O inverno não está chegando, chegou

TEXTO DE OPINIÃO

Arthur Vieira (*)

Nesta segunda-feira (20), às 19h34, pelo horário de Brasília, começou oficialmente o solstício de inverno no Hemisfério Sul. Após esse momento geográfico, significa que o inverno está chegando. Na verdade, chegou. Momento muito desejado por alguns e indesejado por outros. Começam assim as postagens nas redes sociais a favor ou contra o frio, apontando pontos positivos ou negativos sobre a estação das geadas.

Conflito comum em nossas vidas ansiosas por ver gostos próprios predominarem; diria que essa discussão causa baixo nível de preocupação, sendo muitas vezes divertida, diferente de outros desentendimentos que podem ter graves consequências. Somos uma diversidade gigante de personalidades, é óbvio que preferências irão colidir. Sei lá, aceita. Enfim, esse é outro assunto.

Será tratado aqui o que se tem frequentemente visto nos noticiários, o apontamento de que Curitiba promete temperaturas tão baixas quanto as que vêm sendo atingidas nos últimos 12 anos. Particularmente, por detrás das roupas e cobertores para que eu não me sinta congelando, esse comunicado é no mínimo assustador.

Apesar de já ser conhecida como uma cidade fria – e nem me refiro aquele estereótipo sobre seus conterrâneos – é difícil ficar tranquilo sabendo que essa condição vai ficar mais intensa ainda. Duplamente complicado é saber e ver que muitas pessoas destituídas de oportunidade e largadas ao descaso sofrerão drasticamente, além do imaginado, além do suportável. Caso esteja ao alcance (do interesse) da grande mídia, é provável que abriremos o computador e descobriremos que mais um morador de rua morre por hipotermia.

Vejo também movimentos que buscam reduzir esse tipo de acontecimento e dão certo conforto, como faíscas de esperança. Simpatizo com o projeto “Cabide Solidário” que traz uma lógica simples: se não precisa, doe. Se precisar, pegue. Está nas ruas de Curitiba e basta pendurar algo que vá esquentar quem tem necessidade.

Vi o caso de uma cadela vira-lata que entra em diferentes ônibus no terminal do Capão da Imbuia para escapar do frio da cidade e que agora tem o cuidado dos funcionários e comerciantes locais. Acredito que podemos expandir a consciência para a vida desses animais também.

Mesmo assim, diante de tanta reflexão e provas visíveis de que seres humanos se encontram em circunstâncias amargas, às vezes venço o ego e a vergonha; às vezes sou omisso e me perco em frustração. A vida cobra se o fruto das palavras é atraente, mas o sabor das ações é fajuto.

Entendo que a essência da mudança está em partir de si. Não precisamos esperar que algo nos empurre pra fora da comodidade e mostre o que pode ser percebido no dia a dia. E é daqui, detrás das roupas e cobertas que aquecem meu corpo, que sinto que o pior frio é aquele que congela corajosas atitudes de compaixão.

(*) Estudante de Comunicação Organizacional da UTFPR

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