Minimalismo elaborado: o inverno de Fernanda Yamamoto

Renata Pitombo Cidreira (*)

Predomínio de formas simples - crédito: http://fernandayamamoto.com.br/colecoes/

Predomínio de formas simples – crédito: http://fernandayamamoto.com.br/colecoes/

Num momento em que o excesso, o exagero, o extravagante, a mistura e o espetacular prevalecem como valores da vida contemporânea, o desfile da estilista Fernanda Yamamoto chama atenção justamente por ir na contramão dessa tendência que elege o bordão “quanto mais, melhor” como sua grande máxima ou mesmo da apologia da beleza inspirando loucas exigências. Seu trabalho reafirma, assim, que a beleza pode estar na contenção. Afinal, como afirma Jean Galard, o belo é incompatível com o projeto de sua exibição.

Assim, podemos batizar a última coleção da estilista Fernanda Yamamoto, apresentada na 42ª edição da São Paulo Fashion Week (SPFW), no espaço da Pinacoteca, museu mais antigo da cidade, no dia 25/10, às 10h, como uma espécie de minimalismo elaborado. O desfile transcorreu ao modo clássico, com apresentação dos looks de forma pausada e sóbria, ao som de uma trilha também intimista, a partir de três instrumentos acústicos: sanfona, violino e flauta.

Recorrendo a poucos elementos e apostando no corte austero da alfaiataria, Yamamoto exibe 20 peças repletas de sentido e beleza com o mínimo de recursos. Roupas estruturadas e a prevalência da cor preta, associada a tons de cinza reiteram o minimalismo que integra a coleção. Não por acaso, a associação com o movimento artístico minimalista, surgido na década de 60, cujo objetivo era justamente alcançar um purismo funcional e aproximar-se da ideia de síntese.

A busca pelo essencial talvez seja uma das marcas mais fortes do trabalho de Fernanda Yamamoto e que lhe confere sua identidade e o estilo das suas roupas. No mercado desde 2007, a estilista paulista combina materiais nobres, técnica artesanal e uma preocupação grande com a modelagem, num mix de simplicidade e elaboração. E nesta coleção de inverno mais uma vez o consumidor pode experimentar esse traço, o que vem delineando um caminho formativo consistente:  “Este é um trabalho que fala novamente das questões que considero as mais pertinentes para os dias de hoje: o tempo, o trabalho manual, as relações humanas e o que está por trás da superfície, do aparente”, diz a estilista.

Apesar da procura pelo essencial, o mesmo não se exime da riqueza e complexidade, sobretudo no trabalho de modelagem. Ela segue caminhos sinuosos ao longo das peças inspiradas na alfaiataria clássica masculina, mas de uma forma completamente desconstruída. O trabalho do modelista Fernando Jeon foi exatamente o de desconstruir o que seria uma alfaiataria esperada. Além disso, a preocupação com a sustentabilidade também esteve presente, através de técnicas de upcycling, com reaproveitamento de tecidos, na elaboração das peças apresentadas, bem como na produção das acomodações do público: bancos feitos de papelão.

Preocupada tanto com o processo formativo, quanto com o resultado final, a estilista traduz na sua poética uma originalidade fincada no trabalho artesanal. A risca de giz, feita de fio de nylon encapado com linha, é tudo menos uma linha reta. Materiais inusitados também apareceram bastante nesse desfile de Fernanda Yamamoto: o crinol – que é invisível na crinolina que arma a saia -, a reunião de ourelas (a barra da fazenda) de tecidos diversos que seriam descartadas (num trabalho conjunto com Augustina Comas), os bordados com borrachinhas e ruelas (em parceria com Natália Rios) e até renda a renascença feita com cordão de couro. Outro destaque das peças foi a transparência. Chamou também atenção a ausência de acessórios na composição dos looks, reforçando a poética minimalista.

Com esse desfile a estilista prova que mesmo num universo repleto de tecnologia e recursos os mais diversos, menos ainda pode ser mais! Na vida, na arte e na moda!

(*) Renata Pitombo Cidreira é professora da UFRB, jornalista e pesquisadora de moda. Autora de Os sentidos da moda (2005), A sagração da aparência (2011) e As formas da moda (2013), entre outros.

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