As crises que não são políticas

TEXTO DE OPINIÃO
Maria Cândida (*)

Não é nenhuma novidade que o psicológico dos estudantes do ensino superior fica sobrecarregado com certa frequência. Até mesmo aqueles alunos que nunca tiveram nenhum distúrbio de ordem psicológica podem se encontrar acometidos pelo desânimo trazido pela rotina de um estudante do nível superior. Será que a nossa universidade está preparada para lidar com isso?

No câmpus centro, ao lado das rampas do bloco E, encontra-se uma escada que leva ao Núcleo de Acompanhamento Psicopedagógico e Assistência Estudantil (Nuape), que se propõe a auxiliar os alunos que se encontram com problemas relacionados à vida acadêmica, e até mesmo com pensamentos de desistência do curso. Ainda assim, é difícil dizer o quanto este assunto é levado a sério no ambiente universitário, uma vez que são poucos os professores e servidores que sabem lidar com estudantes nessas condições.

O empenho que a vida universitária exige, com todas as atividades extracurriculares, estágios, associações atléticas, semanas acadêmicas, entre outros, pode ser demasiado para aqueles universitários que se encontram com a psique desfavorecida por conta de um distúrbio ou das simples adversidades da vida. O fato é que problemas como depressão e ansiedade são verdadeiras doenças que precisam ser tratadas e podem influenciar o desempenho de um aluno tanto quanto qualquer outro distúrbio de natureza fisiológica. Ainda assim, não parece existir um reconhecimento disso por parte da universidade: no próprio ato da inscrição, há um formulário que pede informações sobre limitações, sendo que nenhuma tem origem psicológica.

Além da necessidade de reconhecimento, é preciso ressaltar que o sistema avaliativo tem relação com a pressão sofrida pelos estudantes, uma vez que consiste de diversos trabalhos pesados e as chamadas semanas de provas. Em geral, nas primeiras semanas de aula do semestre os professores apresentam seus planos de ensino e anunciam um trabalho final da disciplina, um projeto grande que precisa ser trabalhado durante todo o semestre.

O problema surge quando praticamente todas as matérias pedem algo tão extenso e que demanda tamanha atenção, atribuindo tudo para datas muito próximas. Durante o semestre, os professores discutem as partes teóricas e buscam orientar os alunos em seus projetos, deixando muitos com uma certa sensação de impotência, uma vez que não conseguem colocar em prática aquilo que ainda está sendo discutido teoricamente.

Quem sabe a existência de um núcleo que visa trabalhar estes aspectos não seja o suficiente em um ambiente onde a rotina é maçante e a sensação é de que não há cuidados especiais com aqueles que possuem limitações psicológicas, que poderiam ir desde a prorrogação de prazos a uma tolerância maior em relação às faltas daqueles que se encontram em uma crise, sem forças para levantar e viver mais um dia por conta de seu distúrbio. Por fim, é essencial que se encare as crises psicológicas, no mínimo, com a seriedade que se encara uma crise asmática.

(*) Estudante de Comunicação Organizacional da UTFPR

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