Acampamento Lula Livre completa um mês na ‘república’ de Curitiba

Acampamento Lula Livre, ao lado da PF, fotografado por Ricardo Stuckert no dia 1º de maio

Stphnny Pfaffenzeller

Rojões, fogos de artifícios e sons de panelas batidas foram a trilha sonora da noite de 7 de abril de 2018, em Curitiba. A prisão do ex-presidente Lula, decretada dias antes, estava próxima de se concretizar. A “república” de Curitiba parecia em festa enquanto os apoiadores de Lula sofriam agressões da polícia, como era esperado. Mas o surgimento de um grande movimento em apoio ao ex-presidente, abraçado por parte da população da mesma cidade, era imaginado por poucos. O acampamento em apoio ao ex-presidente, localizado nas proximidades da sede da Polícia Federal, no bairro Santa Cândida, onde Lula está detido, teve início no domingo (8), um dia depois da prisão, e vem sendo palco de atos políticos, discursos, shows e vigílias.

Ao se aproximar do local, ainda a algumas quadras de distância, já é possível notar a grande movimentação nos arredores. Barracas, tendas e faixas ocupam quase toda a região, enquanto policiais armados vigiam os arredores. É evidente a organização e limpeza do acampamento, que conta com tendas específicas para diversas atividades, como o recebimento de doações, envio de cartas para Lula e venda de artigos, como camisetas e bandeiras, em apoio ao ex-presidente. Uma biblioteca comunitária também foi montada para incentivar a leitura dos acampados e, segundo os organizadores, a iniciativa foi um sucesso, tanto pelo número de livros recebidos por meio de doações, quanto pela quantidade de exemplares retirados para leitura. A ideia partiu dos dizeres de Lênin: “Sem teoria revolucionária não há prática revolucionária.”

A organização calcula que cerca de 1.500 pessoas, vindas de todo o Brasil, estejam acampadas nos entornos da sede da Polícia Federal. Existe um revezamento de caravanas, que chegam a todo momento, de todas as partes do país. A trabalhadora autônoma Márcia da Rosa, por exemplo, viajou de Novo Hamburgo (RS) para Curitiba com a intenção se unir ao movimento: “Estamos lutando para que o Lula tenha direito de ser candidato, tenha sua liberdade e tenha direito, como qualquer outro cidadão, de se defender perante o judiciário.” Quando questionada sobre possíveis hostilidades, Márcia afirmou que, como militante do Movimento Nacional de Luta Pela Moradia há 25 anos, está acostumada com isso, mas também com a simpatia das pessoas: “Nós, militantes populares, usamos o diálogo. Sabemos que a educação e a organização são fundamentais”.

A militante também falou sobre a vigília: “A expectativa do acampamento para mim é mostrar ao povo de Curitiba e às pessoas que estão visitando o que é uma sociedade socialista. A gente faz a própria comida, faz a limpeza, a gente cuida um do outro, as pessoas que estão doentes têm lugar para serem encaminhadas. Tem a barraca da doação, então ninguém passa frio, tem as cozinhas, então ninguém passa fome. Todos somos responsáveis pela limpeza e pela organização. Essa é a sociedade que nós, militantes socialistas, queremos”.

O metalúrgico aposentado Sebastião Curi, de 56 anos, saiu de São Bernardo do Campo (SP) para participar do movimento e afirma que irá permanecer até a saída de Lula: “O que me motivou a vir é acreditar na inocência do Lula, acreditar que ele foi condenado sem prova nenhuma, porque viraram a vida desse homem e não encontraram nada de ilegal, nada que o condene, mas, mesmo assim, foi condenado.” Curi também falou sobre o dia a dia do acampamento: “A vizinhança tem sido bastante solidária. Tem alguns que não gostam, mas nós não provocamos e não caímos em provocação. Aqui é um acampamento democrático, então nós respeitamos”.

Além dos acampados, também é grande a presença de diversos visitantes, como Fabíola de Fátima, que levou seu filho de 5 anos para passar a tarde no local. “Acho que a vigília é uma maneira do povo, de uma parcela da população que sempre está excluída, poder se manifestar. A ocupação da rua é bem importante”, disse Fabíola. O professor João Paulo de Souza da Silva, que reside próximo ao acampamento, ressaltou a organização do local e falou sobre o motivo de sua visita: “Mais do que pelo presidente Lula, estou aqui pensando no estado de direito. Quando a gente tem um indivíduo preso sem provas, ficamos todos nós a mercê de um judiciário que não é confiável”.

O dia a dia no Acampamento Lula Livre é repleto de programações culturais, contando com debates, atrações e atos políticos e segundo Welington Lenon Ferreira Lima, um dos responsáveis pela comunicação do movimento, a relação com a vizinhança tem sido tranquila: “A maioria apoia, participa, ajuda, mesmo não tendo a questão clara do posicionamento político, mas por solidariedade”. Lenon também ressaltou que o objetivo do movimento é lutar pela democracia: “A gente sabe ele é um preso político, não um preso comum”, e garantiu que a vigília irá continuar até que Lula seja libertado.

Na semana passada, o acampamento foi vítima de dois atentados, um deles a tiros, que feriu dois acampados. Apesar disso, a vigília continua. Também no mesmo período, foi realizada a Virada Cultura, que contou com a apresentação de músicos, sessões de filmes e documentários e declamação de poemas de resistência democrática.

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