“Até que pontos enxergamos?” provoca debates na UTFPR

Simone Adams (*)

Hoje (22) aconteceu o evento Até que pontos enxergamos? com início às 8h no Auditório da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) que contou com mesas de debates e exposição fotográficas. O evento surgiu a partir do Projeto Fim de Linha, desenvolvido pelos acadêmicos do segundo período de Comunicação Organizacional da UTFPR como resultado das matérias de Projeto 2 e Linguagem Visual I.

A primeira mesa de debate, intitulada “Até que ponto enxergamos?”, foi mediada pela professora Maurini Souza. Esta discussão levou o nome do evento pois teve objetivo de aproximar as áreas periféricas de Curitiba da realidade encontrada no centro da cidade. Foram expostos comportamentos, dados socioeconômicos, experiências vividas, observações em áreas periféricas da cidade de forma a aproximar a realidade.

A mesa teve início com a Sandra Eliza Taborda Bianchi, graduada em Letras Português  e professora de uma escola do Sítio Cercado. Ela explicou que tem dificuldades na qualidade de ensino pelo fato da quantidade de estudantes: “A escola do centro é melhor, não porque tem mais qualidade, mas sim porque tem menos alunos”.   Todo final de ano, continuou a professora, seu colégio recebe a determinação de abrigar um maior número de alunos porque novos projetos habitacionais ampliam a população naquela região da cidade, “mas não conseguimos mais dar conta nem dos alunos que possuímos”. E por isto, os professores têm dificuldade em incentivar os alunos a continuarem estudando, afinal o pensamento deles é baseando em “eu nunca vou cursar medicina, eu nunca vou entrar em um ensino superior”. Apesar disso, Sandra Eliza garante que a batalha pela esperança é uma constante e que muitas conquistas podem ser apontadas de estudantes das áreas periféricas.

A professora do curso de Arquitetura da UTFPR, Simone Polli, com 18 anos de experiência com trabalhos técnicos na área de planejamento urbano e regional, falou a seguir. Sua intervenção teve ênfase nos seguintes temas: habitação, paisagismo, conflitos, meio ambiente, urbanismo e planejamento urbano. Ela contextualizou a economia política da urbanização, produção social do espaço,  desigualdades  no modelo de eclosão territorial das cidades, e citou que “favela não é exceção, é regra na sociedade”.

evento-simone-polliProfessora Simone Polli, participante da primeira mesa. Foto: Letícia Cordeiro

Marjory Rocha estudante de artes e produtora independente voltada para arte urbana, uma artista periférica, integrou a mesa para mostrar a realidade por trás da vivência em sua vida e de todos os golpes que a população brasileira está acostumada a passar “O Brasil sofre golpes desde 1500”. A população brasileira ainda possui  preconceito com as pessoas das periferias: “Se não fossem racistas não seria preciso brigar para ter o lugar que vocês (brancos) já têm”. Ela demonstrou algumas lutas que são necessárias para (tentar) melhorar a situação. “Enquanto uns pedem para baixar o valor de iPhone, outros gritam por seus direitos básicos; enquanto uns pedem para aumentar as vagas do estacionamento, outros clamam por direitos de moradia”. Marjory questionou a respeito de  “qual o papel de vocês na sociedade? E o que uma mulher preta não pode realizar?”, entre diversos outro tópicos de extrema importância

O estudante de Comunicação Organizacional, Matheus Bueno, auxiliar do evento, pontuou o quão importante é ter estes debates na universidade.  “A universidade é plural, com culturas diferentes, feita de pessoas, cores e raças. A luta da militância no povo negro não é vitimismo e sim um alerta mostrando que eles estão ali também, e que devemos enxergar os menos favorecidos”, disse.

Violeta Caldeira, doutoranda em Sociologia Política, professora da Unicuritiba e outra integrante da mesa, explicou como se constrói o estereótipo na sociedade. “Dizem se você nasce na periferia você tem mais chance de ser criminoso, mas se você nasce na classe média você tem grande chance de ser um sonegador. Ambas as práticas são criminosas, mas não se comenta isso”. Mostrou como a classe média é privilegiada pelo ensino que possui, e como esta fala influencia nas pessoas: “Afinal, vocês são privilegiados, vocês têm educação de qualidade; eu demorei para entender que isto inseria o preconceito e com isto as pessoas da classe média se sentirem superiores”.

Luana Xavier, mestre em cooperação internacional e desenvolvimento urbano, advogada da Ong Terra de Direitos falou a seguir mostrando que as fotos do google quando se busca a palavra periferia são emblemáticas. Da mesma forma, são emblemáticas as imagens de Curitiba, que aparece sempre identificada com seus cartões postais como o Jardim Botânico, embora a cidade seja muito mais do que isso. Citou como neste momento de campanha eleitoral a periferia é visitada: “Isto aparenta que só nesta época as pessoas da periferia existem”.

evento-luana-xavierAdvogada Luana Xavier Coelho, na ong Terra de Direitos. Foto: Letícia Cordeiro

Andrey J. de Aguiar, estudante de Comunicação Organizacional e proprietário Wolke Marketing Estratégico, foi patrocinador do evento e ressaltou a relevância da participação.  “A  importância de patrocinar qualquer evento acadêmico que venha discutir quaisquer tipos de assuntos relevantes, principalmente os não pautados no cotidiano da população curitibana,  devia ter maior adesão por outras empresas”.

O dançarino Silvestrer Neto, realizou uma fala e, após, uma apresentação street dance. Deixou claro que tinha duas opções para escolher em sua vida: entrar para o crime ou fazer arte, e decidiu fazer arte. Porém, nem sempre as pessoas têm oportunidades semelhantes.

dancaApresentação de Silvestrer Neto. Foto: Simone Adams

Transformando Realidades

A segunda mesa, Transformando Realidades, contou com a mediação do professor Wellington Lisboa, e foi dedicada à exposição de experiências e práticas exitosas desenvolvidas nas regiões periféricas de Curitiba e que tiveram considerável papel na transformação de realidades dentro dessas regiões.  A assessora da equipe de universidades do Teto – Pr, Bruna Falavinha, explicou o que é a ong e como a mesma funciona, focando na importância de “buscamos uma sociedade sem pobreza”.

unda mesaevento-mesa-2Bruna Falavinha, da ong Teto, ao lado da artista popular Marjory Rocha e de Paula Tiemi, também do Teto. Foto: Letícia Cordeiro 

A jornalista e técnica em produção visual, Priscila Pacheco mostrou o Projeto Janela Periférica voltado para educação e produção audiovisual de crianças. “ A periferia é mostrada na TV como algo pejorativo, como muita violência, e por isto o Projeto tem como objetivo mostrar a realidade da periferia pelo olhar das crianças”.

Formada em serviços sociais e trabalhando com educação popular, Luzia Nunes falou do Projeto das Padarias Comunitárias, que “fomenta nas periferias a geração de renda e a construção de novas  relações de trabalho”.

 

O evento contou com a participação de mais de 150 inscritos e foi gratuito. Mais informações no Facebook Até que Pontos Enxergamos? (goo.gl/Q3Jj0M)

(*) Estudante de Comunicação Organizacional

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