UTFPR desocupada; aulas voltam neste sábado (26)

Itana Sued, Isabelly Martins  e Tariana Zacariotti (*)

Durante a madrugada de hoje (25), a Polícia Federal, com o auxílio operacional da Polícia Militar do Paraná, cumpriu o mandado de reintegração de posse na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). O Câmpus Curitiba-Centro estava ocupado pelos estudantes desde a última sexta-feira (18), em manifesto contrário à Proposta de Emenda Constitucional (PEC)55 que congela gastos públicos primários da União por vinte longos anos, e também em apoio aos estudantes secundaristas do Paraná que são contra a Medida Provisória (MP)746, que estabelece fortes mudanças no ensino médio.

desocupautf2Pátio interno da UTFPR . Foto: Maíra Kaline

O pró-reitor de planejamento da UTFPR, Sandroney Fochesatto, informou que as aulas devem ser retomadas na manhã deste sábado (26) e que deve ser divulgado um novo calendário para repor as aulas desta semana de ocupação.

Segundo a PF, em nota, todos os estudantes saíram do prédio de forma pacífica. De acordo com a Justiça Federal, havia 58 estudantes no local. Seis são menores de idade que foram encaminhados aos cuidados do Conselho Tutelar do município. A Polícia Federal justifica a ação feita pela madrugada, uma vez que foi cumprido fora do horário determinado em lei, fixado entre 6h e 20h: “Com vistas a garantir a segurança de todos os envolvidos, inclusive dos manifestantes responsáveis pela ocupação, bem como eventuais prejuízos à locomoção da população em geral na região central de Curitiba, a ação foi realizada em horário de pouca circulação”, diz a nota policial.

O advogado Manuel Caleiro, que prestou assessoria jurídica ao movimento de ocupação, se manifestou dizendo que a ação da PF foi ilegal, dado o horário. Segundo determinado por lei, o horário da reintegração deveria ser entre 6h e 20h, e só poderia ocorrer exceção caso houve alguma nota no próprio mandato de reintegração, o que não foi o caso.

Ainda alegando ilegalidade das ações desta madrugada, o advogado apontou também alguns pontos do mandato que foram descumpridos durante o ocorrido, como a falta da presença de uma equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), para prestar pronto atendimento em caso de eventuais lesões causadas durante o processo de reintegração, e a presença do Conselho Tutelar durante toda a ação, já que havia menores de idade no local. Membros do Conselho Tutelar chegaram 20 minutos antes do término do cumprimento do mandato.

Os participantes da ocupação começaram a deixar o câmpus por volta 6h15 e até as 7h50 todos já haviam deixado, de maneira pacífica, a Universidade. A ação da PF contou com a presença do ilustre agente Newton Ishii, conhecido como “japonês da federal”, que estava usando tornozeleira eletrônica até o último dia 4 de outubro após ser condenado por facilitar a entrada de contrabando no país.

Uma semana tensa

A ocupação foi realizada no final da noite de sexta-feria (18), logo depois do término das aulas. No  início  da  manhã de sábado  (19),  representantes  da  Reitoria  e  da  Direção-Geral do Câmpus Curitiba tentaram negociar uma desocupação pacífica das instalações do prédio, porém, não obtiveram sucesso. Por volta das 9h30, estudantes contrários, que estavam do lado de fora, também entraram no prédio. Houve confusão e bate-boca entre os dois grupos e, apesar do tumulto, ninguém ficou ferido. Logo em seguida, a instituição entrou com medida judicial pedindo a reintegração de posse, que foi deferida ainda no sábado, mas a PF alegou falta de efetivo disponível para adiar o cumprimento da ordem.

