Professor Ivo Queiroz recebe homenagem no II Novembro Negro da UTFPR

Tiago Correia (*)

Foi realizada, durante o II Novembro Negro na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), na última sexta-feira (11), uma homenagem ao professor Ivo Queiroz, um dos precursores das discussões raciais na Instituição e fundador do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indigenistas (NEABI). A homenagem foi organizada pela professora Veronica Calazans, do Departamento de Estudos Sociais (DAESO) junto a membros do NEABI.

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Professor Ivo Queiroz. Foto: arquivo AGComunique

A homenagem foi aberta com um vídeo, com a proposição de fazer pensar sobre a real presença negra no espaço universitário e seguiu com um flash mob, no qual uma criança iniciou um canto africano, seguido por diversas vozes vindas do público e acompanhadas de tambores e chocalhos. O canto em uníssono emocionou os mais de 40 presentes no auditório.

A professora Veronica frisou: “O professor Ivo iniciou o NEABI em tempos difíceis, enfrentou ataques covardes e não desistiu se tornando uma referência, que os membros do movimento negro na universidade respeitam não só por suas falas, mas pelas atitudes, enfrentamento e resistência”. Logo em seguida o professor foi muito aplaudido por todos os presentes.

O aluno Luiz Ricardo Castro, do curso de Arquitetura e Urbanismo da UTFPR, comenta a influência do professor Queiroz: “Conheci o professor Ivo quando cursei a disciplina A presença Africana no Brasil: Tecnologia e trabalho, na qual tomei consciência da pouca representatividade negra na universidade. Eu só tive dois professores negros por exemplo, e embora os negros estejam aqui, muitas vezes não são vistos.” A partir de então o aluno, ressalta que engajou-se na lutar por esta causa e fundou o Coletivo Enedina, um espaço de discussão, troca de experiências e união dos alunos negros na UTFPR.

 

Professor Ivo Queiroz fala a Agcomunique sobre sua trajetória

Antes de ser homenageado o professor Ivo concedeu entrevista a Agcomunique, sobre a presença negra na universidade.

AgComunique: O senhor pode comentar sua trajetória junto ao NEABI?

Professor Ivo: Sou um dos fundadores do NEABI, líder do grupo como consta no registro junto ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), ao qual o grupo está vinculado desde 2006. Porém, nosso trabalho começou muito antes, por volta dos anos 2000.

Como diz Guimarães Rosa “sapo não pula por boniteza, mas porém por precisão!”, ou seja, o NEABI nasceu devido ao um racismo institucional, presente na universidade como sangue nas artérias. Lembro que me chamou atenção uma nota do Sindicato dos Docentes, que usava o termo “denegrir”. Eu, extremante zangado, procurei o professor que havia escrito a nota, ele se justificou dizendo que não havia nada de errado com palavra, que ela era de uso corrente na língua portuguesa, ai começou uma discussão junto ao Sindicato que foi levada à diante.

Lembro também que em 1996 quando o jovem negro Carlos Adriano foi assassinado por um grupo de skinheads no centro de Curitiba, o Sindicato já tinha uma outra postura, inclusive redigimos uma nota de solidariedade à família e à comunidade negra.

Junto ao DAESO organizamos entre seis a dez, já não lembro exatamente, “Seminários de presença africana no Brasil” nos quais reunimos autoridades paranaenses e nacionais para tratar da temática negra. O grupo ainda orienta trabalhos acadêmicos, monografias e já orientei cinco trabalhos do Programa de Desenvolvimento Educacional (PDE), que é direcionado a professores da rede pública, que se dedicaram à pesquisa dessa temática.

E embora sem nenhum apoio da instituição, no DAESO conseguimos a criação da disciplina A presença africana no Brasil: Tecnologia e trabalho. Isso aconteceu por volta de 2004-2005, porém ainda assim a disciplina não está presente em todos os campi.

AgComunique: Como o senhor vê a representatividade negra na UTFPR?

