Devagar se vai longe!

Reportagem Especial

Um retrato sobre da bicicleta em Curitiba

Por Emanuelle Brizola e Maísa Barbosa

 

Foi o envolvimento da população de Curitiba que fomentou o desenvolver da infraestrutura cicloviária municipal. No primeiro semestre de 2016, o número de mortes de ciclistas em acidentes de trânsito dobrou, de janeiro a junho foram 11 óbitos. Isso acendeu o sinal amarelo: o aumento das mortes representava também a relevância de se ter uma instrução correta sobre o ciclismo na capital paranaense. Isso porque as ocorrências de acidentes entre carros e ciclistas diminuíram 16% no mesmo período. A redução no índice de acidentes com ciclistas versus o aumento de óbitos – também de ciclistas – significava que as colisões, em sua maioria, foram fatais.

Entre março de 2015 e março de 2017, o número de ciclistas circulando pela cidade cresceu 200%, segundo o portal Brasil de Fato (maio/2017). Depois de passar quase duas décadas sem iniciativas voltadas ao ciclismo, a crescente cultura mundial da bicicleta trouxe à Curitiba um novo olhar – e foi preciso trabalhar o entendimento sobre este modelo de transporte. Os usuários passaram a fazer cobranças, principalmente grupos e movimentos cicloativistas, que usam a “magrela” realmente como meio de locomoção, além do lazer. Com algumas adequações, no primeiro semestre de 2017, o número de acidentes de trânsito em Curitiba caiu 38,8% e o número de ciclistas mortos teve queda de 44%. Reflexo claro da conscientização do tamanho da demanda ciclística, por parte da Prefeitura, mas também, da força do papel de agente transformador que só os cidadãos têm.

Luciana Cristo, assessora de imprensa da Prefeitura de Curitiba, afirma que diversas ações educacionais são desenvolvidas periodicamente – um trabalho conduzido pela EPTran (Escola Pública de Trânsito) e seus parceiros, com o objetivo de formação de uma cultura de respeito, direitos e deveres dos ciclistas. Por meio da EPTran, palestras e abordagens são realizadas. “Também há articulações para manutenção e implementação de melhorias de sinalização, principalmente no cruzamento de ciclovias, para aumentar a segurança em pontos identificados como críticos”, descreve ela. Já na parte de fiscalização, são feitas abordagens constantes nas principais estruturas cicloviárias e calçadões, onde o ciclista não pode andar montado na bicicleta, além das canaletas – principalmente nas avenidas Marechal Floriano Peixoto, Sete de Setembro e João Gualberto/Avenida Paraná – onde é proibida a circulação de bicicletas. Outras iniciativas também foram adotadas pela Prefeitura de Curitiba, como a ciclofaixa da avenida Marechal Floriano Peixoto. 

Além disso, a prefeitura providenciou que algumas vagas de EstaR fossem substituídas por paraciclos em pontos da cidade. A primeira foi uma vaga localizada na rua Paula Gomes, esquina com a Duque de Caxias, no bairro São Francisco, segundo o portal Ir e Vir de Bike. Outras iniciativas também foram adotadas pela Prefeitura de Curitiba, como a construção da ciclofaixa da avenida Marechal Floriano Peixoto. Como forma de conscientizar os motoristas, também foram colocadas na própria capa dos talões de EstaR, o aviso: a distância a ser mantida do veículo para o ciclista, que deve ser de 1,5 metro.

Amparo legislativo

Mudanças na legislação brasileira e também no âmbito municipal também são consideradas iniciativas que promovem a segurança dos ciclistas na área urbana. Em janeiro de 2017, a lei que institui a Política Nacional de Mobilidade Urbana (12.587/2012) completou cinco anos. Esta lei é considerada um avanço por prever a priorização do pedestre, do ciclista e do usuário de transporte público acima do veiculo motorizado – visando desenvolver o planejamento da mobilidade nas cidades nos próximos anos.
Em 2015, foi implantado em Curitiba o Programa de Proteção ao Ciclista, visando a conscientização, respeito e fiscalização mais efetiva por dentro da circulação compartilhada. Os agentes da Setran (Secretaria Municipal de Trânsito de Curitiba) receberam orientações mais assertivas, a fim de reforçar suas abordagens de rotina. O Código de Trânsito Brasileiro – Lei de Mobilidade Urbana prevê o respeito à ciclistas e pedestres em oito artigos:

Legislação (2)

Artigos da Política Nacional de Mobilidade Urbana (12.587/2012), disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12587.htm

 

Muito além da ciclofaixa

Quando foi criado, o Programa de Proteção ao Ciclista distribuiu 5 mil faixas reflexivas aos amantes dos pedais. Até agora, somente no ano de 2017, já são 15 mil faixas circulando pela cidade. Elas podem ser usadas no corpo de quem pedala, ou no banco e quadro da bicicleta.

