O seu certo pode não ser para o outro

TEXTO DE OPINIÃO

Simone Adams (*)

Vivemos em um tempo no qual o ser humano enfrenta o outro por crer que suas verdades, ideologias e crenças são melhores. Política, futebol, religião, e outros assuntos são debatidos diariamente em busca de um lado coerente, enquanto há insinuações que o outro está totalmente errado. Me pergunto o motivo de todas estas brigas e ,sinceramente, nada faz sentido.

No último domingo (6), o tema da redação do Enem 2016 foi “Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil”. Nas redes sociais e pelos corredores da universidade, muito se falou da intolerância religiosa e do fanatismo religioso, uns comentavam que no Brasil não há preconceito, e outros que isto acontece diariamente.

Muitas vezes ouvimos quem defende a tese de que o povo brasileiro é desprovido de preconceito e intolerância. Contudo, as ações praticadas e vistas cotidianamente mostram o contrário, deixando claro que o Brasil diz ser laico, mas o brasileiro não. Esta intransigência religiosa cria guerras em nome, supostamente, de qual religião estaria com razão ou mais certa que a outra. Mas, em resumo, nada mais é do que a vaidade de se achar o único certo e correto.

A inflexibilidade na religião é percebida pelo conjunto de atitudes ofensivas a diferentes crenças. Há uso de palavras prejudiciais desmoralizando elementos e símbolos religiosos, queimando bandeiras, imagens, roupas típicas e atacando símbolos. Em casos mais extremos há perseguições que visam o extermínio, com assassinatos, torturas e repressão.

Todas as pessoas e suas respectivas religiões merecem proteção e respeito, por isso o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos estabelece que todos têm direito à liberdade de pensamento, consciência e religião. “E ninguém poderá ser submetido a medidas coercitivas que possam restringir sua liberdade de ter ou de adotar uma religião ou crença de sua escolha”, diz o Artigo 18.  Bem como na Lei nº 12.288/2010 (Estatuto da Igualdade Racial), frisa nos artigos 24 e 26 a livre prática de cultos, a celebração de reuniões relacionadas à religiosidade e a fundação e manutenção, por iniciativa privada, de lugares reservados para tais fins. A Lei coíbe a utilização dos meios de comunicação social para a difusão de proposições, imagens ou abordagens que exponham pessoa ou grupo ao ódio ou ao desprezo.

O problema é aceitar o conjunto de ideologias e crenças dos outros. É deixar de lado o que cada um acha incontestável e tentar ver por olhos alheios. Este leque de situações-problemas gera tumulto na sociedade. Dom Francisco de Aquino Corrêa, bispo brasileiro que liderou a Arquidiocese de Cuiabá de 1921 a 1956, defendia que “nada mais anticristão do que a intolerância de pessoas, e isto gera a intolerância de palavras, compreendendo-se nesta expressão toda a intolerância no modo de expor ou defender a doutrina”.

E me pergunto: Por que é tão difícil considerar que o outro pensa diferente? Que o outro também pode ter uma ideologia distinta?  Em vez de religião ser sinônimo de superioridade, por que ela não pode ser no sentido literal? Religião vem do latim “religare”, tem o significado de religação e união. Em vez de desunir, por que a religião não pode religar toda a população?     Nelson Mandela falava que ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender; e, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar. Então, por que em vez da sua avó católica reclamar do seu marido evangélico, ela não aceita? Por que religião deve ser motivo de separação?

Por que usar palavras de opressão pelo outro venerar o buda, oferecer flores aos templos e velas para orixá? Por que tantos desamores para os cânticos em outras línguas, os sacrifícios do candomblé, a reza para o santo católico? Por que o Islamismo é considerado loucura pelo Cristianismo? Por que o hinduísmo não é amigo do espiritismo? Por que tem no Google “as dez regiões mais estranhas”? Desde quando crer em algo é coisa anormal?

Simplesmente não é preciso achar correto a crença do próximo, mas sim, deve-se aprender a tolerar. Tolerância vem do latim “tolerare” que significa “suportar”, ou seja, aceitar o outro. Afinal, somos bilhões de pessoas no mundo e qual a chance de todas terem a mesma crença?

(*) Acadêmica de Comunicação Organizacional – UTFPR

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