As laranjas que nos conduziram aos egoístas

#OPINIÃO

por Ketlyn Nicole e Maria Beatriz Azzi

Durante o intervalo de aulas, cinco amigas conversavam sobre os acontecimentos do fim de semana anterior, quando Ana, a mais velha, contou algo que levou o grupo a uma reflexão sobre o egoísmo social:

“Outro dia, eu esperava um ônibus quando uma mulher branca com seus 40 anos se aproximou. Ela carregava muitas sacolas e uma delas arrebentou e várias laranjas rolaram pelo chão. Seria comum para mim abaixar e ajudar a moça a juntar as laranjas. Entretanto, nesse dia, como estávamos em meio a muitas pessoas, resolvi fazer uma experiência social: por cerca de um minuto eu não fiz nada! Continuei parada no ponto de ônibus ignorando a situação e, para minha surpresa, ninguém se propôs a ajuda-la. Mesmo que as laranjas estivessem em volta de seus pés, ninguém se abaixou e pegou uma se quer. Após os meus 60 segundos de desacreditamento, abaixei-me e, por fim, ajudei a moça.”

Após escutarmos a história ficamos pensando o quão egoísta as pessoas são. Não estamos generalizando, mas todas as pessoas com quem temos contato superficial em ruas, lojas, restaurantes, parecem ignorar completamente outro ser humano que está próximo, mesmo que ele precise de ajuda. Isso diz muito sobre a sociedade que estamos construindo, onde fala-se cada vez mais em defender as minorias e promover a inclusão, mas não existe mais empatia e amor pelo próximo simplesmente por ele ser seu semelhante. A inclusão só se aplica a grupos com alguma vulnerabilidade e, para nós, esse é um valor que foi distorcido e está cada vez mais evidente.

Não estamos desmerecendo as minorias, pelo contrário. Existem as pessoas que fazem parte desses grupos – e que lutam por eles – e as pessoas que se abstêm de tomar parte. E é esse último  que nos preocupa, pois quando uma pessoa junta as laranjas que caíram da sacola de um cadeirante, mas não a de uma mulher “comum”, a sensação de “obrigação” é evidente. É quando as pessoas não se ajudam por ter um bom caráter, uma boa educação, mas sim porque é uma obrigação perante a sociedade.

Parece que estamos acostumados a fazer só o que nos é imposto e perdemos o significado de conviver em sociedade. Uma prova disso é o crescimento absurdo do uso das redes sociais online. O Facebook consome 83% do tempo gasto na internet dos brasileiros. É um número chocante considerando que a rede social é apenas uma plataforma ou oportunidade de interação social. Nota-se que as pessoas preferem se esconder atrás da sensação de anonimato que a Internet oferece e, só então, interagir com o mundo. Quando foi que passamos a ser tão covardes e individualistas? Nós não culpamos a Internet, pois como qualquer outra ferramenta ela está a sua disposição para ser usada da forma que você escolher. É comportamento individual.

É a “ausência de obrigações” que a Internet oferece  que atrai tantas pessoas a participarem de modo online. O que é curioso, pois se as pessoas vivessem em sociedade praticando ser o que costumavam chamar de “gente de bem”, nenhuma obrigação seria imposta, assim como não eram há alguns anos.

A modernidade trouxe muitos benefícios para o corpo social, mas trouxe consigo uma teia de problemas anexados, que ao nosso ver são mais graves que os que existiam antes dela. Porém, reforçamos, não culpamos a “modernidade” e sim as pessoas que a usaram como desculpa para serem seres humanos pequenos, mesmo tendo imensas oportunidades de serem pessoas notáveis, mesmo que por pequenos detalhes.

Talvez nós esperássemos uma atitude diferente das pessoas naquela história, para podermos falar de solidariedade e empatia. Contudo, às vezes, a realidade é apenas isso, dura e direta, tornando uma simples viagem de ônibus em um pensamento triste sobre o lugar que vivemos.

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