14 de junho: Dia mundial de reforçar o preconceito contra quem quer fazer o bem

TEXTO E OPINIÃO

Leonardo Wollinger (*)

Meu sangue não vale menos que o de ninguém. Bom, isto é o que eu penso, a bandeira que eu carrego e o valor que eu reafirmo todos os dias quando perguntado por amigos ou familiares se sou doador de sangue. É com um categórico NÃO que começam as indagações, as conclusões precipitadas sobre o quanto eu sou egoísta ou até mesmo aquele tipo de fala “eu espero que você nunca precise disso”. Eu também espero, de verdade. Espero que no 14 de junho, Dia Mundial do Doador de Sangue o mundo se apegue ao que realmente importa: a vontade de fazer o bem.

Você pode ter chegado até esse trecho do texto sem entender nada, mas eu juro que vou deixar bem claro. No Brasil é PROIBIDO que homossexuais doem sangue se tiverem praticado sexo num espaço de um ano entre a doação e o ato. De acordo com o Ministério da Saúde, essa decisão absurda se baseia em “evidências científicas” de que a taxa de prevalência de HIV entre homens que fazem sexo com homens é de 10,5%; entre usuários de drogas, de 5,9%; e entre mulheres profissionais do sexo, de 4,9%.

Enquanto se mobiliza a grande mídia para relembrar a importância desse dia e a nobreza de um ato como esse, eu preciso me lembrar a cada inserção televisionada de que eu não sou bem recebido em um hemocentro simplesmente por ser quem sou. Um sangue que é coletado, passa por uma bateria de exames e então é disponibilizado para doação. Mas não o meu, o MEU não serve.

Se você, heterossexual que está lendo esse texto, sair de um motel agora e se dirigir a um centro de doação, você será recebido com todas as honras da casa, vai fazer sua doação e sairá do hemocentro com a consciência tranquila e a sensação de dever cumprido. Eu não. Eu preciso de uma quarentena para afirmar que estou “limpo”. Antes fosse uma quarentena. É um ano. MEU sangue não serve.

Nascido na década de 90, sou refém de uma determinação que existe em muitos países e foi criada nos anos 80, no auge da epidemia de Aids. Muito se avançou de lá pra cá, mas o pensamento do ser humano continua arcaico, nocivo e preconceituoso.

Eu poderia mentir na hora da entrevista, mas sabe o quanto dói ter que se esconder para fazer o bem? Eu jamais deixaria de ser quem sou. Eu nunca voltaria para a escuridão de um armário enquanto eu sei que é a cegueira da nossa sociedade que é prejudicial. Meu sangue não serve, seu preconceito não serve, nossa sociedade não serve. Evoluir não dói, sair da escuridão também não.

(*) Estudante de Comunicação Organizacional da UTFPR

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