Alimentação não é mercadoria

#OPINIÃO

Por Henrique Ximenes e Maísa Barbosa*

Talvez seja mais incomum hoje ligar a TV do que, depois de ligada,  deparar-se com programação sobre saúde e bem-estar. Inúmeras são as dicas de exercícios a serem embutidos na rotina, cuidados para prevenir câncer, a importância de fazer algo que gosta e sempre: bons hábitos alimentares. É… Chegamos ao ponto em que precisamos ser lembrados de como nosso corpo deve ser bem tratado por nós mesmos ao selecionarmos o que iremos mastigar e engolir. A rotina exaustiva, que grande parte das pessoas leva, não deixa espaço para refeições feitas com qualidade. Come-se qualquer coisa no menor intervalo que permita que vamos embora do trabalho mais cedo.

É necessário pensar em como nos é apresentado este tema desde pequenos. Numa era de pais sem tempo, que deixam a educação dos filhos para as escolas, quem deveria ensiná-los a se alimentar bem? Talvez sejam as professoras quem pode salvar as crianças das bolachas recheadas. Aulas de culinária e aproveitamento dos alimentos são, dificilmente, encontradas na grade curricular do sistema de ensino brasileiro, para o MEC (Ministério da Educação e Cultura), parece importar mais que um futuro jovem saiba a fórmula de Bhaskara do que saiba práticas da vida adulta e como tornar a vida mais saudável. Segundo o grupo SEB (Sistema de Ensino Brasileiro), a prática deste tipo de ensino, além de ser uma maneira de ensinar diversas disciplinas ao mesmo tempo, pode auxiliar o aluno no aprendizado de conhecimentos diversos como: o desenvolvimento da coordenação motora, concentração e paciência, bem como, estimular hábitos saudáveis em casa e fornecer informações sobre as propriedades dos alimentos. 

Certas filosofias de ensino, como as escolas com pedagogia Waldorf e a Sócio-Interacionista, são consideradas inovadoras por proporem contato mais íntimo e aproximado com a natureza, às crianças. Porém, mais uma vez, soa adequado que se considere ensinar esse tipo de coisa. Afinal, existem rótulos de leite em pó que respondem a pergunta “você sabe tudo o que tem no leite do seu filho?” com “100% do nosso leite é rastreado e transportado por caminhões lacrados”. Só. Não dá para dizer se existe no imaginário dos pequenos, uma vaca e quantos deles imaginam que o leite verdadeiro sai da teta deste animal. O ser humano vem perdendo a conexão com a origem do alimento. Saber a procedência da comida é cada vez algo mais raro, ao mesmo tempo que o que há de mais comum entre os seres é comer.

O que se esquece é que impacto de uma adequada nutrição implicará, também, em um forte sistema imunológico. A nível popular, nem sempre se sabe quais são, e nem como conseguir as proteínas, vitaminas, e nutrientes essenciais para nosso corpo. A falta destes, prejudica o funcionamento das células responsáveis pela auto-defesa, o que gera desequilíbrio no organismo, deixando-o mais apto à doenças físicas, como gripes, e psicológicas, como depressão, por exemplo.

A alternância entre os discursos no que se refere ao que é saudável ou não, torna esse processo confuso. Ora o alimento excelente para saúde é o óleo de coco, ora é a goji berry, mas nunca alimentos que figuram a mesa do brasileiro com frequência. Mesmo o bom e velho feijão com arroz que, sabemos, fornece um caminhão (tipo aquele que transporta o leite em pó) de vitaminas e propriedades saudáveis, não aparece na lista. Ao mesmo tempo que a mídia parece exercer um papel relevante ao levantar questões relacionadas ao comportamento humano sobre sua alimentação, esta parece exercer função comercial ao incentivar alimentos sazonalmente e deixar com que eles caiam no esquecimento logo em seguida.

Infelizmente, foi deixando de lado pouco a pouco alguns hábitos, que transformamos toda a cultura mundial de alimentação. O discurso de que só é possível sanar a fome da atual população mundial com a inclusão da artificialidade e alimentos menos ricos em nutrientes condiciona, junto à pressa instaurada do ser humano do século 21, um ideal de que não é possível atingir uma vida sadia. Não somos dois entusiastas da televisão, mas concordamos que talvez a programação grite por algo realmente necessário neste momento: a volta de um olhar preocupado sobre o que comemos.

Porém, há luz no fim do túnel! Num movimento contrário ao da onda de desinformação nutricional, começa-se a perceber que o homem busca retomar o saber natural quase sem perceber. Por meio das hortas urbanas, por exemplo. Estas têm gerado um ambiente urbano diferente, sim, mas sem dúvida o maior ganho é o da reaproximação do ser humano com o alimento e o reforço também, dos laços entre a comunidade. E aí se vê uma nova beleza da comida!

*Estudantes de Comunicação Organizacional da UTFPR

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