Ensino superior: Qual o nosso papel?

Breve reflexão sobre uma cultura no ensino superior

#OPINIÃO

Por Felipe Camargo*

Observo com a curiosidade de uma criança as conversas corriqueiras de alunos nos corredores sobre as posturas dos professores. Quem ensina mais, quem enrola mais, quem aplica a pior prova, quem é legal por não aplicar prova, quem é mais que quem. Apesar de possuir opiniões conflitantes com as dos demais colegas, por vezes faço essa reflexão: O que um professor universitário deve orientar em suas aulas?

Em minha graduação de licenciatura aprendi a entender parte da mente humana e como guiar uma sala de aula hipoteticamente, pois a realidade que encontrei na prática é tão contraditória aos ensinamentos que muito pouco usei dos discursos pedagógicos tradicionais na minha curta carreira de professor de História do ensino fundamental público brasileiro. Por ter uma mínima vivência no outro lado da moeda, consigo entender porque um professor não consegue desempenhar tudo aquilo que um dia ele imaginou, são diversos os obstáculos. Porém, a minha realidade da escola básica pode ser aplicada na universidade?  Penso que o ensino a jovens adultos difere muito daquele para adolescentes que aprendi em minhas aulas de pedagogia na PUC PR.

Na licenciatura, aprendi que o professor deve ser um agente de transformação social que deve interagir com o meio de forma com que todos em sua volta consigam ser orientados e educados a trilhar um caminho próspero e inspirador. Com base neste pensamento, seria então o papel do professor universitário reeducar o aluno que vem do ensino médio sem saber ao certo o que esperar da universidade? Creio que não. Então seria o oposto, o professor deve ensinar tudo o que consegue em pouco tempo para fazer o aluno entrar no ritmo ou desistir da universidade logo? Também não acredito nessa opção, apesar de considerar mais válida que a primeira apresentada. 

Mesmo que sem a intenção, o professor do ensino superior ainda tem que lidar com situações que hipoteticamente não deveriam existir neste meio. Seria o professor universitário o novo tio da creche? Onde ele tem que ensinar o aluno a andar com os próprios pés, para só depois começar a ensinar algo que será útil para o mercado? Sinceramente, acredito que o papel do professor na universidade é subvalorizado até mesmo pelo próprio grupo e acredito na necessidade de rediscutir essa cultura, assim como os movimentos estudantis tentam discutir sobre o papel do aluno enquanto universitário. É preciso reinterpretar a profissão. E como lidar com isso?

Para o professor e jornalista Carlos Costa, escritor do artigo “Missão de professor: O papel do docente hoje é fazer parceria com os alunos”, de 2015, é necessário que os professores entendam quais são as diferenças da nova geração de alunos que estão nas instituições de ensino, pois eles apresentam traços culturais distintos de gerações passadas. “A rapidez mental e visual que o jovem desenvolve desde criança, ao manipular smartphones e Xbox; a capacidade de ler enquanto ouve música, vê televisão e conversa com um amigo escrevendo palavras meio-criptografadas no chat da internet assusta os educadores de outras gerações”, exemplifica o professor ao mostrar algumas das diferenças que os professores observam nos jovens ingressantes do ensino médio e no superior.

Os discursos propagados por movimentos estudantis e nos meio de comunicação de massa apresentam argumentos econômicos e culturais sobre os problemas do ensino como: “Os professores são ruins porque não recebem apoio necessário do governo.”; “Os alunos são desestimulados a pensar por causa que o governo não gosta de pessoas inteligentes”; “O professor é ruim porque recebe pouco”; “Olavo de Carvalho tem razão”; “Paulo Freire tem razão”. Não discordo necessariamente desses pontos, utilizar desses argumentos para complementar a problematização é válido. Porém, não podemos abraçar argumentações rasas e ideológicas que não são possíveis ser aplicadas em nossa realidade. É de suma importância repensarmos nossos papéis quanto universitários para modificarmos a cultura que vivemos no Ensino Superior na prática e não apenas no mundo das ideias.

Para finalizar, acredito que se cada professor e cada aluno começar a refletir e buscar se realocar no ambiente universitário possuindo uma real noção do que pode contribuir com a sua própria atitude, o nosso ensino superior terá uma mudança positiva significativa em um espaço-tempo curto e consequentemente nos tornaremos exemplos. Penso em uma mudança em nosso imaginário. E, para isso acontecer, não necessitamos de aumentos nos orçamentos ou de coletivos que ecoem velhos discursos com novas palavras. A mudança deve ser realizada individualmente para só assim conseguir criar uma mudança coletiva consistente.

Considerando que essa mudança é possível e principalmente palpável, o que nos impede de começarmos a mudar a nossa realidade hoje?

Referências:

Costa, Carlos. Missão de professor: O papel do docente hoje é fazer parceria com os alunos. Revista Ensino Superior. 2005. Disponível em: https://www.revistaensinosuperior.gr.unicamp.br/artigos/o-papel-do-docente-hoje-e-fazer-parceria-com-os-alunos

Formação de professor fica longe da realidade da escola. Notícia. Educação, Folha de São Paulo. 2013. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/educacao/2013/08/1321236-formacao-de-professor-fica-longe-da-realidade-da-escola.shtml

Kuzuyabu, Marina. Sala de aula sem professor? Revista Ensino Superior. 2017 Disponível em: http://www.revistaeducacao.com.br/sala-de-aula-sem-professor/

Rodrigues, Cinthia. Professores não são preparados para ensinar. Último Segundo, Ig. 2012. http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/2012-04-23/professores-nao-sao-preparados-para-ensinar.html

*Estudante de Comunicação Organizacional na UTFPR

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