Estamos midiatizando nossas vidas 

TEXTO DE OPINIÃO

Matheus Pronunciato (*)

O mundo globalizado mudou a maneira de vermos e vivermos todos os aspectos. Na verdade, vem fazendo isso há muito tempo. Vale lembrar que o início do processo globalização deu-se com as grandes navegações do século XV, e de lá para cá as fronteiras entre as populações terrestres só vem diminuindo.

Atualmente passamos boa parte do tempo conectados uns aos outros graças à tecnologia. Isso não é uma escolha, é quase uma necessidade. O que seria de um aluno sem acesso aos conteúdos compartilhados pelos colegas e professores? O que seria daquela pessoa que foi morar longe da família? Existem alternativas, mas elas são arcaicas para o homem moderno. Acostumamo-nos com o instantâneo, com a simulação da presença, e precisamos de tudo isso porque estamos inseridos nesse mundo. Essas novas maneiras de se comunicar afetaram nossas relações. Relacionamo-nos por meio dessas novas mídias, e isso nos torna uma sociedade midiatizada.

Entretanto, o momento em que começamos a usar internet apenas para nos relacionar ficou para trás. Agora nós usamos esse meio para muito mais. Temos conteúdo do nosso gosto a poucos cliques de alcance, temos acesso a pessoas distantes, oportunidades de discussões, de nos expressar sobre qualquer assunto, e, principalmente, de termos a identidade que quisermos. Agora somos todos dois. O eu comum, do dia a dia, que acorda cedo para ir trabalhar ou estudar, e a nossa representação virtual.

Podemos ser quem quisermos. Construímo-nos novamente para mostrar ao mundo. E vamos muito além de ter um perfil no Facebook para simular personalidades ou compartilhar material que nos identificamos, que queremos expor. Muito além também de uma conta no Twitter para “reclamar da vida” ou ganhar visibilidade. Isso porque agora usamos mídias para realizar tarefas que antes não podíamos. Hoje, por exemplo, você pode pegar o seu celular e mostrar para os seus seguidores que está em uma festa bacana, mesmo que esse momento seja um recorte.

Antes disso, você fez outras diversas coisas em seu dia, mas selecionou apenas uma parte dele e é ele que dará impressões para quem te assiste. Mostramos para os outros de forma virtual o que fazemos, e mostramos o que queremos, passamos as impressões que queremos ou esperamos que tenham de nós. As marcas também fazem isso, certo? Além de estarmos inseridos na mídia, de usá-la em nossas relações, estamos também midiatizando nossas ações, fazendo coisas única e exclusivamente porque precisamos midiatizá-las. Estamos organizando nossos atos em função da mídia, porque queremos ser alguém que não somos ou por pura necessidade de aparecer.

E em determinado momento, esses dois “eu” que temos estão se tornando coisas diferentes. Mas espera aí, o segundo não era apenas uma representação? Ora, uma representação é uma projeção, não carrega em si o real significado do ser. Sim, claro. Mas a sociedade aceita nossas representações virtuais como verdadeiras. É fácil julgar alguém pelo conteúdo que ela tem no perfil. Lá, inconscientemente, deixamos transparecer quem somos ou quem queremos que as pessoas pensem que somos. Mas nem sempre seremos entendidos como somos/queremos. A partir desse momento, existirão ao menos três versões de nós: o nosso “eu” real, nossa representação e a interpretação sobre a segunda. Por fim, expomos nossas vidas para que o mundo nos veja, mas apenas nós mesmos sabemos quem somos.

(*) Estudante de comunicação Organizacional da UTFPR

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