Brechós curitibanos: alternativas de economia e bom gosto

Apesar dos prédios antigos, a maioria dos brechós conta com uma ou duas décadas de história

Texto e fotos: Guilherme Leite

Moderna e cosmpolita, Curitiba é famosa por abrigar negócios de vanguarda, e antecipar a chegada de tendências internacionais no país. Com público exigente, a cidade é bastante receptiva aos novos modelos da economia colaborativa, mas entre as famosas startups disruptivas, um modelo de negócio bastante tradicional pode se destacar no consumo sustentável, os bem conhecidos brechós.

Criados como uma forma de mercado alternativo de peças de qualidade já usadas e a preços atraentes, os brechós da região central de Curitiba cativaram um público fiel que diariamente vasculha as araras em busca de novidades. As ruas São Francisco e Mateus Leme, no centro histórico de Curitiba, concentram diversas lojas desse tipo, quase todas em prédios que remontam a uma Curitiba de meados do século passado e cada uma com a sua peculiaridade, a sua história. Como diz Everaldo (o Zizu do brechó São Francisco, na rua Mateus Leme), cada brechó construiu uma identidade própria.

Brechós para todos os gostos

Embora tenham em comum a presença de peças de marcas famosas a custos baixos, as lojas acabam se segmentando. O São Francisco, por exemplo, possui cinco lojas, cada uma voltada para uma categoria (moda masculina, feminina, infantil e bazar, que reúne as peças de menor valor). O Libélula é famoso pelas peças vintage, enquanto o São José atende um público mais geral.

As araras do brechó escondem pequenos tesouros para os seus frequentadores.

Cada brechó, dentro da sua identidade, busca adquirir as peças que condizem com o gosto dos clientes que os visitam.  Dona Cleide, do Estação, conta que os principais fornecedores são pessoas das classes A e B que renovam o guarda-roupas com frequência, e se desfazem de coleções antigas vendendo-as aos brechós. Assim é possível garantir roupas de marcas famosas, com pouco uso e perfeito estado. Muitas peças chegam até mesmo sem nunca terem sido usadas.

Clientes diversificados

Em todos os brechós visitados, donos e vendedores foram unânimes: há clientes de todas as idades e classes sociais. A busca por roupas boas e acessíveis parece ser um movimento bastante democrático. De fato, a qualidade e o bom preço foram apontados pela maioria dos clientes como um fator importante para comprar num brechó. Márcia, que há três anos é cliente fiel do São Francisco, passando por lá quase todas as tardes após o trabalho, conta que a exclusividade é o fator predominante pela escolha pelo brechó. “Aqui eu encontro coisas diferentes, que não tem em outros lugares”. Ela relata ainda que compra para todos os familiares.

Clientes “garimpam” as araras. A paciência é a chave para conseguir bons achados.

Ainda no São Francisco, encontramos uma novata no mundo dos brechós, Sasha, de 19 anos, que comprava pela primeira vez uma blusa para enfrentar o frio curitibano. Ela contou à reportagem que chegou lá por indicação de amigos, e que não é apegada a ter coisas necessariamente novas. Ao ser questionada, disse não ter interesse no comércio online de peças usadas, uma vez que normalmente funciona à base de trocas, além do medo da roupa não ser exatamente como o anunciado.

Semelhante receio leva Daniele, cliente há sete anos das lojas de artigos usados, a percorrer Curitiba em busca de bons achados, especialmente dos casacos chanel, raramente encontrados nas lojas tradicionais da cidade. Entrevistada no Stradivarius, ela declarou que gosta também de garimpar no já mencionado São Francisco e no Trinca Z, na rua Trajano Reis.

Há ainda clientes com buscas específicas, como nos contou Eric, da loja masculina do Street. Por lá passa quase diariamente um colecionador de camisas de futebol, em busca de uniformes raros. Seu José, do São José, conta ter também clientes da região metropolitana, que passam pelo centro e aproveitam para fazer compras.

Empreendedorismo: da necessidade à modernidade

O Estação, hoje na Mateus Leme, é um exemplo de empreendedorismo por necessidade.

Embora ocupando prédios com décadas de história, as lojas são bem mais recentes, e foram criadas de formas diversas. O São José é um claro exemplo de empreendedorismo por necessidade. Seu José, dono da loja, conta que iniciou a vida profissional como camelô no interior do Paraná, vendendo roupas novas em festas de igreja. Ainda no interior, abriu uma loja de tecidos, que prosperou até a implantação do plano Real, que tornou as roupas importadas mais acessíveis e implodiu a demanda por tecidos. Novamente começando de baixo, Seu José veio para Curitiba, onde abriu há dez anos um pequeno brechó próximo à rodoferroviária, um dos poucos negócios que era possível iniciar com o capital que restava da loja falida do interior. Anos mais tarde, o brechó ocuparia o charmoso prédio verde-água da esquina das ruas São Francisco e Riachuelo.

Também na região da rodoferroviária, e por necessidade começou o Estação, assumido de um amigo do senhor João Carlos que estava desempregado, que anos depois o levou para a Mateus Leme.

Já o São Francisco apresenta um histórico de crescimento diferenciado. Há 19 anos na região, com um cuidado de construção da marca e de um referencial de qualidade, e com um sofisticado processo de controle e distribuição, chegou às 5 lojas atuais destoando do padrão das pequenas lojas dos vizinhos e concorrentes. Chama a atenção a preocupação social, em que todas as peças que chegam através de doação tem os valores de venda revertidos para uma entidade de assistência social. Todos os brechós visitados doam as peças que ficam algum tempo paradas nas araras para entidades do tipo, famílias carentes ou moradores de rua.

Olhando para o futuro

Estacionamento, organização interna e variedade são algumas apostas do São Francisco para crescer durante a crise.

Apesar dos clientes fieis, os donos dos brechós da rua Mateus Leme contam olhar para o futuro com incerteza. A alteração do sentido da rua, bem como as dificuldades de estacionamento na região derrubaram o movimento, e são alvo de protesto contra a prefeitura. A concorrência do shopping próximo, dotado de bom acesso e estacionamento seguro tem assombrado os lojistas, além da crise econômica de que padece o país. Mas há quem olhe a situação com otimismo. Em sua visão mais dinâmica, o São Francisco oferece estacionamento aos clientes e vê na crise um momento de fortalecer a marca junto a clientes que perderam poder aquisitivo e podem encontrar no brechó a alternativa para seguir consumindo produtos de qualidade.
A abertura do curitibano a novas formas de pensar, que apontam para um consumo mais consciente, sustentável e desapegado das relações de posse, já revelado pelo sucesso de tantos negócios inovadores em nossa cidade, pode ser a esperança dessas lojas tão queridas por seus consumidores mas, para isso, será necessário seguir o caminho apontado por Zizu: é preciso sempre inovar.

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