O Desaparecimento Infantil no Paraná

Reportagem Especial

Relatos, dados, iniciativas e prevenção sobre o desaparecimento de crianças no estado

Por Amanda Araújo, Douglas Rigamonte, Giulia Gaio, Kauhany Souza e Thaiane Lago

 

“(…) Foram mais de duas horas de pânico, quando ele tirou algo do bolso e, me segurando pelo pescoço com uma mão e com uma faca na outra, colocou algo com um cheiro muito forte em meu nariz, agindo o tempo todo com muita violência. Não cheguei a desmaiar, mas senti tontura e muito enjôo. Vi somente um vulto passando por cima de mim, que estava caída no corredor. Avistei um cobertor. Era da Bruna que dormia no berço, mas não pude me levantar… E foi nesse momento que ele levou a minha filha.”

 

Apenas um pai ou uma mãe sabem o desespero que é ter seu bem mais precioso a um triz de ser levado de seus braços. O drama vivido pelas famílias acometidas por esse tipo de fatalidade deixa marcas difíceis de serem esquecidas. Para os que assistem de longe, a sensação de insegurança e o medo, especialmente quando desaparecimentos parecem acontecer o tempo todo, sugerindo uma epidemia.

Em meados dos anos 80, o Estado do Paraná se tornou centro de uma grande polêmica em torno do desaparecimento de crianças. A descoberta de uma quadrilha que, inicialmente, traficava bebês, fez com que a população entrasse em pânico. Liderado pela paranaense Arlete Hilu, o esquema milionário envolvia adoções ilegais para casais na Inglaterra, Canadá e, principalmente, Israel, segundo informações da jornalista Elza Aparecida de Oliveira Filha, atual coordenadora do curso de Comorg na UTFPR (Comunicação Organizacional da Universidade Tecnológica Federal do Paraná), que trabalhou para o jornal O Globo de 1978 a 1998, e também acompanhou o caso.

De acordo com as investigações, mulheres disfarçadas de assistentes sociais convenciam grávidas brasileiras a doar seus bebês, argumentando que as mães poderiam ver seus filhos quando quisessem. No entanto, perdiam contato assim que assinavam os papéis de adoção. Estima-se que mais de três mil crianças brasileiras tenham sido traficadas somente para Israel.

Conforme reportagem veiculada pelo jornal Tribuna do Paraná em junho de 2004 , escrita pela jornalista Mara Cornelsen, que acompanhou de perto as investigações da década de 80, o caso de uma dessas crianças teve repercussão internacional: o da menina Bruna Aparecida Vasconcelos, que foi sequestrada com aos quatro meses de vida em 1982, em Curitiba, e que só foi trazida de volta ao Brasil quatro anos depois, em razão da insistência de seus pais, os quais conseguiram provar ao governo israelense a ilegalidade da ação.

desaparecidos-estado

Portais jornalísticos do Paraná noticiam o desaparecimento de crianças no estado (Fonte: Portais Tribuna, Ricmais, R7)

Nos anos 90, a história mais marcante foi a do menino de 8 anos, Guilherme Caramês, e a esperança de sua mãe, Arlete Caramês, em encontrar o filho que desapareceu no bairro Jardim Social, em Curitiba, em 1991. O garoto saiu para dar uma volta de bicicleta e nunca mais foi visto. O caso nunca foi elucidado, porém a luta de Arlete foi primordial para a criação do Serviço de Investigação de Crianças Desaparecidas – SICRIDE, em 1995; ativo desde 1996. 

No entanto, ainda que o SICRIDE tenha colaborado para a elucidação dos casos de menores desaparecidos no estado do Paraná desde 1996, em 2013, o desaparecimento do menino João Rafael Kovalski, que sumiu da frente de casa, fomentou uma nova atmosfera de preocupação, e o tema voltou a ser debatido. Porém, em 2017 ganhou muita força com os recentes casos das crianças Brayan Raab Fonseca e Luiz Felipe Machado, de um e dois anos de idade, respectivamente, ambos desaparecidos dos quintais de casa no interior do Paraná.

