José Padilha deve estar contente

TEXTO DE OPINIÃO

Samuel Ramos Gonzaga (*)

Recentemente, José Padilha, diretor de “Tropa de Elite” e “Robocop”, anunciou que irá dirigir uma série sobre a Operação Lava Jato, em parceria com a empresa de streaming Netflix. A produção deverá ir ao ar em 2017 e, segundo Padilha, “é fundamental que a série seja produzida com imparcialidade”.

Nesta terça-feira (31/05), Padilha deve ter acordado contente, pois um capítulo importante da trama começa a ser revelado. Segundo a colunista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, a Odebrecht assinou na quarta-feira passada (25/05) um documento que formaliza a delação premiada da empresa. Esse fato promete agitar os próximos meses da investigação, pois a empreiteira deve revelar e detalhar quais campanhas políticas receberam verbas ilícitas. Alguns nomes conhecidos, como Aécio Neves, Dilma Rousseff e o presidente em exercício, Michel Temer, podem aparecer nessa delação, o que conturbará ainda mais o atual cenário político brasileiro. Como afirmou o ex-presidente José Sarney a Sérgio Machado, ex-presidente da TransPetro, em áudio vazado, uma eventual delação da Odebrecht seria “uma metralhadora de ponto 100”.

Armas de grosso calibre estão presentes nas produções de Padilha, como “Narcos”, também lançada pela Netflix. O diretor está acostumado a reproduzir cenários violentos, com tiros e sangue escorrendo. Dessa vez, na futura série sobre a Lava Jato, Padilha trabalhará com outro tipo de operação policial, uma que ainda não disparou tiros, mas que vêm sepultando biografias e reputações políticas e empresariais, que há muito tempo estão sob a suspeita do povo brasileiro.

Para a série de Padilha, a delação da Odebrecht significa um bom capítulo, daqueles que a gente revê umas cinco vezes e assiste comendo pipoca. E para o Brasil, no geral, o que isso representa? Podemos dizer que confirma o que todo filósofo de boteco, no alto de sua sabedoria popular, brada a plenos pulmões: “São tudo safado!”. E embora essa conclusão seja frágil, eu, grudado ao meu apego popular de quem não nasceu cercado de cientistas políticos, filósofos e artistas, concordo e dou razão a esse companheiro que já viveu as profundas mudanças desse país. Pelo jeito, a delação da Odebrecht vai confirmar essa afirmação simplista.

Para o futuro do país, o ex-ministro Romero Jucá, em outro áudio vazado, já definiu: “eles querem formar uma nova casta, pura”. Uma nova raça pura, sem falcatruas? Que assim seja, diria meu eu sonhador. Porém, meu eu crítico, faz ressalvas: Seria essa casta, vinda do poder judiciário, tão pura assim? Sabendo que nesse país, o que mais acontece são trâmites “legais” operados por juízes que punem inocentes e absolvem culpados, não confio nessa nova “raça” que ascende no cenário brasileiro.

A delação da Odebrecht promete revelar nomes conhecidos, sobre os quais já pairam dúvidas em relação à idoneidade. A partir da profundidade das investigações, estes poderão ser destituídos, se provadas as práticas ilícitas. E os novos que virão, serão protagonistas com atitudes e caráteres diferentes do que já foi apresentado até o momento nessa série de 516 anos chamada “Terra Brasilis”? Bom, isso nem eu e nem Padilha podemos responder – nem eu nesse texto, nem ele na série a ser produzida sobre a Lava Jato. Só nos restam reflexões e indagações quanto ao futuro do país.

Mas de coisa tenho certeza: o filósofo de boteco continuará bradando: “São tudo safado!”. E no fim, ele tem uma boa dose de razão.

(*) Estudante de Comunicação Organizacional da UTFPR

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