Mulheres antes de mães

TEXTO DE OPINIÃO

Bruna Carvalho (*)

O dia das mães está chegando e, como sempre, ano após ano, vêm aquelas propagandas maravilhosas, dizendo as belezas de ser mãe, as campanhas contando histórias de mulheres que só têm a agradecer o privilégio que Deus (e fatores biológicos)  lhes deram. Isso é lindo. Mas a trilha que essas supermães precisam seguir não é um conto de fadas, e muito menos uma utopia como passada pela sociedade. Agora, mais do que nunca, precisamos conversar sobre o que é ser mãe.

Primeiramente, a história que a maternidade é a coisa mais linda do mundo, e principalmente (e tristemente) a única função e objetivo das mulheres é um pequeno engano dos últimos séculos. Há pouco tempo, fui a uma palestra muito interessante sobre os papéis das mulheres na sociedade e, entre um assunto e outro veio o da maternidade. Eis que me deparo com uma notícia muito surpreendente: nem sempre a maternidade foi esse mar de rosas. Por volta de 1800, na Europa, o ato de engravidar era apenas para gerar um herdeiro. A mãe, após parir a criança, entregava-a para uma família do interior que a criaria até certa idade para ser apresentada à sociedade, já que a criação e, principalmente, a amamentação pela mãe era visto com maus olhos.

A mesma sociedade que ditou uma regra em 1800, dita e se acha capaz de julgar os ideais nos dias de hoje. A mais atual das polêmicas envolvendo essa questão foi o “O desafio da maternidade”. Na época, o Facebook foi invadido por mães que se orgulhavam de ter seus filhos acima de tudo, como se eles fossem a coisa mais importante que elas já fizeram na vida e não existisse nenhum empecilho nessa caminhada. Até que uma mãe se levantou contra essa campanha e mostrou a verdadeira face da história. Julgada, xingada e principalmente diagnosticada (por milhares de médicos com diploma de hipócritas) com “depressão pós-parto”, Juliana Reis foi tema de diversas matérias com manchetes “Mãe de primeira viagem não aceita o “desafio” e desabafa na rede social”, “Mulher é bloqueada do Facebook após rejeitar “desafio da maternidade”” e o mais crítico: “Em resposta ao ‘Desafio da Maternidade’, feministas desconstroem a imagem idealizada do que é ser mãe”.

O que Juliana trouxe à tona, e depois muitas outras também a apoiaram, foi que sim, ama seu filho, mas não, não ama ser mãe. Isso não é um crime, não é depressão pós-parto, como virou o tema central de muitas matérias que envolviam o assunto, E, principalmente, é aceitável se sentir assim. É uma escolha da mulher, que não precisa ser enquadrada como “feminista” para achar que não é algo bom passar por esse processo, e assim também, como é uma escolha decidir ou não se quer passar por essa etapa que tantos julgam necessária na vida de uma mulher. Eu, como muitas outras, não queremos ter filhos, ou passar pela gestação, ou então cuidar da criança tendo que se esquecer de nós mesmas, já que não podemos mais nos colocar em primeiro lugar. Mas isso não nos torna menos mulheres. Nos torna mulheres, independente e principalmente, fora do enquadramento imposto pela sociedade.

(*) Estudante de Comunicação Organizacional da UTFPR

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