A Cortina Caiu

TEXTO DE OPINIÃO

Luciano De Marchi Mello (*)

O texto assinado por Rubens Valente e publicado pelo jornal Folha de S. Paulo, na última segunda-feira (23), trouxe fatos novos para a atual conjuntura. Transcrições de uma conversa telefônica entre Romero Jucá (PMDB-RR), ministro interino do Planejamento, e Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro (subsidiária da Petrobras) sugerem que o impeachment da presidente Dilma Rousseff teria como foco barrar as investigações da operação Lava Jato, antes que ela atingisse a cúpula tucana e peemedebista.

Em um dos pontos altos da conversa, fica clara a preocupação de que muitos investigados, entre eles grandes empresários da construção, aceitem participar da delação premiada após a decisão do Supremo (de fevereiro deste ano) de efetivar as prisões a partir da segunda instância. Veja o recorte feito pela “Folha”:

MACHADO: Acontece o seguinte, objetivamente falando, com o negócio que o Supremo fez, vai todo mundo delatar.

JUCÁ: Exatamente, e vai sobrar muito. O Marcelo e a Odebrecht vão fazer.

MACHADO: Odebrecht vai fazer.

JUCÁ: Seletiva, mas vai fazer.

MACHADO: Queiroz não sei se vai fazer ou não. A Camargo (Corrêa) vai fazer ou não. Eu estou muito preocupado porque acho que… O Janot (procurador-geral da República) está a fim de pegar vocês. E acha que eu sou o caminho.

Em um segundo momento da conversa, fica clara a arquitetura do impeachment, que passa muito longe de qualquer crime de responsabilidade:

MACHADO: Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel (Temer).

JUCÁ: Só o Renan (Calheiros, presidente do Senado) que está contra porra. Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha. Gente, esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra.

MACHADO: É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional.

JUCÁ: Com o Supremo, com tudo.

MACHADO: Com tudo. Aí parava tudo.

JUCÁ: É, delimitava onde está, pronto.

Até este ponto da conversa, admitamos, não temos nada além de especulações. Apesar da transparente conduta duvidosa, tudo se mantém no campo das ideias, sem nenhuma ação factível. Porém, a conversa não para por aí:

JUCÁ: CONVERSEI ontem com alguns ministros do SUPREMO. Os caras dizem “ó, só tem condições sem ela (Dilma). Enquanto ela estiver ali, a imprensa, os caras querem tirar ela, essa porra não vai parar nunca”. Entendeu? Então… Estou conversando com os GENERAIS, COMANDANTES MILITARES. Está tudo tranquilo, os caras dizem que vão garantir. Estão MONITORANDO O MST, não sei o quê, para não perturbar.

MACHADO: Essa cagada desses procuradores de São Paulo ajudou muito (possível referência ao pedido de prisão e a condução coercitiva do ex-presidente Lula).

JUCÁ: Os caras fizeram para poder inviabilizar ele de ir para um ministério. Agora vira obstrução da Justiça, não está deixando o cara, entendeu? Foi um ato violento…

MACHADO: E burro… Tem que ter uma paz, um…

JUCÁ: Eu acho que tem que ter um PACTO.

As gravações divulgadas na última segunda-feira dão um novo caminho para a narrativa que vem sendo escrita até então. O pseudogoverno de Michel Temer e a grande mídia, de imediato, taxaram Jucá como uma “fruta podre”, que precisa ser retirada do ilibado cesto daqueles que, em suas teses, lutarão contra a corrupção. Porém, por mais desigual que seja essa relação, a narrativa dos acontecimentos permanece em disputa. A história não é escrita apenas pela agilidade jornalística. O tempo será um fator determinante para que consigamos ter a real compreensão do que está acontecendo. Algo me diz que a primeira crise política desta conjuntura de exceção terá desdobramentos exponenciais. Cada vez mais ficarão evidentes as fragilidades de um governo não referendado.

Empossado há 15 dias, Temer nomeou 7 ministros investigados na Lava Jato; formou uma equipe sem mulheres e negros; reduziu (e voltou atrás, pela pressão popular) o Ministério da Cultura, o Ministério das Comunicações e a Controladoria-Geral da União (AGU); extinguiu o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos; reviu a criação e a desapropriação de terras indígenas; revogou a construção de 11.250 unidades habitacionais e suspendeu novas contratações do “Minha Casa, Minha Vida”; anunciou o possível fim da “Farmácia Popular”; suspendeu novas vagas do Pronatec e Fies; escolheu André Moura como líder do governo na Câmara (que responde a 6 processos criminais no STF, incluindo uma tentativa de homicídio); anunciou a abertura da exploração do pré-sal (retirando a obrigatoriedade do controle da Petrobras, abrindo para o capital estrangeiro); prepara um projeto de flexibilização das leis trabalhistas, rasgando a CLT, por meio de novas regras de terceirização e (ufa!) defendeu acabar com o investimento orçamentário mínimo em saúde e educação.

E ainda temos, no mínimo, mais 75 dias…

(*) Estudante de Comunicação Organizacional da UTFPR

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