Dessa forma, é possível afirmar que o desaparecimento de crianças no Brasil ainda é um tema importante no contexto da segurança pública e apresenta problemáticas relevantes, visto o impacto que causa na população ainda hoje. Segundo dados do Cadastro Nacional de Crianças e Adolescentes Desaparecidos, mais de 40 mil menores de idade somem por ano no território nacional e, deste número, cerca de 40% têm idade inferior a 12 anos.

Como, onde, por quê? Um breve perfil dos desaparecimentos

Os casos de desaparecimento infantil – 0 a 12 anos – no país podem acontecer por diversos fatores. No Brasil, de acordo com a Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH), uma criança é levada a cada três dias no território nacional. Lugares como parques, shoppings e espaços abertos são os ambientes em que mais se praticam o crime, que ocorre geralmente quando há falta de orientação para as crianças. Em caso de abordagens por estranhos, o criminoso faz uso de técnicas de persuasão e se aproxima aos poucos da criança, utilizando-se, na maioria das vezes, da distração e a falsa sensação de segurança dos pais.

De acordo com M. C., investigadora de polícia do SICRIDE, que prefere não ser identificada por questões de segurança (por isso, as iniciais fictícias), neste ano, até o momento, foram registradas 140 desaparecimentos no Paraná. “Em média são registrados de 150 a 200 boletins de ocorrência de desaparecimento de crianças todos os anos. Essas ocorrências foram praticamente todas resolvidas, restando apenas 28 casos não solucionados desde o surgimento do SICRIDE, há 21 anos”, diz a investigadora.

Segundo estatísticas disponíveis no site do SICRIDE, 63% das crianças sequestras são meninos. Em 2015, as regiões com maior incidência foram: a região metropolitana de Curitiba, com 33 desaparecimentos; Londrina, 22; Curitiba,17; Guarapuava,16; Cascavel, 15; e Ponta Grossa, com 14.  “Acredita-se que muitos são levados para prática de crime sexual. Na maioria dos casos, acontece um descuido da família: a criança é deixada sozinha e some.”, conta M. C..

Para entender os “porquês” – Mesmo com a existência de grupos especializados em prevenir e solucionar desaparecimentos, como o SICRIDE, de maneira geral, ações de educação preventiva em relação a esse tipo de situação são pouco difundidas dentro da sociedade. “Hoje é comum muitos boatos e notícias falsas de sequestro na internet , causando pânico na população”, diz M.C.. Dessa forma, a falta de conhecimento sobre como proceder e sobre a efetividade das ações de segurança pública nesses casos pode levar pessoas que enfrentam tais situações a não recorrerem a polícia, como é possível notar em relatos de casos acontecidos na cidade de Curitiba, em  que os pais das crianças vítimas desse crime optaram por não fazer um boletim de ocorrência.

Relatos

Em 1993, Néri Oliveira teve sua filha, Bruna, na época com 6 meses, levada e posteriormente encontrada em um terreno baldio próximo ao local do sequestro. “Após levar meus dois filhos mais velhos à escola, retornei para casa com a caçula. Fui surpreendida por um bandido que entrou pelos fundos, mesmo com o muro muito alto, e se escondeu na edícula onde não havia alarme. Assim que entrei na casa, fui atacada pelo mesmo”, afirma.

De acordo com Néri, o criminoso não possuía a intenção inicial de praticar o sequestro contra a criança. O crime aconteceu após não ter sido encontrado dinheiro. “Após revirar a casa inteira e não encontrar dinheiro algum, colocou muitos objetos no carro com a intenção de fugir. Ele tirou algo do bolso e, me segurando pelo pescoço com uma mão e com uma faca na outra, colocou algo com um cheiro muito forte em meu nariz.” conta. “Vi somente um vulto passando por cima de mim, que estava caída no corredor, e avistei um cobertor. Era da Bruna, que dormia no berço, mas não pude me levantar. Foi nesse momento que ele levou minha filha”, completa a mãe.

