Sobre a pele parda na discussão do racismo

#OPINIÃO

Por Felipe Camargo*

Segundo dados do IBGE de 2015, aproximadamente 45% da população brasileira se autodeclarou parda na pesquisa sobre raça ou cor. Segundo o próprio órgão, estão inclusos na categoria pardos a pessoa que se declarou mulata, cabocla, cafuza, mameluca ou mestiça de preto com pessoa de outra cor ou raça. Em outras palavras, ser uma pessoa cuja cor seja “parda” nada mais é que admitir e ter conhecimento que a estrutura de sua família é constituída por pessoas de várias etnias e possivelmente de lugares variados do mundo. Autodeclarar-se pardo é, ao menos de forma inconsciente, aceitar e reconhecer que a miscigenação não tem problemas, não há segredos. O tom de pele evidencia a nossa história, assim como conta a história do Brasil. Somos um país de mestiços, de negros, de brancos, indígenas, asiáticos e etc.

Seguindo a lógica que o “Brasil é um país de todos”, por vezes eu fico a me perguntar se isso é mesmo verdade, se temos conhecimento das diversas realidades culturais e econômicas de nossa sociedade e se acima de tudo isso, temos respeito às diversidades de peles, ideologias e afins. Até o momento, percebo e sinto que existe sim um consentimento sobre respeitar tudo e todos, mas existe também uma luta não muito silenciosa e sem sentido entre pequenos grupos de cores de peles diferentes.

Ok. Nenhuma novidade até aqui quando consideramos o debate sobre racismo no Brasil, especialmente pautado pela discriminação que aqueles que têm a pele preta sofrem. Agora, dada à visibilidade do tema, alguns grupos de indivíduos de pele branca começam a afirmar que também sofrem preconceito.  Mas o que essa briga têm necessariamente a ver com os pardos?

Eu poderia simplesmente afirmar que “Em nada”, pois pardos não socialmente engajados em movimentos culturais e ideológicos como eu, em nada se identificam e tão pouco veem coerência nos discursos de ódio de ambos os lados justamente por ser fruto da mistura desses grupos. Porém, nos últimos meses, os pardos que passavam “despercebidos” na midiosfera têm entrado em pauta. Influenciadores digitais, ativistas sociais negros e artistas, por exemplo. Como é o caso do rapper Thaíde, que utilizou um espaço no programa “Pânico” da rádio Jovem Pan para afirmar que é praticamente uma ofensa ele ser chamado de “pardo ou mulato”. Para ele, os negros se “automutilam” ao se considerarem pardos. “Filho de pardal não existe, eu acho que eles são pessoas metidos a besta que acham que a cor da pele é o que vai determinar o que eles vão ser no futuro”, declarou no programa. Confesso que ri ao mesmo tempo que fiquei confuso ao ouvir tal “alegação”, seria então toda a população que habita o Brasil 100% negra?

Se sim, não tenho problema algum com isso, realmente não me importo. Porém, se todos somos negros… Por que os negros, que são considerados brancos, estão brigando com os outros negros, que são considerados negros? E por que os negros que se sentem ofendidos, e que em teoria lutam por igualdade e respeito, criticam e buscam ofender os outros negros com tons de peles mais claras? Isso simplesmente não faz sentido em minha cabeça.

Em suma, acredito fielmente que essa briga racial não tem sentido, mas entendo e apoio sim que deva ser crime passível de punição uma pessoa ofender a outra por ser de uma raça diferente da sua. Essa é uma medida simples e prática que já é aplicada em nossa realidade.

Enquanto esses grupos de minorias discutem e se digladiam por algo “sem coerência”, a sociedade continua seu processo de miscigenação e está tudo bem. Não existe a necessidade de uma parte do movimento negro alegar que “pardo é negro e ponto” ou que ser chamado de pardo é uma ofensa para a comunidade negra. Problematizar um tom de pele e querer que os pardos façam parte de um movimento que não representa a realidade deles é desperdício de tempo e de paciência.

Parda é cor que a maioria dos brasileiros como eu apresenta como tom de pele e estamos distantes de sofrermos a discriminação racial ainda presente no país. Respeito o movimento ativista negro, mas jamais faria parte do mesmo. Não me rotulo e não gosto da ideia que me rotulem em movimentos que não me identifico. Assim como eu, acredito que exista tantos outros Brasil a fora que compactuam com o meu pensamento e por isso acho que a apropriação dos pardos na luta contra o racismo tem sido discutida de maneira errada, segmentada.

A luta contra o racismo é dever da sociedade como um todo. Não acredito que seja um problema morar em um país multirracial. Ser pardo para mim representa exatamente isso, a diversidade e o respeito que nossos antepassados acreditavam e possivelmente tentaram passar adiante.

Pardo? Sim, com certeza, e nada mais que isso. E o mundo continua a girar.

*Estudante de Comunicação Organizacional na UTFPR

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