O protagonismo do feminismo: branco, classe média e elitista

#OPINIÃO

Por Camila Mancio

“Yo solo pido un espacio pa’respirar”,  Jelena Dordevic

O feminismo é um movimento político e social que prevê a equanimidade de gêneros. Isto é, que os indivíduos tanto do sexo masculino quanto do feminino possam ter as mesmas oportunidades. No entanto, há várias divisões dentro do movimento que são marginalizadas e excluídas, sem que se leve em conta as demandas individuais de cada grupo. O protagonismo do feminismo, por exemplo, coloca em debate a liberdade do corpo e uso da maquiagem como questões prioritárias, mas essas não são pautas que atingem todas as mulheres, principalmente as de menor poder aquisitivo.

Em lugares que ainda perpetuam a exclusão social, como nas universidades brasileiras, rodas de conversas e palestras são frequentemente levantadas – internamente. No entanto, será que essas estudantes são realmente as que mais precisam desse debate? E as mulheres na periferia? As que não podem estudar porque têm um filho para criar? As que moram em zona de risco? As que trabalham 12 horas em pé dentro da sua universidade – isso mesmo, essa que você estuda – limpando os escritos sobre amor próprio que você deixou no banheiro, de batom ou de sangue, para empoderar outras mulheres? Esse feminismo não me representa. 

É claro que o uso da maquiagem, objetificação feminina e liberdade do corpo são temas que precisam ser levantados. Mas eles não podem ser colocados acima da saúde; educação; saneamento básico; alimentação e moradia – fundamentais para uma vida minimamente digna. Afinal, como discutir problemas como liberdade sexual de barriga vazia?

Antes de falar de igualdade de gênero, é preciso entender que dentro do feminismo há mulheres que precisam mais dele do que outras, e muitas vezes nem sabem o que o movimento significa. É necessário que exista empatia entre nós. Ou seja, lutar para que hajam condições mínimas para que todas as mulheres possam participar efetivamente.
As mulheres mais vulneráveis precisam lidar – além da violência simbólica, sexual e doméstica – com problemas estruturais culturalmente aceitos pela sociedade. De acordo com o livro Uma análise feminista sobre políticas de combate à pobreza no Brasil, Paraguai e Uruguai (2014), escrito pelo Centro Feminista de Estudos e Assessoria (CFEMEA)*, as políticas de qualificação destinadas à população mais vulnerável não têm enfoque de gênero ou racial. Isso dificulta ainda mais a participação das mulheres nos programas sociais brasileiros – Brasil Carinhoso, Brasil sem Miséria, Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), Bolsa Família – pois suas necessidades são ignoradas.

E eis que reconhecer meus privilégios não é de maneira nenhuma, trair o movimento feminista, pois (sobre)viver em uma sociedade patriarcal e capitalista é sim uma forma de militância. Antes de cuidar de si, há uma necessidade de cuidar de nós. Sim, nós temos problemas, mas não podemos marginalizar outras mulheres. Ser mulher é um desafio, mas ser trans, negra, pobre e periférica é estar na base da pirâmide. Eu não posso e nem vou falar sobre uma realidade que não é minha, pois não é meu lugar de fala. Mas dar voz, ouvir e nos proteger é urgente.

* Uma análise feminista sobre políticas de combate à pobreza no Brasil, Paraguai e Uruguai, revista CFEMEA, 2014.

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