Néri Oliveira destaca a quantidade de informações sobre sua rotina conhecidas pelo criminoso e revela mudanças drásticas de vida após o incidente, em que sua filha seria encontrada em um terreno baldio horas depois, sem graves ferimentos. “Tudo mudou drasticamente. No primeiro momento fomos pra casa de parentes, depois compramos um apartamento e nos mudamos, mas o trauma psicológico fica pra sempre.” relata. “Acabamos mudando nossos hábitos e o medo me persegue até hoje e, sem dúvida, foi o pior dia da minha vida. Graças a Deus minha filha não lembra de nada, mas apesar de já ter muito tempo, é difícil pra mim esquecer”, finaliza a mãe.

O segundo relato é o de um pai, Rogério Farias, e sua filha, Gabriela, que sofreu a tentativa de um sequestro quando pequena. Neste acontecimento, pode-se perceber a importância da atenção por parte dos pais em locais públicos. A ocorrência foi uma tentativa de sequestro rapidamente neutralizada, em que um homem com um grande casaco preto teria tentado se aproveitar do momento em que Gabriela se afasta da família. “Minha esposa, minha filha e eu estávamos num parquinho no Tarumã. Quando eu estava comprando ingressos, ela [Gabriela] saiu correndo de repente. Quando eu olho para trás, um cidadão com uma roupa preta, num sol de quarenta graus, tenta abraçá-la e escondê-la naquela roupa. Quando eu vi aquele momento, saí correndo em direção dela e a peguei pelo braço. O indivíduo correu e sumiu do lugar.” relata o pai.

Rogério afirma não ter buscado ajuda policial por conta do transtorno momentâneo e destaca a pouca informação sobre o assunto que as pessoas possuíam na época. “Naquela época já havia bastante sequestro de crianças, só que não era tão divulgado, tão falado, mas nós sempre ouvíamos os comentários e ficávamos assustados, claro, e com o momento, a situação que passamos, ficamos apavorados e por isso não buscamos ajuda policial.”  conta o pai.

Passado que deixa marcas: o trauma

De acordo com a psicóloga Sinara Berner de Souza, situações de sequestro e desaparecimento, como as relatadas a cima, podem ser traumáticas para as vítimas. “As sequelas emocionais num caso de sequestro ou desaparecimento compõem um quadro chamado de estresse pós traumático, em que a criança sente medo, pânico e pavor”, afirma. Neste contexto, pode-se afirmar que mesmo tendo um final positivo, isso vai muito além de consequências momentâneas aos responsáveis pelas crianças. “A criança pode sofrer revivendo a situação traumática com alucinações, flashbacks e pesadelos. Ou evitar todas as coisas ou lugares que de alguma maneira lembrem o trauma, e também tornar-se extremamente vigilante, ter dificuldades com atenção e concentração” completa a psicóloga.

A especialista ainda afirma que cada indivíduo reage de forma e intensidade diferentes, podendo desenvolver traumas físicos, não só psicológicos. “São comuns sintomas físicos, somatizações e também desenvolver enurese secundária (incontinência urinária) ou encoprese(incontinência fecal). Algumas crianças têm esses sintomas por alguns dias ou semanas; outras, porém, permanecem por um tempo maior ou até prazo indeterminado.”, destaca Sinara. É importante a intervenção profissional o mais rápido possível. Para a família, a ajuda profissional também é importante para superação do trauma, sendo necessário reconhecer e expressar as emoções associadas ao episódio.

