20 anos de tempo perdido

TEXTO OPINATIVO

Leonardo Sousa (*)

O mês de outubro é uma data importante, sobretudo para os roqueiros de plantão, pois marca os 20 anos da morte de um dos maiores cantores brasileiros, Renato Manfredini Junior, ou somente “Renato Russo”, morto em decorrência dos problemas da AIDS, em 11 de outubro de 1996.

Renato e a Legião Urbana (com Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá) ao longo de sua carreira criaram uma legião de fãs, influenciando gerações que até hoje escutam suas canções, que continuam atuais face à situação do Brasil. Letras como “Que país este? ” composta em 1978, relatam bem o leque de problemas ainda existentes; “1965 ou duas tribos” do disco As quatro estações, que trata sobretudo das vítimas da ditadura; “Perfeição”, que relata imperfeições do Brasil daquela época, mas que ainda são problemas de hoje. São inúmeras músicas que mostram quão mal estamos ainda, apesar de algumas melhoras recentes.

Renato era voraz em seus cantos e na atuação como porta-voz da juventude que passava por um momento de crise, marcado pela saída da ditadura, o impeachment de Fernando Collor, inflação alta, confisco da poupança. Todos esses problemas reverberavam músicas de protesto, no “vozeirão” de Russo. Com influências principalmente do rock inglês do final dos anos 70, do punk dos Ramones até o pós-punk do Joy Division, afora Beatles, Rolling Stones, e Led Zeppelin – tudo isso misturado com sua bela poesia – levavam sua plateia ao delírio.

Dos discos que tenho, gosto mais do  A tempestade ou O livro dos dias, de 1996. Apesar de não ser o mais comercial, tem reflexões, sobre a vida que são fascinantes e que relatam um Renato já desanimado, sabendo do que viria acontecer, mas com alguns pequenos versos de esperança como no trecho de Via-Láctea.

” Quando tudo está perdido / Sempre existe um caminho

Quando tudo está perdido / Sempre existe uma luz”

E nos versos de “Esperando por Mim”.

“E o que disserem /  meu pai sempre esteve esperando por mim

E o que disserem / Minha mãe sempre esteve esperando por mim

E o que disserem / Meus verdadeiros amigos sempre esperaram por mim

E o que disserem / Agora meu filho espera por mim

Estamos vivendo /  E o que disserem os nossos dias serão para sempre.”

Hoje, vejo que falta um “Renato” para nossa geração, para contestar, liderar, discutir coisas que ele antes fazia, e que hoje não tem. Alguém que apareça e possa confiar, mostrar seu posicionamento e o sentimento dos jovens quanto aos assuntos candentes da atualidade. É certo que ele não era um exemplo a ser seguido em questão de bebidas ou drogas, porém, seus ideais eram avassaladores. Em uma sociedade ainda com resquícios da ditadura, suas letras incentivavam os jovens a lutar pela liberdade, algo que não era bem visto entre os anos do regime militar.

Apesar de ele ter morrido ainda quando eu era apenas uma criança, e não ter presenciado nenhum show, nem acompanhado sua rotina, nem nada, vejo que é um dos artistas com o qual mais me identifico e tenho certeza que a juventude atualmente se identifica, muito também pela falta de opções na atualidade, quando se tem um apelo muito mais comercial do que para levantar qualquer bandeira como ele fazia na época.

(*) Estudante de Comunicação Organizacional da UTFPR

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