Livro discute os impactos e desafios do uso da tecnologia na educação

O professor e filósofo Celso Klammer: “Na sociedade atual, o professor precisa se inventariar constantemente”

O professor e pesquisador paranaense Celso Rogério Klammer lança hoje, a partir das 19 horas, na biblioteca da Universidade Positivo, em Curitiba, o livro “Tecnologias da informação e comunicação” (Appris, 306 páginas). O volume já está à venda nas livrarias. O evento, bastante informal, contará com um coquetel e noite de autógrafos.

Resultado da tese de doutorado de Klammer na PUC-PR no Programa de Pós-Graduação em Educação, o livro é um exposição detalhada sobre as transformações dos métodos de ensino ao longo dos séculos em função das grandes mudanças sociais e tecnológicas.

Veja a seguir os principais trechos da entrevista que Celso Klammer concedeu à AG Comunique.

AG Comunique – O que levou você a escrever sobre o tema da tecnologia?

Celso Klammer – Uma questão fundamental é que a tecnologia sempre teve esteve na história – porque ela não é de agora: desde que o indivíduo é humano ele se utilizou das tecnologias. Então, tomo como pressuposto que ela tem um papel fundamental na organização dos indivíduos e também na organização e produção do conhecimento. E é nesse sentido que os indivíduos se educam. Isso contribui para a educação. Por exemplo, o fato de as pessoas das comunidades primitivas conseguirem produzir o fogo, gerou uma nova forma de organização. Por exemplo, elas puderam, de uma forma mais confortável, se reunir em volta da fogueira e contar causos, falar sobre a caçada naquele dia etc. O fato de esses indivíduos terem a proteção do fogo, poderem produzir no momento que quiserem, gerou uma nova forma de relação social, ao trocarem experiências, por exemplo. Em síntese: o meu pressuposto é que a tecnologia sempre traz uma forma de as pessoas se organizarem e interagirem, principalmente na contemporaneidade. O avanço tecnológico traz uma nova forma de relação e organização entre as pessoas. A tecnologia sempre traz uma nova forma de aprender. Quanto à educação escolar, se ela traz uma nova forma de aprender, deve existir uma nova forma de ensinar.  E na contemporaneidade, a tecnologia me chama muito a atenção, por essa nova forma de relação com o conhecimento e relação com as pessoas.

Você discute muito no seu trabalho a teoria da complexidade. O que vem a ser essa teoria?

Para entender essa teoria, vamos partir primeiro do significado de complexidade. A palavra vem de “complexus”, daquilo que é tecido junto. Não no sentido a que o senso comum atribui, como sendo algo difícil. Ora, até o século XX o que predominava na sociedade era um paradigma conservador, baseado na rigidez, na linearidade, naquilo que é rigidamente organizado, ou seja, o paradigma cartesiano-newtoniano.

Esse paradigma foi questionado por grandes pesquisadores da física, que começaram a questionar a organização da sociedade, o entendimento do cosmos e de todo o universo. É a física que começa a discutir que as partes só podem ser entendidas se elas forem vistas numa ótica de inter-relacionamento e de interação. Até então entendíamos que os fenômenos deveriam ser compreendidos se eles fossem divididos em partes e se observássemos cada parte separada do todo e que apenas a soma das parte é que traz um todo. Esses físicos, como Albert Einstein, com a Teoria da Relatividade, vão trazer uma nova forma de ver o universo, como uma grande rede interligada. Eles começam a entender que o mundo é um fluxo de energia, que é um processo de mudanças constantes. Em resumo: essa ideia da complexidade é uma nova visão de mundo na sua provisoriedade, na sua irreversibilidade, na sua instabilidade.

Para enriquecer essa ideia, o Nobel de Química Ilya Prigogine desenvolveu uma teoria na qual trabalhou com a instabilidade nos sistemas vivos. Ele diz que todo o universo e todo o sistema vivo está baseado numa entropia, numa desordem, ou seja, só há um equilíbrio linear em toda a natureza se a matéria estiver morta. Enquanto for um sistema vivo, a sua organização se dá no desequilíbrio. O paradigma da complexidade vem ao encontro dessa visão de mundo pautada na provisoriedade, no acaso.

Como ocorre a incorporação da tecnologia na escola?

A educação e a escola são uma parte da sociedade, mas não isoladas. A escola, como parte, contém elementos do todo, mas na visão da complexidade.  Como parte, ela torna-se maior do que o todo porque vivencia as questões do todo: as mazelas vividas na sociedade também  são vividas na escola e na sala de aula. A sociedade está permeada de tecnologias. E a escola não pode ficar isenta. Ela tem que incorporar esssa tecnologias. Mas o que entendemos por tecnologia? Tecnologia são todos os artefatos produzidos pelo ser humano. Não é só o computador ou o tablet. Fica claro hoje que há uma nova forma de aprender trazida pelas tenologias. Há uma nova forma de relação com o conhecimento trazida pelas tecnologias. Walter Benjamin já falava isso na década de 1930, ao se referir à fotografia e ao cinema. Essas tecnologias trazem uma nova percepção do conhecimento. A escola tem que repensar a forma como se relaciona com o conhecimento por meio da tecnologia. O professor deve pensar metodologias inovadoras. Quando falo que tudo é tecnologia, me pauto em Juana Sancho, professora da Universidade de Barcelona que classifica tecnologia como esses artefatos que fazem parte da nossa vida. A caneta, o quadro-de-giz, o computador são tecnologias. A pergunta é: como o professor fará uso disso tudo.

Há uma exaltação da tecnologia na atualidade, a ponto de ela se transformar numa espécie de mito?

Pode haver sim esta exaltação. Penso que é fundamental que a escola, a instituição de ensino, tenha claro o que significa o uso da tecnologia. O uso em si não melhora o processo de ensino-aprendizado, porque a questão é como é feito esse processo. Se o processo ou a instituição não tiver claro qual é o método que norteia a sua prática, ele apenas vai reproduzir em sala de aula uma perspectiva pautada no paradigma taylorista-fordista, ou seja: copie, leia, decore e reproduza na sala. Todo professor tem uma filosofia, um método que dá sustentação a sua prática. Essa filosofia deve estar pautada no perfil de aluno que se desejo formar e para que sociedade se desejo formar. Nesse sentido, está o uso das tecnologias. Para que eu uso, por que eu uso? Como eu posso desenvolver aquele conteúdo ao usar, por exemplo, o tablet, o computador ou um texto? O uso da tecnologia pode se transformar num mito se a escola não tiver clareza de seu uso e se atender apenas a uma demanda mercadológica.

Como deve ser o perfil do professor levando em consideração as mudanças tecnológicas mais recentes?

O que é fundamental é que a docência é uma profissão, e para o exercício dessa profissão há um conhecimento específico. Há uma especificidade que não é aquele mito que foi criado e reproduzido e muitas vezes de que quem sabe uma determinada profissão, sabe ensinar. No paradigma cartesiano-newtoniano, talylorista-fordista, pautado só na reprodução, aí sim – mas tendo em vista as mudanças da sociedade contemporânea, isso não basta. É preciso o professor, como diria Antonio Gramsci, inventariar-se, é necessário um inventário da prática docente para o professor minorar a sua atuação em sala de aula, porque a docência é uma profissão e exige um saber específico, e este saber é o saber pedagógico.

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