A prevenção é sempre o melhor remédio

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Charge ilustra que o perigo pode estar mais próximo do que pensamos (Fonte: Diego Novaes. Blog. Disponível em: http://diegonovaes.blogspot.com.br)

Apesar da superação do acontecido ser importante, a prevenção nesse caso é sempre a melhor forma de se evitar um trauma. Contudo, nota-se que o aconselhamento e dicas sobre desaparecimento de crianças seja feito por entidades como o SICRIDE, sozinho, é difícil para a organização orientar qualitativamente os cerca de dez milhões de cidadãos paranaenses sobre esse assunto. “Embora atualmente o motivo mais frequente para o registro de boletim de ocorrência seja a fuga de casa (maioria de 10 ou 11 anos) pelo descaso dos pais ou falta estrutura familiar, O SICRIDE faz campanhas de prevenção, com palestras em escolas, distribuição de material, etc. Já foram realizadas até viagens para campanhas e divulgação ao interior do estado”, afirma a policial M.C..

Uma dessas ações foi a criação da Turminha da Segurança, cuja campanha, ainda pouco conhecida, é voltada para a educação de crianças sobre como evitar sequestros, via músicas, gibis, atividades didáticas e recreativas, que ensinam quais os direitos da criança e do adolescente e como devem se comportar para garantir seu bem-estar.

Por isso, seguem algumas orientações aos pais e responsáveis:

  • Quando for levar a criança à escola, entregue-o somente ao monitor na entrada da instituição. Caso utilize de serviço de transporte, informe-se sobre o condutor, pegando informações com outros pais e professores.
  • Mantenha janelas e travas de carros, sempre que possível, fechados.
  • Toda criança deve saber seu endereço, telefone, nome dos pais, ou responsáveis, ou de quem vai buscá-la na escola.
  • Sempre oriente a criança a andar em grupo em qualquer trajeto.
  • Ensine-a a não aceitar nada de estranhos, nem dar atenção a eles.
  • Oriente a criança para que não aceite convites de pessoas, que não os pais/responsáveis, para entrar em carros, ir à praia, entrar em casas, terrenos ou garagens, mesmo que ofereçam doces, sorvetes, chocolates e refrigerantes.
  • Oriente-a a gritar por socorro e chamar a polícia caso seja abordada.
  • Se estiver sendo seguida, oriente a criança a entrar em locais como lojas, postos de combustível, farmácias, etc.

 

O que fazer em caso de desaparecimento infantil?

De acordo com a policial M.C., primeiro é necessário esclarecer um mito: não é necessário esperar 24 horas para registrar um desaparecimento. “Isso é uma lenda”, afirma ela. “O boletim pode ser feito pela internet, na página desaparecidos.pr.gov.br, onde é feito um cartaz com foto da criança. Pode ser feito em qualquer lugar, desde que seja do estado do Paraná. Então, automaticamente essas informações entram para o SICRIDE, que começa as investigações.”, explica. “Mas normalmente assim que as crianças desaparecem, o mais comum é que os pais/responsáveis liguem para a polícia militar para fazer a denúncia. A PM então inicia as buscas pela região, enquanto o caso é repassado para o SICRIDE.”, conclui a investigadora.

 

SERVIÇO

SICRIDE – Serviço de Investigação de Crianças Desaparecidas
Telefone: (41) 3224-6822
Curitiba – Paraná – Brasil
Av. Vicente Machado, 2560, Campina do Siqueira

Secretaria de Estado da Segurança Pública – SESP
Rua Deputado Mário de Barros, 1290
80530-913 – Curitiba – Paraná – Brasil

Instituto de Criminalística do Estado do Paraná
Avenida Visconde de Guarapuava, 2652
Telefone: (41) 3223-6565
80010-100 – Curitiba – Paraná – Brasil

Movimento Nacional em Defesa das Crianças Desaparecidas
Telefone: (41) 3253-2896
80230-110 – Curitiba – Paraná – Brasil
SOS Criança
Telefone: 156 – Somente Curitiba

(Os autores são estudantes do curso de Comunicação Organizacional na UTFPR)

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