Preconceito Linguístico?

#OPINIÃO

Por Nathaly Iara

Historicamente, a fala antecede em muito a escrita. O impasse de qual seria a influência da modalidade oral no texto escrito vem a longo prazo. Há pouco tempo, essa discussão promoveu um debate acalorado entre linguistas e gramáticos a respeito de uma frase presente no livro didático de Língua Portuguesa “Por uma vida melhor”, da ONG Ação Educativa: “Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado”. Tal passagem gerou o dilema: seria um erro de concordância ou variedade linguística? Certamente, trata-se de uma questão de variedade linguística. Sendo o livro direcionado ao ensino de jovens e adultos (EJA), os quais já carregam bagagem linguística própria advinda do extrato social a que pertencem, a reprodução involuntária de sentenças sem adaptação da linguagem oral se faz comum. Afinal, o que é pertinente ao universo gramático e o que é tolerado na sociolinguística?

Tal dilema é provocado por fatores que vão além de questões relevantes para o debate acadêmico. O estigma sustentado pela parcela economicamente privilegiada da sociedade usa a língua – bem comum a todos os falantes, independentemente do nível de instrução escolar a eles oferecido – como difusora de um discurso classista. Utilizar a variação linguística como um pretexto de segregação é desconsiderar a vastidão das fronteiras que dividem politicamente a nação, é ignorar as barreiras econômicas que limitam o acesso a uma educação de qualidade em diversas regiões do país. Além disso, ainda mais sério, é invalidar o repertório cultural que constrói a vivência de cada indivíduo em um contexto social muito mais amplo do que quem promove a injustiça e a exclusão como instrumentos manutentores das desigualdades, que são estruturantes do nosso passado e constituintes do nosso presente. Acreditar em um ideal de língua padronizada não é apenas um equívoco, representa aliar-se ao posicionamento insensível da elite em detrimento das esferas sociais constantemente negligenciadas.

Marcos Bagno em seu livro “Preconceito Linguístico” corrobora tal afirmação ao relatar que o preconceito, independente da natureza, é uma crença natural e uma postura individual. Consequência disso são os vestígios de preconceitos contra aqueles que não detêm domínio da linguagem oral de prestígio. Cada situação de uso, falada ou escrita, exige da língua uma adequação às circunstâncias, e conforme defende Ramos, cabe ao professor orientar a melhor forma de se fazer isso. Discutir em sala de aula a variedade linguística, mediante um cenário de defasagem educacional, faz-se necessário. Talvez, dessa forma, a aversão ao que é diferente se torne menos frequente..

*Estudante do curso de Letras na UTFPR

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