Esta protelação ampliou o clima de acirramento entre os dois grupos. Na noite de terça-feira (22) às 22h30 houve um ataque dos estudantes contrários à ocupação que terminou com registro de ocorrência na delegacia, quando seis estudantes que faziam parte da ocupação, e que protegiam o portão de acesso à instituição da Avenida Silva Jardim, foram agredidos por aproximadamente 15 pessoas que, com muita violência atacaram os alunos com chutes, murros e pontapés. A PM, que foi acionada e impediu o conflito, localizou com o grupo que era contra a ocupação, uma bolsa que continha faca, pedras de calçada, “bombinhas caseiras”,  soco inglês, uma touca balaclava e outros objetos. Ninguém assumiu a propriedade do material apreendido.

Em postagem em rede social, o movimento do Ocupa UTFPR afirmou que “indivíduos contrários à ocupação chegaram em grupo frente à entrada da Silva Jardim e, mesmo com a presença da ronda da Polícia Militar na quadra, mulheres e companheiros também foram agredidos”.

No final da tarde de quinta-feira (24) houve novo ataque aos ocupantes e seus apoiadores, por parte de alunos contrários, juntamente com integrantes do Movimento Brasil Livre (MBL). Foram registrados empurrões e troca de socos, paralisando o trânsito na Avenida Silva Jardim.  Estes mesmos manifestantes, comemoravam na manhã de hoje enquanto a polícia fazia a retirada dos ocupantes, gritando palavras de ordem na frente do portão.

A equipe do AGcomunique foi atrás de histórias de pessoas que estiveram no local e participaram da ocupação. Um ocupante, que não quis se identificar, relata:

A Ocupação foi o episódio mais difícil, amedrontador, enriquecedor e humano da minha vida. Ao lutar pelos meus direitos e contra os retrocessos impostos pelo governo atual, senti que finalmente estava colocando em prática a razão do meu viver, a minha atuação como ser funcional e necessário da sociedade. Ocupar me trouxe uma humanidade que nunca irei perder. Ver amigos sofrerem ameaças, terem colapsos psicológicos e físicos ao seu lado, e temerem a todo momento é algo que nunca esquecerei e que me mostrou o quanto a união das pessoas por um objetivo em comum tem força. O movimento estudantil me mostrou que existe amor e existe humanidade dentro da UTFPR como eu nunca tinha visto antes. E mesmo aqueles que estavam cheios de ódio se mostraram humanos, pois não há nada de mais humanos que o ódio – mesmo que isso seja ruim.

A desocupação não representa uma derrota do movimento, e sim uma vitória, pois resistiram a todos aqueles que com força tentaram tirá-los de lá, e saíram apenas quando não houve mais possibilidades. Saíram com integridade, cabeça erguida e a certeza que fizeram história e mudaram para sempre o local onde estudam. Não estamos mais no CEFET, que formava robôs, estamos na UTFPR, que forma seres humanos.”

desocupautfCartaz na entrada da UTFPR. Foto: Maíra Kaline

Professores rejeitam deflagração de greve

Professores da UTFPR se reuniram hoje em assembleia para discutir a deflagração da greve contra a PEC 55 e demais reformas do governo federal. A assembleia geral da categoria foi realizada às 16h no auditório da Sede Centro, desocupada na manhã de hoje. Em votação, os professores rejeitam deflagração de greve. Foram 151 votos contrários, 65 favoráveis e 11 abstenções.

Em outubro, os docentes da UTFPR aprovaram o indicativo de greve antecipando a mobilização nacional  que indicou realização de assembleias em universidades federais de todo o país no início deste mês.

Segundo o site do Sindicato dos Docentes da UTFPR (SINDUTF-PR), atualmente, o Sindicato Nacional já tem 25 seções sindicais com atividades paralisadas. Além da deflagração da greve, que teria início em 1º de dezembro, os docentes da UTFPR também discutem o envio de delegados e observadores para o 36º Congresso do Andes-SN, que ocorre entre 23 e 28 de janeiro de 2017, em Cuiabá, no Mato Grosso.

(*) Estudantes de Comunicação Organizacional da UTFPR

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