Vivendo sob uma perspectiva diferente

A história de uma jovem que não deixou que obstáculos e desafios a impedissem

Por Caroline Dallagrana e Naara Martins

Ao nascer, Pamela foi diagnosticada com glaucoma congênito, uma doença não hereditária, que provavelmente foi ocasionada devido alguma má formação durante a gestação. Aos três dias de vida, foi submetida à sua primeira cirurgia, até hoje foram 12. As primeiras cirurgias buscavam reverter seu caso, mas como foi percebido que não havia cura, as outras cirurgias serviram para inserção de uma válvula para que Pamela pudesse ter uma vida saudável e tranquila. Hoje, com 26 anos, formada em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Pamela trabalha como Supervisora de Negócios no Banco Bradesco.

Como qualquer outra pessoa, sua vida foi marcada por alegrias, tristezas, obstáculos e desafios. Até os 6 anos de idade, Pamela ainda via as cores, formas e imagens.  Sempre esteve ciente que perderia sua visão, por isso, aproveitou ao máximo para ver tudo o que pudesse. Gradativamente foi perdendo completamente a visão, atualmente, de vez em quando consegue ver alguns vultos e identificar luzes. “O que eu sinto hoje é saudades. Quando uma pessoa morre, o rosto dela vai sumindo da sua mente com o tempo, é normal isso, eu preciso fazer um esforço impressionante para lembrar de como as coisas são, sinto saudades de ver o rosto das pessoas, sinto saudades de ver o mar, Eu vou a praia e fico parada lá na frente lembrando de como ele é. Tenho amigos que nunca enxergaram, como se explica o mar para uma pessoa? Tem coisa que é só vendo. Eu sou muito grata por ter visto essas coisas, um céu bonito, o sol, a lua, coisas simples que muitas vezes passam despercebidas por aqueles que enxergam. Eu seria muito mais triste se nunca pudesse ter visto nada disso. Acho que assim sou mais feliz”.

Pamela Marques de Camargo Rocha, 26 anos

Pamela iniciou os estudos muito nova, com 3 anos ela frequentava uma instituição para realizar a estimulação precoce, exercícios para tratamento dos olhos, no período da manhã e durante a tarde estudava em uma escola regular, onde ficou até sua formação no ensino médio. Nas instituições que frequentava Pamela foi alfabetizada em braille e aprendeu conteúdos, como os de matemática, de maneira adaptada.

Pamela sempre foi uma boa aluna, e conta que sofreu pouco preconceito na época de escola, se lembra de poucos episódios de quando era pequena e seus colegas a tratavam diferente, mas não apenas por sua deficiência visual, na verdade ela acredita que foi por sua condição financeira, pois sempre estudou em escola particular como bolsista.

A fase mais legal na escola foi durante sua adolescência, “posso dizer que minha história é um pouco diferente, não é nada trágica, não chegava chorando da escola. Eu andava com pessoas legais, descoladas”, relata Pamela. No segundo ano do ensino médio, Pamela prestou vestibular para psicologia na PUC e foi aprovada. Na época, era possível recorrer para que se pudesse ingressar na Instituição mesmo sem ter concluído o ensino médio. Entretanto ela teria que terminar seus estudos em três meses e cursar a faculdade ao mesmo tempo.

Na universidade, apesar dos obstáculos e dificuldades para obter o material de estudo – ela precisava digitalizar todos os livros e então utilizar um software apropriado para a leitura -, Pamela viveu uma das melhores fases de sua vida, costumava sair com seus colegas e se divertir. “Geralmente, pessoas cegas convivem muito com pessoas cegas e acabam se fechando em um mundo só deles. E talvez o fato de eu não ter tanta convivência e poder ter estudado em uma escola regular me fez não me fechar nesse mundo e me ajudou muito a perceber coisas e até mesmo agir de forma diferente”, conta Pamela.

Ainda na faculdade, Pamela iniciou sua busca para entrar no mercado de trabalho, junto com sua mãe saiu para entregar currículos em diversas empresas, após alguns dias ela havia sido chamada para trabalhar como recepcionista, mas no mesmo dia foi convidada para uma entrevista na Renault, no mesmo horário que deveria entregar a papelada para a vaga da outra empresa. Então Pamela decidiu arriscar, trocou sua vaga garantida pela entrevista na multinacional, onde trabalhou durante aproximadamente 5 anos, quando foi convidada para trabalhar no RH do HSBC, hoje Bradesco, e desde então fazem 11 anos que está na empresa, agora com o cargo de Supervisora de Negócios.

Foi na vida profissional que Pamela encontrou mais dificuldade em relação a sua deficiência visual. Durante sua busca por emprego era questionada sobre como ela conseguiria contratar pessoas se ela não podia enxergar. Duvidavam de sua capacidade para desenvolver seu trabalho devido sua condição física e muitas vezes disseram a ela que suas conquistas vieram apenas por conta de sua deficiência. Entretanto, Pamela sempre teve em mente que a melhor maneira de provar sua competência era continuar trabalhando, e desta maneira ela conseguiu crescer na sua carreira e realizar atividade cada vez mais complexas.

Muitas vezes, ela mesma não sabia como iria realizar alguma atividade, mas sempre soube que encontraria uma maneira e iria superar essas dificuldades. “Era notável a incompreensão das pessoas ao ver uma deficiente visual sendo promovida antes que elas, era difícil lidar com isso. As pessoas ainda acham que por não ter nenhuma deficiência, elas com certeza são melhores de alguém que não enxerga, por exemplo. Colocam a deficiência acima da competência”, relatou a psicóloga. Muitos colegas do trabalho se recusaram a realizar projetos com ela e duvidaram de sua eficiência, talvez por uma questão de rivalidade, uma vez que, diferente da vida escolar, o mercado de trabalho envolve dinheiro.

Seus familiares foram as principais pessoas que ajudaram ela a superar qualquer dificuldade, principalmente sua mãe foi essencial. Ela sempre deu muita liberdade a tratou como qualquer outra pessoa da família, e foi muito criticada por isso pois diziam que ela deveria tratar a filha diferente. Quando criança ela nunca foi impedida de brincar na rua com seus amigos, andar de bicicleta e subir em árvores, obviamente ela possuía certas limitações, mas sua família estava ao seu lado em todos esses momentos, e hoje ela percebe o impacto dessas atitudes em sua vida.

Pamela sente falta de, por exemplo, poder dirigir, ter seu próprio carro para ir e vir quando quiser, sem depender de outras pessoas. Além disso, ir ao mercado ainda é muito difícil para um deficiente visual, os estabelecimentos não estão devidamente preparados, ela sempre precisa que alguém lhe acompanhe.

A maneira como foi criada mudou totalmente sua forma de lidar com sua deficiência visual, pois ninguém nunca lhe impediu de fazer algo ou disse que ela era incapaz, logo, ela nunca acreditou ser incapaz de seguir sua vida normalmente e realizar seus sonhos apesar de algumas dificuldades e obstáculos encontrados durante sua jornada. Pamela sonha em ter o seu próprio consultório de psicologia, apesar de gostar muito do que faz atualmente ela gostaria muito de atender pacientes. Além disso ela também sonha em ser mãe e trocar seu apartamento por uma casa.

A história de Pamela nos faz pensar em quantas vezes colocamos obstáculos em nossa frente e acreditamos não sermos capazes de vencê-los. Pensamos que somos incapazes e, sem insistir, desistimos. Os outros podem duvidar de sua competência, mas o que realmente importa é acreditar em si mesmo e seguir em frente.

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