Não tão afro

TEXTO DE OPINIÃO

Maria Cândida (*)

São duas da manhã de sexta-feira e eu acabo de chegar em casa do terreiro. A gira de Exus e Pombagiras foi pesada, como esperado, e foi chamada a linha dos Baianos para limpar o terreiro. Eis que me lembro de um ocorrido há algumas semanas que me deixou um tanto desconfortável: um colega falando debochadamente sobre a minha religião para um grupo de pessoas. Contava sobre uma vez que foi ao terreiro e ficou abismado porque a Mãe de Santo era branca. Não foi a primeira vez que ouvi este mesmo colega falando sobre a Umbanda, mas todas as vezes eu relevei porque parecia brincadeira inocente: o povo tem mania de brincar com algumas das expressões do nosso vocabulário.

“Vou cantar pra subir” é comum de se ouvir no Rio de Janeiro quando alguém está indo embora. “Baixou o santo” é outra expressão que é repetida frequentemente por quem nada entende sobre a religião. Ainda há quem fale em “bater a cabeça” sem ao menos saber o significado deste gesto para nós, umbandistas. Sem falar naqueles que cantam o famoso ponto do Exu Caveirinha (“Exu Caveirinha, venha trabalhar/ Levanta dessa tumba, faz pedra rolar”), sem ao menos se perguntar o que é um Exu e o que o ponto cantado significa.

O que incomoda, na verdade, é a falta de informação. Não vejo problema em fazer piada com a minha religião, até porque todos nós fazemos, mas acho necessário que haja ao menos um mínimo entendimento dela para que se possa falar com propriedade. Essa ideia de que a Umbanda é africana e só negros podem participar é completamente equivocada e as pessoas nem procuram saber um pouco mais sobre a doutrina e suas origens para falar.

Estamos tratando de uma religião genuinamente brasileira, que mistura rituais africanos, indígenas, católicos e espíritas. O que é herdado de cada uma dessas culturas e doutrinas varia de terreiro para terreiro, mas a essência é sempre essa mistura. Há terreiros que têm a parte africana mais forte, outros que têm o lado espírita mais incorporado, sem dar tanta importância ao culto aos Orixás, por exemplo. A religião tem diversas linhas de trabalhos, todas seguindo arquétipos brasileiros: os Pretos Velhos, espíritos dos antigos escravos africanos; os Caboclos, espíritos dos índios; os Boiadeiros, espíritos dos donos de terras no interior do Rio Grande do Sul; os Exus, espíritos dos portugueses e outros europeus que colonizaram o nosso país, e a lista vai longe.

Não pretendo, com o que escrevi, esclarecer tudo sobre a religião, até porque muitas coisas se aprende na prática e com a evolução dentro de um terreiro. Até Mães e Pais de Santo não sabem tudo. Entretanto, espero nunca mais ter que ouvir de alguém que não posso ser umbandista por ser branca, ou gente reclamando que “não têm negros” em tal terreiro. Até porque, como já diz o ponto cantado de Baiano: “Já me falaram que a Umbanda é brasileira, que essa gira é uma beleza, eu também quero girar”.

* Estudante de Comunicação Organizacional da UTFPR.

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