No site www.curitiba.pr.gov.br/maisbici, o ciclista encontra todo tipo de informação e até grupos de pedaladas. Grande destaque para o Simulador de Vantagens da Mobilidade, encorajador pertinente ao ciclismo na capital paranaense. Nele, o usuário preenche campos com as distâncias que percorre diariamente, e o valor do litro de gasolina ou da tarifa de passagem. Assim, o aplicativo calcula as calorias queimadas, os gases poluentes que não foram emitidos, e o valor economizado com manutenções do carro, entre outros aspectos. O custo-benefício é literalmente calculado na ponta dos dedos. O programa é resultado de uma parceria entre o Projeto Ciclovida da UFPR (Universidade Federal do Paraná) e o NPT (Núcleo de Psicologia do Trânsito).

 

mapa-cicliovia-curitiba

O Sistema Cicloviário de Curitiba (Fonte: Assessoria de Imprensa – Secretaria Municipal da Defesa Social)

 

Se o cidadão quiser pedalar mas não souber por onde começar, e até mesmo se não tiver companhia, exatamente na página inicial do portal fica a Agenda de Pedaladas. Sem dificuldades de compreensão, está fixada uma tabela, com local, dia da semana, a qual regional da cidade se direciona a pedalada, e o horário de concentração. Mapas completos da estrutura cicloviária da cidade, assim como a explicação de como funciona cada tipo de espaço que a bike pode circular também podem ser encontrados por lá (ver imagem 1).

Aumento nos serviços prestados por ciclistas

O setor de serviços curitibano foi afetado positivamente pelo ciclismo. Basta circular pela cidade para perceber que tornou-se comum avistar ciclistas com mochilas-caixas nas costas. O cenário empreendedor do ramo foi ampliado e hoje fazem parte deste várias empresas como: Curitiba Messenger, James Delivery, Uber EATS, Camomila Vulgar, Mobilibike e Ecobike.

O serviço de ciclomensageria é antigo na cidade, mas vem se instalando vigorosamente em Curitiba no último ano. O co-fundador do James Delivery, Lucas Ceschin, afirma que a empresa cresceu oito vezes em 2017 e que o interesse dos entregadores têm em trabalhar continua crescendo por fatores como a possibilidade de “fazer seu próprio horário”. Segundo Ceschin, apesar do crescimento notável da profissão, a infraestrutura urbana é insuficiente tanto para a bicicleta, quanto para os carros; e o aplicativo visa alterar a dinâmica urbana de modo que haja menos deslocamentos desnecessários para a compra de determinados produtos ou desempenho de funções.

No dia oito de outubro aconteceu o Primeiro Campeonato Paranaense de Ciclomensageiros. O organizador, Guilherme Akio, pontuou que o evento foi organizado para divulgar a ciclomensageria, além de ter como objetivo fundamental a diversão dos participantes. E diz que pretende realizar mais edições do evento Curitiba afora.

Eventos

Organizadores de eventos devem comunicar com antecedência a Setran, que tem uma equipe específica para organizar agentes de trânsito e atender as solicitações, dentro do necessário e possível, seja com bloqueios ou com trabalhos de rondas de fiscalização. Os curitibanos, em geral, se mantêm otimistas em relação à bicicleta, mesmo em meio a algumas condições adversas de perigos no trânsito, falta de segurança e falta de investimento público. Portanto, a promoção de eventos que incentivam o uso do modal segue acontecendo.

No mês de setembro aconteceu a 9ª edição do festival Musicletada, que há nove anos põe em pauta questões de mobilidade e traz atividades relacionadas ao ciclismo.
Além disso, há pequenas corridas e eventos pontuais, que são organizados por diferentes grupos integrantes dos coletivos – e que reúnem ciclistas para participarem e concorrerem à premiações, e apreciarem conteúdo cultural (muitas vezes produzidos por pessoas do mesmo ciclo). Segundo a Prefeitura, existe uma equipe especial no Setran, para o zelo de eventos e os organizadores devem contatá-la com antecedência.

Apropriação do espaço urbano

A utilização da bicicleta promove um espaço urbano mais saudável e vivo, pois o ciclista vivencia a cidade de perto e em escala humana, além de levar quem pedala a ocupar mais os ambientes da cidade. Neste sentido, os ciclistas que são atletas de uma das modalidades esportivas existentes, demandam mais infraestrutura urbana que os commuters, pois dependem de iluminação em locais específicos, boas condições de pistas no velódromo e bom estado de conservação das quadras de bike polo.

Movidos pela vontade de praticar o esporte e pela falta de incentivo público, um grupo de jovens praticantes de Bike Polo, modalidade esportiva que utiliza a bicicleta como instrumento, se reuniu em julho deste ano para fazer um mutirão de reforma na quadra em que praticam o esporte, no Largo Isaac Lazzarotto. Segundo um dos responsáveis pela ação, Gustavo Matos, estudante e praticante de Bike Polo, o estopim para a organização dos membros da sociedade civil foi o fato de as condições para a prática dos jogos estarem ruins e o órgão municipal não ter respondido aos pedidos do time.

Ainda segundo Matos, a quadra foi adaptada com fundos e mão-de-obra próprios. Mas relatou que no último mês, a Prefeitura de Curitiba começou uma reforma da praça como um todo e foram colocados postes de iluminação que auxiliam na continuidade da atividade por seus adeptos, mas que estes ainda esperam a colocação de lâmpadas.

(As autoras são estudantes de Comunicação Organizacional na UTFPR)

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