Professor Ivo: A representatividade negra é vergonhosa e minimalista, é incrível que em uma sociedade que tem metade da sua população negra ela não se faça representada na universidade e isso porque essa população negra pertence, na maioria das vezes, a um extrato social que não é o mesmo dos alunos que ingressam na universidade.

Há ainda incontáveis atitudes de violência contra alunos negros nesse ambiente. Conheço casos nos quais três ou quatro alunos negros estavam juntos e foram chamados de quadrilha, ou alunos negros que se deparam com dificuldades de encontrar colegas para fazer trabalhos em grupo, ou mesmo atitudes agressivas por porte de professores em relação a esses alunos. Existe ainda a vergonhosa questão da fraude nas cotas raciais que tem de ser debatida.

AgComunique: Qual a importância de eventos como o Novembro Negro?

Professor Ivo: Eventos como esse são fruto de um amadurecimento do NEABI, a equipe organizadora conseguiu discussões de um nível muito bom. Ressalto a importância de momentos como esse para um amadurecimento político, que leve a comunidade negra a um enfrentamento da violência, que é severa contra esse comunidade e deve ser combatida.

 

II Novembro Negro na UTFPR

No mini auditório da UTFPR o NEABI promoveu, entre os dias 9 e 11, o II Novembro Negro. O evento incluiu mesas redondas, conferências, apresentações artísticas e culturais, voltadas para a temática negra. Sobre a importância do evento a professora Veronica Calazans, uma das organizadoras, comentou, “embora conte com um número limitado de participantes, as discussões foram de muita qualidade”. Ela explicou que mesmo só havendo por imposição da lei de cotas (Lei nº 12.990 de 2004) um maior número de alunos negros na universidade, isso não muda a cultura institucional que é preconceituosa e lamenta que “muitas vezes quem precisa participar das discussões não se encontre presente.”

Eligeane Graciano, que é cantora e foi convidada para participar de uma intervenção artística durante o II Novembro Negro, afirmou que é importante “mostrar a cultura negra, e para isso a arte tem papel fundamental” e ressaltou que eventos como o Novembro Negro são espaços “para a sociedade ver e compreender parte da cultura negra e assim essa comunidade ganhar mais visibilidade.”

Já a pedagoga Eliane Graciano afirmou a importância do evento quanto um espaço de conhecimento, pois, segundo ela, “enquanto universitários negros, não conhecemos tudo de nossa cultura, então são necessários espaços de estudo como esse.” A pedagoga relatou, durante uma das mesas no evento, um caso de racismo sofrido no ambiente universitário, ato praticado por um professora no curso de pedagogia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), mostrando assim claramente a importância de discussões como as do Novembro Negro no ambiente universitário.

 

Dia Nacional da Consciência negra em Curitiba

O Dia Nacional da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, não é um feriado em Curitiba, por recente decisão do Supremo Tribunal Federal. Ainda assim, alguns eventos movimentam o calendário da cidade a partir dessa temática.

No dia 20, os jardins do Museu Paranaense receberão apresentações de música e dança. Às 10h30 tem maracatu com o Grupo Baque Mulher e às 12h, Congada da Lapa com o Grupo do Congo da Lapa Mestre Miguel Ferreira.

Dia 24, às 19h, abre a exposição “Negros no Paraná”, da fotógrafa Fernanda de Castro Paula. As imagens retratam aspectos da cultura negra no Estado. O encerramento será em forma de um grande show-baile com a banda EletroMuv e convidados, no dia 25 de novembro, a partir das 19h. Todas as atividades têm entrada gratuita.

linha-preta

Outra boa opção é conferir a “Linha Preta: um passeio pela história da população negra de Curitiba”. O itinerário foi montado por pesquisadores do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UFPR, com 13 dos principais pontos históricos da população negra em Curitiba. O trajeto fica quase todo no Centro da cidade e pode ser feito a pé.

Para conferir o itinerário completo da Linha Preta e os endereços acesse fundaçãoculturaldecuriba.com.br.

E para a programação completa dos eventos do Novembro Negro em Curitiba em cultura.gov.br.

*Aluno de Comunicação Organizacional da UTFPR.

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