A incoerência do ensino

#OPINIÃO

Por Nathaly Iara*

Desde que o ensino foi trazido para o Brasil é incontestável a dessemelhança com que ele é aplicado em comparação com os demais países. Querendo ou não, a visão eurocêntrica sempre esteve presente e influente em todo o território. A princípio, quando os jesuítas fundaram bases de ensino na Colônia, eles visavam difundir apenas conhecimentos dogmáticos e exclusivistas que descartavam as culturas aqui vigentes (negra e indígena). A fim de converter e homogeneizar os nativos, os padres disseminaram a fé católica em todo o território, fazendo com que os costumes e fé populares fossem rebaixados e reprimidos; como consequência a isso, observou-se um momento de marasmo na educação. Tempo depois, com a expulsão dos padres jesuítas do Brasil, a reforma pombalina promoveu a definição do ensino público oficial, esse que permitiu que houvesse uma formação mais moderna e não-dogmática.

Em meio a isso, a herança jesuítica de uma visão hostil a respeito dos trabalhos manuais só serviu para fomentar que o ensino de ofícios era apenas para as pessoas escravizadas, indígenas e pobres (feito de modo informal), enquanto para as camadas mais altas da sociedade, havia a possibilidade de estudo. Uma grande questão para se ressaltar, é o fato de que, como o ensino desde que surgiu foi voltado unicamente para os homens, as mulheres, consideradas dependentes e inferiores, acabaram sendo totalmente excluídas do acesso à educação. Tal situação foi se modificar somente no final do século XVIII, quando D. Azeredo Coutinho, a partir de uma forte influência iluminista, fundou um “internato” que, mesmo voltado para o ensino de conhecimentos considerados necessários para que as moças se tornassem boas esposas, possibilitou que muitas meninas pudessem ser alfabetizadas. 

Tempo depois, com o surgimento do ensino elementar e do ensino secundário, pensaram-se em tentativas de regularidade do sistema educacional – que beneficiaria a todas as pessoas –, mas nenhuma delas teve sucesso. O descaso do governo com a educação era gritante, pois, educar o máximo de indivíduos com o menor gasto possível se mostrou, logo de cara, não ser uma boa ideia; o ambiente escolar era precário e não contava sequer com uma higiene que possibilitaria que aulas fossem ministradas no local. Foi só pouco mais de um século e inúmeras discussões depois que a construção de lugares específicos para a escola primária começou a ser tirada do papel. Como consequência disso, os professores não dispunham de orientação e o ensino tornou-se inexpressivo e artificial, expondo, mais uma vez, a precariedade com que o tema era tratado. Somente no ensino superior houve certa atenção com recursos educacionais, posto que, os acadêmicos eram pessoas da fina flor da sociedade.

Por fim, é possível ver ainda as sequelas de um saber exclusivista e dogmático há muito tempo imposto. Mesmo o cenário educacional tendo tido inúmeras transformações desde seu surgimento no território brasileiro, é assustador como alguns aspectos parecem não mudar: o ensino escolar ainda é colocado em segundo plano pelos governantes e isso gera precariedades tão graves quanto as do século XVII. A monopolização e o interesse aristocrático em uma educação que não beneficia a todos os cidadãos é notória. A grande incoerência continua sendo o governo propagar um ensino básico igualitário e para todos, mas, na prática não o aplicar.

Dessa maneira, algumas contribuições teóricas acerca da questão educacional, como a “Teoria da Complexidade”, de Edgar Morin, agregam reflexões sobre como está se dando o ensino contemporaneamente e, assim, escancaram os problemas a fim de deixar clara a ideia de mudança como prioridade. Para o autor, é a partir da formação dos educadores, que isso irá tomar corpo, uma vez que identificamos que ainda vigora uma maneira de ensino quase que exclusivamente pautada em princípios obsoletos e que não funcionam mais para os alunos da época moderna ainda vigora. É preciso que o educador tenha acesso a conteúdos relevantes sobre formas pedagógicas, para que assim saiba observar e inserir questões pertinentes ao universo do estudante, pois, só ao promover a criação de relações com aspectos diversos e romper com as barreiras impostas pela divisão clássica dos saberes escolares. E é que a escola irá conter a sociedade como um todo.

*Estudante de Comunicação Organizacional na UTFPR

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