Porque o Uber veio pra ficar

Bárbara Brayner (*)

Maio de 2014. Foi quando o Uber iniciou suas operações no Brasil, especificamente no Rio de Janeiro. Após uma longa e ansiosa espera, os brasileiros puderam utilizar do inovador e exclusivo serviço de transporte de passageiros via aplicativo. O novo serviço é famoso pelos transtornos que costuma causar ao se instalar em um local, ou simplesmente ao levantar a ideia do mesmo. O conflito com os taxistas e suas cooperativas é, na maioria das vezes, inevitável visto que estes sentem a ameaça de uma concorrência evidente e que ultrapassa seus níveis de qualidade.

O Uber oferece um serviço melhor, focado na excelência do atendimento e ainda custa menos (com o serviço de baixo custo da empresa, o UberX). Ou seja, impossível não ser mais vantajoso. Um especialista da FGV desenvolveu durante uma pesquisa uma calculadora comparando os serviços e, comprovadamente, o custo para o usuário é menor. E mesmo se fosse igual, a preferência ainda seria pela nova plataforma pela questão do atendimento e mimos oferecidos, como balas, água, refrigerante, ar-condicionado obrigatório, entre outros.

A verdade é que com a implantação da empresa e todas as mudanças causadas no mercado, os motoristas de táxi sentiram-se obrigados a melhorar seus serviços a fim de permanecerem no páreo dessa disputa. E quem tem a ganhar somos nós usuários. A existência da concorrência em qualquer mercado que seja é muito saudável e tende a fazer com que se busque sempre a excelência dentro do segmento. Há muito que o serviço de táxi estava precisando de certa reciclagem, e é com a chegada de um serviço concorrente que presenciamos as mudanças.

Quem utilizava com frequência os táxis e optou por experimentar o Uber dificilmente irá ter preferência pelo primeiro. Além disso, entra aqui a questão da mobilidade urbana, visto que com a utilização cada vez maior do serviço, pelo fato do mesmo ser até certo ponto mais viável financeiramente do que manter um veículo, o tráfego nas vias urbanas tende a diminuir consideravelmente. Como consequência de uma quantidade menor de automóveis, a poluição no ambiente por sua vez também tende a diminuir. Esses benefícios deveriam estar estampados e têm que ser levados a sério nas discussões sobre o serviço de forma a tornar mais clara a concepção de inovação tecnológica que ele carrega.

Com a queda na oferta de empregos e com a economia corroendo, muitos brasileiros enxergaram uma oportunidade grande com a chegada do serviço no país. Seja o caso de um estudante buscando juntar dinheiro para garantir um intercâmbio ou uma mãe solteira desempregada tentando retornar ao mercado, os perfis de condutores cadastrados no Uber são bem diversificados. Não é qualquer pai de família ou dona de casa à procura de renda extra que terá condições financeiras de embarcar no negócio dos táxis. Até porque existe a conhecida máfia das placas onde há negociações ilegais para repasses das mesmas com valores absurdos. O taxista recebe do governo a concessão da placa sem ter que desembolsar por ela, e encontra a oportunidade de comercializá-la a seu direito e para seu próprio benefício sem nenhum tipo de remorso ou culpa. E a realidade é que acaba saindo impune, algo bem comum neste país. Esta seria a possível razão do descontentamento e revolta com um cidadão que se inscreve na plataforma de compartilhamento, tem seus antecedentes verificados, seu carro de certa forma inspecionado e recebe o direito de transportar passageiros particulares sem a intervenção do governo ou sem precisar desembolsar um valor absurdo para isso.

São esses taxistas que começam a agir como bandidos e marginais, ao sentirem-se ameaçados. Há inúmeros relatos de agressões dos mesmos para com os motoristas do Uber, além de depredação dos carros e intimidações aos usuários. Eles chegam a se unir em grupos para atacar os motoristas do Uber com a intenção de causar medo e, consequentemente, a desistência de continuarem oferecendo o serviço. A pergunta que cabe aqui é por que estes trabalhadores e pais de família chegam a se comportar de tal maneira? O que os leva a agirem com tamanha ferocidade? Será que a implantação de um serviço concorrente deveria causar tanta ameaça assim a ponto de causar transtorno na mente de um cidadão comum? Definitivamente creio que a partir do momento que se parte para a violência você automaticamente perde a razão e o direito de argumento pelo simples fato de que lhe falta a capacidade para negociação, compreensão e bom senso.

Uma pesquisa da Datafolha (fevereiro de 2016) realizada em quatro capitais brasileiras (São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Brasília), solicitada pelo Uber, mostrou que mais de 75% da população quer que o serviço seja regulamentado e 95% dos entrevistados demonstraram estar a favor da continuidade do serviço. Ela não traduz os efeitos causados pela onda de protestos dos motoristas de taxi e seus sindicatos que são totalmente contrários à continuação do serviço, pelo contrário: as manifestações realizadas pela classe causaram um efeito totalmente divergente do desejado na população. Esta é uma realidade mundial, não apenas do Brasil, onde aqueles que dominam o mercado querem se manter retrógrados às inovações da sociedade.

O fato é que as leis nunca conseguem acompanhar o ritmo da tecnologia. Não há no Brasil uma lei que consiga determinar se o serviço de transporte facilitado por uma plataforma como o Uber, que não é um serviço público, é de fato ilegal. Os muitos debates que começaram a surgir após tantos protestos, estão fazendo com que o poder público tome a frente dessa batalha para garantir a regulamentação do Uber. Os taxistas definitivamente não veem esses passos a favor dela com bons olhos porque isso significaria ter que engolir e aceitar o serviço de uma vez por todas. As portas realmente começam a se abrir para a tal sonhada regulação, como se a mesma fosse trazer paz também na rotina dos muitos motoristas e usuários do Uber que temem retaliação por parte dos motoristas de taxi.

O transporte de passageiros por plataformas como o Uber torna-se, portanto, uma ótima alternativa para garantir o pão na mesa desses cidadãos. A tendência dos serviços autônomos só cresce no mundo inteiro e o mercado tem que se adaptar a isso para poder continuar a se desenvolver. A partir daí, começam a surgir mais serviços para concorrer com os meios alternativos e têm-se assim uma gama de possibilidades para a transformação de como interagimos e realizamos atividades, das mais diversas, uns com os outros.
(*) Estudante de comunicação Organizacional da UTFPR

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