os profissionais, sem visar o bem-estar da mãe e do bebê.

“A gestante deve consentir todos os procedimentos que serão realizados durante seu parto”, comenta. Segundo ela, abusos como o uso indiscriminado de ocitocina sintética (o famoso “sorinho”), a ruptura precoce da bolsa amniótica, negação de métodos para alívio da dor, afastar o bebê da mãe após o parto, inúmeros exames de toque, amarração da gestante e a realização de manobras para acelerar a saída do bebê, gritos, piadas e comentários degradantes são os mais denunciados pelas mulheres no perinatal.

Uma pesquisa intitulada “Nascer no Brasil: Inquérito Nacional sobre o Parto e Nascimento” realizada pela parceria entre a Escola Nacional de Saúde Pública e a Fiocruz, revela que 66% das mulheres preferem parto normal no início da gravidez e apenas 59% têm o seu direito previsto em lei. Ainda, a cesariana pode expor a mãe e o bebê a riscos desnecessários, como hemorragias, infecções e risco de outras complicações.

“Quando a mulher se percebe vítima da violência obstétrica, é importante seguir alguns passos pra que esse abuso não seja só mais um. Hoje, o que a gente percebe, é que muitas mulheres ou não se reconhecem dessa violência, por que não percebe que aqueles procedimentos foram abusos ou ficam com medo de tomar uma atitude e acabam se calando. Mas, quanto mais as mulheres se movimentam e tornam isso público, mais ações eficazes vão ser feitas pra que isso se reduza até que, esperamos um dia, não ter mais esse tipo de situação”, comenta Thaysa.

Ela explica que, para fazer a denúncia, deve-se levantar todos os documentos relativos ao parto, como o cartão da gestante, guia de internação, exames, contrato com o hospital, recibos de pagamento, plano de parto e prontuário. “Depois, ela deve escrever um relato do que aconteceu, detalhando bem a violência ocorrida e como ela se sentiu e, protocolar uma cópia do relato junto à ouvidoria do hospital, com uma cópia para a diretoria da clínica. Se o parto foi pelo SUS, deve-se enviar essa denúncia pra Secretaria Municipal, pra Secretaria Estadual de Saúde e pro Ministério da Saúde. Como a violência obstétrica é uma violência contra a mulher, ela deve ligar pro 180 e fazer a denúncia neste canal também”, explica.

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