O problema da fetichização da mulher asiática na cultura brasileira

#OPINIÃO

Por Jéssica Guimarães, Julia Duda e Sara Takatsuki*

De acordo com dados do Censo de 2010 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), dois milhões de residentes no Brasil se autodeclararam de cor “amarela”, indo de um percentual de 0,45% da população nacional de 2000 para 1% em 2010. Esse salto no número de moradores asiáticos tem também ligação com os fluxos migratórios, mas não é só isso, há um crescimento considerável de pessoas que assumiram de fato suas origens. Com isso, o número de coletivos de debate e militância no país também aumentou e os problemas de discriminação, fetichização, privilégios, visibilidade e racismo sofrido por asiáticos vêm se tornando cada vez mais discutidos na sociedade.

É perceptível a luta dessa minoria social por uma voz representativa. Os coletivos organizados por esses descendentes evidenciam que não toleram mais esses preconceitos. Uma “brincadeira” racista não pode mais ser considerada normal, a objetificação do corpo feminino oriental não é mais admissível. Dentro desses vários propósitos na luta, o feminismo asiático vem ganhando força e é preciso perceber a realidade de hiperssexualização ainda existente da mulher asiática.

Você já deve ter ouvido frases como “Sempre quis namorar uma asiática” ou “As asiáticas são muito fofas”.  O que você, provavelmente, não sabia é que esse tipo de frase estimula a existência da fetichização das mulheres asiáticas.  Essas expressões, muito normatizadas na nossa sociedade, impõem um estereótipo hiperssexualizado somados de racismo e machismo. Existe uma ideia fixada de que as asiáticas são envergonhadas, fofas, tímidas e muito gentis: o estereótipo de submissão. 

A ideia de que as mulheres asiáticas são submissas não é nova. Ela foi criada historicamente durante as guerras do Vietnã e da Coreia, nas quais as mulheres eram utilizadas como objetos sexuais pelos americanos. Hoje, esse pensamento é tratado como uma minoria modelo, uma grande construção social concebida para pensarmos que todos os asiáticos possuem estas características “positivas”, como uma personalidade honesta, simpática e inteligente.

Junto à grande ascensão das culturas pop japonesas e coreanas, essa concepção errônea tem apenas aumentado. Nela, a mulher é representada da mesma maneira, com personalidade dócil e graciosa – das muitas personagens fantasiosas dos animes, até as doces integrantes dos grupos de K-Pop. Essa cultura é passada ao ocidente e ela prevalece como a principal imagem das mulheres asiáticas. Romantizar uma etnia inteira, e principalmente espelhar esses padrões nas descendentes de asiáticos no Brasil, é extremamente problemático, pois além de assumir que esses descendentes não vivem a cultura brasileira, também propaga mais racismo e estereótipos.

Outra prática muito recorrente é a de escolher se relacionar apenas com asiáticas, de maneira seletiva, devido à esse estereótipo. Essa prática é denominada de Yellow Fever, a endeusificação da etnia amarela, que coloca seus integrantes em pedestais infundados e ilusórios. Isso é diferente do gosto por um tipo de anatomia. É racista, preconceituoso e discriminatório. Se o seu único requisito para escolher uma parceira é a cor de sua pele, há algo muito errado na maneira com a qual você se relaciona.

O racismo para com os asiáticos é muito presente, mas de uma maneira sutil. Essa sutileza é muito questionável, pois passa despercebida e, muitas vezes, não é considerada relevante. A jornada pela igualdade étnica ainda é longa e ela apenas será concretizada quando ser asiático, negro ou branco não for motivo de diferenciação.

*Estudantes de Comunicação Organizacional na UTFPR

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