Moko: vestindo uma causa

criacaomoko

Luciana Furtado (*)

Uma das maiores dificuldades que ONGs e instituições de interesse social enfrentam é se manter financeiramente, dependendo muitas vezes apenas de contribuições de voluntários e apoiadores. Entram aí as empresas sociais, uma modalidade projetada para atingir um objetivo social dentro do mercado altamente regulado de hoje. É diferente de uma organização sem fins lucrativos, pois deve buscar gerar um lucro a fim de se sustentar e melhorar o produto/serviço ou de outras maneiras que subsidiem a missão social.

Pensando neste segmento, Carlos Eduardo Becker, Diego Bergamini, Eduardo Gonçalves, Fernando Kuwahara e João Ricardo Rocha criaram a Moko, uma empresa social do ramo de moda que ajuda instituições que trabalham com crianças e adolescentes a se manterem financeiramente. Os idealizadores do projeto realizam oficinas de cunho artístico nestas instituições e a partir dos desenhos das crianças são criadas estampas de camisetas. O lucro da venda das camisetas é revertido para as instituições.

Em entrevista, João conta sobre como a empresa curitibana surgiu:

João começou como voluntário no Lar Moisés há oito anos, uma instituição que acolhe crianças com direitos violados ou em situação de risco e trabalha pela reintegração em suas famílias, e lá acabou conhecendo Fernando. Os dois tinham a vontade de abrir uma empresa que fizesse a diferença e muitas ideias em comum e então em novembro de 2014 concretizaram esse sonho.

Durante sua atuação como voluntário, João se envolveu nos conselhos municipais que discutiam políticas públicas na área da infância e teve uma atuação política bem engajada não só voltada para as crianças da ONG onde trabalhava, mas para outras ONGs que também trabalhavam com o acolhimento de crianças. Hoje é responsável pela captação de novas parcerias para a Moko.

Significado

Moko em tupi guarani significa ‘dois’ e simboliza a soma dos clientes com a comunidade, pois a cada camiseta comprada uma é doada, acompanhada por atividades educativas, recreativas e de inclusão com as crianças.

Processo de Criação

“Nós colocamos um tema para as crianças, nossa primeira coleção foi Alegria. Chegamos lá com uma proposta pedagógica juntamente com uma pedagoga, ela contou uma história e perguntou para eles o que era alegria. Distribuímos papel A3, lápis de cor e giz de cera e eles foram soltando a criatividade. Cada criança fez cerca de seis desenhos. Nós não contamos que esses desenhos vão virar uma camiseta, porque acaba deixando as crianças travadas, elas querem fazer uma coisa bem elaborada e nossa intenção é deixar eles livres e à vontade, porque através dos desenhos estão expressando seus sentimentos. Usamos técnicas com lápis de cor, giz de cera, tinta guache, pintura em tela, recorte e colagem, então cada coleção vai sair diferente por conta disso. A intenção é faze-las soltar sua imaginação e expressar o que sentem e acreditam, e procuramos estampar isso nas nossas camisetas para mostrar que as crianças são muito criativas. Depois levamos os desenhos para o escritório e fazemos uma seleção, os escolhidos são digitalizados e os designers vão compondo as estampas. De 50 designs escolhemos umas duas estampas”.

Já foram realizadas quatro oficinas de criação que resultaram em quatro coleções. A quinta, coleção de verão, será lançada em outubro.

Aceitação

“Quando conseguimos contar a história da marca para as pessoas a aceitação é muito maior do que elas vendo as estampas só. Conhecendo o processo que está por trás daquela estampa acaba fazendo com que elas criem engajamento, elas ‘compram nosso sonho’”.

Responsabilidade Social

“Quando pensamos em fazer a nossa embalagem ou a tag da camiseta queríamos algo que contribuísse para sustentabilidade do nosso planeta. No começo foi meio ideológico, não sabíamos como íamos fazer, pensamos em tecido, mas as pessoas iam jogar fora, então fizemos uma pesquisa para encontrar uma embalagem legal que pudesse ser reutilizada de alguma forma. A camiseta não tem etiqueta, geralmente é um tecido que as pessoas arrancam porque incomoda, então fizemos por serigrafia, mas a tag da camiseta vai com as informações da marca e com as instituições que são parceiras de todo o processo. Essa tag é de papel semente, você rasga, planta e nasce uma boca de leão”.

embalagemmoko

Além disso, como o processo de produção das camisetas é todo terceirizado, a Moko procura trabalhar com empresas que seguem os mesmos ideais.

“Selecionamos essas empresas de acordo com o histórico delas, se elas remuneram corretamente seus funcionários, exigimos as certidões negativas do FGTS e do INSS para saber se está tudo em dia com os impostos porque nos preocupamos muito com deixar transparente de que estamos fazendo um trabalho sério. Não adianta nada dizer que nossa marca é social e não cuidar dos nossos impostos e obrigações, e assim como cuidamos da nossa queremos que as outras empresas também cuidem. Procuramos empresas que tenham ideais parecidos com os nossos e algum tipo de atuação social, mas é bem difícil encontrar, principalmente na área da indústria têxtil. Geralmente o trabalho é voltado para o campo e nós buscamos um engajamento na área social urbana”.

Retorno

Existem duas possibilidades de doação: ou o dinheiro é repassado para a instituição ou uma camiseta branca é levada e a criança cria sua própria camiseta em atividades recreativas. Neste momento não há temas, são disponibilizados as tintas e pincéis e eles são os próprios estilistas das suas camisetas. Seis oficinas de doação foram realizadas e mais de 350 camisetas doadas.

“É legal quando voltamos nas instituições e vemos as crianças usando suas camisetas, o orgulho que sentem por terem criado sua própria camiseta, elas se sentem importantes de estarem produzindo algo”.

Futuro

No momento as instituições beneficiadas com este trabalho são: Lar Moisés, Lar Lisa, Lar Hermínia Scheleder, Associação Beneficente Encontro Com Deus, Fundação Francisco Bertoncello e Pequeno Cotolengo.

“Por enquanto trabalhamos com instituições que cuidam de crianças e adolescentes, mas pretendemos ampliar para instituições que trabalhem com idosos ou proteção animal, por exemplo. Muitas vezes os voluntários estão tão envolvidos no dia a dia da organização e acabam não tendo tempo de divulgar sua causa. A ideia da marca é dar uma voz para essas causas, para aquelas pessoas que não conseguem ser ouvidas”.

moko

Carlos Eduardo, João, Fernando, Diego e Eduardo (esquerda para a direita)

Onde conseguir a sua

Por enquanto é possível adquirir sua camiseta Moko somente através do site da marca e em alguns eventos divulgados na fanpage no Facebook.

Site e Loja Virtual

Fanpage Moko

(*) Aluna do COMUT-UTFPR

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