CONSUMO: Elas vão dominar os estádios

A presença da mulher nos espaços da sociedade tem sido cada vez mais expressiva. Ela se tornou mais importante a partir de meados do século XX, quando passou a se impor em áreas dominadas pelos homens, como os estádios. Mesmo hoje, com toda a discussão sobre igualdade de direitos, o campo de futebol é um local que abriga ainda um público majoritariamente masculino, devido a questões culturais e históricas no país.

As mulheres estão mais presentes não apenas nas arquibancadas, mas gramados, atuando na arbitragem, no jornalismo esportivo e como jogadoras. Em 1991, a FIFA realizou a primeira edição da Copa do Mundo voltada para a modalidade feminina, distribuindo os mesmos prêmios que são destinados à categoria masculina.futebol feminino

Levantamento realizado pelos pesquisadores Andreza Salgueiro, Riklévio Melo e Rodrigo Stefani Correa sobre o comportamento de consumo no futebol brasileiro concluiu que a cultura masculina já não impera tanto. Os pesquisadores defendem que esse resultado se deve à inserção das “torcedoras consumidoras” no mercado.

A maior participação das mulheres se tornou uma grande oportunidade para diversos ramos e segmentos de mercado, cujos responsáveis enxergaram essa mudança de comportamento como um momento propício para fidelização de público e empreendedorismo. Atualmente, 20% dos sócios-torcedores dos grandes clubes de futebol da cidade de Curitiba são do sexo feminino, e essa porcentagem tende a crescer.

Um fator que contribui para o aumento são ações dos clubes que valorizam o torcedor. Recentemente, o Coritiba resolveu homenagear seus “torcedores de alma guerreira”, aqueles que frequentam assiduamente todos os jogos no estádio por um determinado período, faça chuva ou faça sol.

O presente foi um cartão que continha uma carteirinha personalizada possibilitando a ida a todos os jogos no Couto Pereira durante um ano. O que chamou atenção foi que boa parte dos contemplados com o presente foram mulheres, mostrando mais uma vez que a presença feminina nos estádios é mais comum do que se pensa.

O Atlético Paranaense, para comemorar o Dia Internacional da Mulher, levou 30 sócias para conhecer o Centro de Treinamento do Caju. As torcedoras contempladas posaram em uma foto oficial, na versão feminina, para a campanha “Eu te sigo em toda parte”.

Via Facebook, o clube solicitou aos torcedores que escrevessem histórias contando onde já seguiram o “Furacão”. Foram selecionadas as 20 melhores, e as torcedoras que escreveram foram premiadas com a entrada junto com os jogadores no campo, em uma determinada partida. A torcedora com a história mais interessante foi presenteada com um kit rubro-negro.

A atleticana Ana de Oliveira Bares confirma que ações pensadas especialmente para valorizar os torcedores aproximam ainda mais o público dos times, fazendo com que se sintam parte da equipe. “Vou até o jogo por paixão mesmo, porque quero estar lá torcendo por meu time do coração, mas é claro que tudo isso se torna muito mais gostoso quando se percebe que há uma valorização”.

Os clubes também enxergam uma oportunidade na criação de produtos exclusivos para as torcedoras. São diversas as opções nas lojas oficiais, tais como camisetas licenciadas, jaquetas, capas de celular, jogos de descanso de copo e até mesmo protetores labiais estampando o escudo do time.

Algumas torcedoras não vão aos estádios. Mesmo assim, acompanham a campanha de seus times nos campeonatos. Este é o caso da gestora de recursos humanos Kauana Silva, que cresceu ouvindo seu pai e seus irmãos falando sobre as partidas. Apesar disso, sempre houve receio da família em incluí-la nas conversas. “Minha família tem torcedores de todos os times. Lembro que meu pai, meus irmãos e tios sempre opinavam para qual time eu iria torcer, mas não gostavam que eu ficasse muito interessada pelo esporte, pelos jogos, etc. Consideravam os estádios perigosos”.

 

Paixão além do estádio

Quando estava para escolher a profissão, Ana Elias pensou principalmente em sua paixão pelo futebol e não teve dúvidas em optar por educação física. O que a impulsionou foi principalmente o ambiente familiar, que reunia, de maneira democrática, torcedores de vários times.

“Toda essa aproximação com o esporte fez com que eu sentisse vontade de jogar futebol e estar conectada com tempo todo. Fui a escolinhas do ramo, mas não existiam times femininos. De tanta vontade, uma escola de futsal me deixou jogar no time dos meninos”, conta.

Segundo Ana, o primeiro professor de futebol foi fundamental, pois deu oportunidade para que ela desenvolvesse seu potencial como jogadora. “Ele pedia para os meninos jogarem para mim, e com o tempo deixei de ser a menina do jogo e passei a ser só mais uma jogadora”.

Ana conta que no ano em que entrou para a escolinha e no seguinte mais meninas se matricularam, formando o primeiro time feminino de futsal. Ela conta que que a disciplina exigida pelo professor e o tratamento igual para os meninos e meninas fez com que ela se espelhasse nele e escolhesse sua profissão.

 

Pesquisa

Verificar o número de mulheres que vão até o estádio e como esse público é percebido, levando em consideração o ponto de vista masculino e o feminino. Este é o objetivo de uma pesquisa realizada por quatro acadêmicos da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). O levantamento foi feito por meio de questionário online envolvendo entrevistados de Curitiba e Região Metropolitana.

Foram abordadas questões como comportamento dentro do estádio, percepção sobre o tratamento recebido pelas mulheres no ambiente, observância ou não de machismo ou assédio. Dentre 135 respostas obtidas, cerca de 43% das pessoas relataram já ter presenciado ou sofrido algum tipo de assédio ou situação desconfortável dentro dos estádios de futebol, durante o momento do jogo.

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