Empatia ou Compaixão?

#OPINIÃO

Por Kauhany Souza*

Notei uma coisa muito interessante quando chegou o mês de setembro e toda sua campanha de combate ao suicídio. Pessoas, empresas, associações, entre outros, vestiram com todo o amor do mundo a cor amarela, símbolo da campanha em questão. Vale lembrar que a intenção do amarelo enquanto cor quente é contrapor o suicídio, já que está intimamente ligado a representações que simbolizam a vida.

Não me leve a mal, gostei da campanha e acho que quanto mais conversarmos a respeito, mais o assunto deixará de ser um tabu rodeado por senso comum. Mas, como alguém que convive de perto com uma pessoa que possui uma das centenas de doenças descritas na Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, de CID 10 – F32.1, é incômodo ver a superficialidade com que as pessoas, especialmente nas redes  sociais, abordam o problema.

Reza a lenda que a definição da palavra empatia é “a capacidade de se colocar no lugar do outro”. Mas de que forma nos colocamos no lugar do outro? Com o olhar dele próprio ou com o nosso olhar? Explico: imagine que sua melhor amiga estivesse namorando um cara bem babaca. Quando ele termina com ela, ela não entende, chora, tenta reatar de todo modo, mesmo tendo sido maltratada durante todo o relacionamento. O que você faz? A escuta ou já começa falando “ah, se fosse eu…”, ou “eu acho…”, “uma vez eu passei por algo parecido…”? Bem provável que da segunda opção em diante, certo? Sinto lhe dizer, mas isso não é empatia. Isso é projetar empatia. Ao invés de ouvir a experiência do outro, você projeta suas experiências nele, o impedindo de desabafar o problema. Lógico que não é maldade, mas  explica o fato de muitas pessoas precisarem de psicólogos: não são ouvidas. 

Acha que é mentira? Bom, um estudo publicado pela Universidade de Michigan em 2016 concorda. De acordo com ele, apesar da fama brasileira de povo alegre e divertido, num ranking de empatia o país ocupa a 61ª posição.

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Mapa mostra o nível de empatia dos países, sendo os vermelhos mais escuros, os mais empáticos; e os mais claros, os menos empáticos

 

Ainda assim, nesse estudo o pesquisador responsável, William Chopik, dizia que esse índice poderia sim aumentar cada vez mais, como aparentemente já vem ocorrendo (de acordo com a percepção dele, já que não existem pesquisas anteriores sobre o tema).

No entanto, de acordo com Aaron Balick, psicoterapeuta, palestrante e autor americano, as redes sociais geraram o que ele chama de “novo tipo de vergonha” ─ que ganha força no ambiente digital e também é visto em situações como ridicularizar alguém publicamente, isso se deve ao fato das redes sociais fomentarem a ausência de complexidade nos relacionamentos e de profundidade emocional, por isso elas tendem a reduzir a empatia e o diálogo, acentuando a polarização entre os usuários. De acordo com Balick, a falta de empatia gera divisões que são cada vez mais aparentes através das redes e ampliadas por elas. Isso ocorre porque é fácil tomar partido sem se expor por meio de um argumento. Em encontros cara a cara isso é mais difícil de manter isso porque o diálogo diminui o pensamento polarizado e simplista ao ficarmos vulneráveis à humanidade do outro. Embora já possamos “reagir” a coisas, pessoalmente é bem diferente.

Aí entra o X da questão: Mas como melhorar a empatia?
A resposta é simples: com compaixão.

De acordo com o psicólogo canadense Paul Bloom, em contraste com a empatia, a compaixão é sentir algo pelo outro, e não sentir algo com o outro. Ou seja, a empatia nos leva a confundir nossos sentimentos com os dos outros e nos coloca em uma situação de pleno envolvimento. Isso não acontece no processo da compaixão,o  que nos coloca muito mais como observadores.

Por isso, da próxima vez que precisar ouvir um desabafo de alguém ou aderir campanhas em prol de algo, pense por que realmente está fazendo isso: por compaixão ou empatia?

*Estudante de Comunicação Organizacional na UTFPR

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