Pra que toda essa ladainha de feminismo?

TEXTO DE OPINIÃO

Amanda Sousa e Mariele Figueiro(*)

No final de maio, o número 30 se tornou pesado em nossas mentes pelo caso de estupro do Rio de Janeiro. Apesar de ninguém saber ao certo quantos estavam envolvidos, pois a jovem estava desacordada, a barbárie foi comprovada pela atrocidade que os autores fizeram questão de gravar.

É difícil entender como o ser humano é capaz de ir tão longe. E pior é quando incansavelmente vemos a necessidade de alguns em justificar o injustificável e de culpar o inculpável.

“Que roupa ela usava? Ela estava acompanhada de algum conhecido? Mas ela ia muito para essas festas? Mas tem certeza que ela não queria?”

É chocante saber o quanto essas perguntas com tom de justificativa se tornam comum quando o assunto é estupro.

Inclusive, logo após a denúncia do caso, foi muito questionado o passado da vítima, deslegitimando o estupro pelos áudios vazados. Mesmo que estivesse nua, sozinha, indo a festa que sempre vai, percebendo que o querer do início se transformou em um “não quero”, ainda assim, nada dá o direito de uma pessoa violar o corpo da outra. E muita gente já entendeu o recado, então, pra que toda essa ladainha de feminismo?

Na mesma semana em que o caso da jovem estuprada ficou nacionalmente conhecido, a atriz Amber Heard denunciou o ex-marido e ator Johnny Depp de violência doméstica. Novamente a culpa foi revertida sobre a vítima quando foi divulgada uma foto de seu rosto ferido, supostamente fruto do impacto de celular que Depp jogou sobre ela.

“Aproveitadora! Quer dinheiro! O Depp não faria algo assim! Ele é um ator maravilhoso e participa de campanhas contra a violência doméstica! É mentira dela!”.

Outra vítima deslegitimada. Mas ainda assim, pra que toda essa ladainha de feminismo?

Ipea 2014: 58% dos entrevistados acreditam que o estupro está ligado ao comportamento da mulher; se ela se comportar, acontecem menos estupros; 63% concordam total ou parcialmente que casos de violência devem ser debatidos apenas entre a família; 26% também acreditam total ou parcialmente que mulheres com roupas curtas merecem ser atacadas.

Esses dados chocam pois é o reflexo da cultura do estupro. A cultura que começa nos atos quase imperceptíveis: aquele comercial de cerveja que coloca mulheres seminuas para chamar a atenção, aquele compartilhamento do nude da moça que um conhecido de um amigo colocou no grupo, aquela piada machista na conversa de bar, na classificação entre “mulher pra pegar e mulher pra casar”, na briga de marido e mulher que ninguém quer se meter, entre vários outros pequenos detalhes, que só alimentam a misoginia, matando friamente mulheres todos os dias, de diversos jeitos.

É pra isso que existe essa ladainha de feminismo.

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