Carta a Martinho Lutero

lutero

Gabriela Nogarolli (*)

Ao mesmo tempo em que quero deixá-lo atualizado, tenho certo receio de contar as novidades (nem sempre tão boas quanto esperamos). Perdoe-me se eu acabar deixando-o desiludido. Ainda assim, imagino que você não seja do tipo de homem que não quer ouvir as coisas. Fingir que não sabe de nada para ficar no conformismo de sempre – atitude, aliás, bastante comum nos dias de hoje. (Só hoje?)

Foi graças a você que a atual Alemanha passou por uma reforma que se tornaria um marco histórico (sim, sinta-se importante) no que se refere à atuação da Igreja Católica. Críticas e contestações consistentes, que vieram a denunciar os abusos da Igreja e colocá-la no seu devido lugar. Quase 500 anos depois, ao perceber a atual situação, pergunto-me onde estaria você numa hora dessas. Talvez fosse apropriado voltar ao castelo de Wittenberg e expor as suas 95 teses sobre indulgências na porta. Será que adiantaria?

Refiro-me à imensa evasão de alemães das igrejas Católicas e Evangélicas que se deu em 2014, envolvendo a cobrança de dízimos por parte da Igreja. O imposto, denominado “Kirchensteuer”, que é requisito para ser membro, foi incluído na Constituição da Alemanha em 1949 e obriga os alemães oficialmente batizados a pagarem 9% do seu imposto de renda mais alguns impostos por ganho de capital à Igreja. Uma reforma neste último tipo de imposto fez com que o ano passado fosse registrado com a maior saída de cristãos em 20 anos.

Estes impostos são recolhidos diretamente sobre os salários dos fiéis, por meio da própria receita federal do país. Aqueles que não pagam o dízimo são impedidos de celebrar sacramentos como ritos fúnebres e casamentos, além de não poderem ser escolhidos como padrinhos. A Igreja é uma das maiores empregadoras do país depois do governo, então alguns que se recusam a pagar podem até chegar a ser demitidos se tiverem um emprego relacionado.

A “condenação”, portanto, pode até chegar a ultrapassar os “limites espirituais”. Agora eu lhe pergunto: dentro das devidas proporções, não seria isso quase uma espécie de excomunhão? Você, que já vivenciou isto na pele, talvez possa me esclarecer. Nesse ritmo, o próximo passo seria o comércio de indulgências. Aliás, negar o direito de participar livremente dos cultos é uma forma de fazer os fiéis saírem prejudicados e sentirem-se culpados. De evitarem a Igreja e se distanciarem dos propósitos iniciais de elevação espiritual. É quase como se o não-pagamento fosse uma forma de conversão a um lado maligno da existência. Consigo até ouvir o apelo: “Ora, se você se reverter e continuar a nos ajudar como sempre fez, você será perdoado. É só você decidir entrar novamente no reino de Deus.” Uma forma, portanto, de pagar pelos seus pecados, ainda que mascarada. Não é exatamente isso que você condenou em 1517, Lutero? Aposto que não imaginava que em meados de 2000 a situação se repetiria.

Os princípios cristãos são aqueles que pregam a prática do amor, da caridade, do desapego material. Pois bem, se é disso que estamos tratando, nunca vi caridade mais apegada. No único lugar em que deviam predominar um mínimo de princípios morais e fraternos, a roda do capitalismo delirante vem e atropela a todos, sem compaixão. Seria a revelação de uma nova era: a Boa Nova do Amor Capital. Todos juntos pelo amor (ao dinheiro). É quase como se dissessem: “Você está passando por problemas financeiros? Não se importe com isso, trabalhe o desapego e dê-nos o pouco que lhe resta! Nós já trabalhamos esse desapego e por isso sabemos a forma correta de lidar com o dinheiro da forma mais amorosa possível!”. Seria um ato dos mais elevados, pois Deus, supostamente, o apreciaria. Algum Deus, talvez, ambicioso e avarento. Não aquele do qual sempre ouvi falar.

Caro Martinho, não me entenda de forma equivocada. É claro que entendo perfeitamente que a Igreja precisa de uma quantia de capital para manter a sua enorme estrutura. Quantia esta, porém, não exorbitante, magnificente: mas sim aquela de um Deus mais humilde, claramente.

É por isso que questiono: a exigência de pagamento vinculada diretamente ao próprio Governo não estaria beirando o exagero? Exatamente no país em que você começou uma Revolução séculos atrás? Aliás, como alguém pode se entregar verdadeiramente espiritualmente se se vê preso por uma obrigação material? Parece que estamos voltando à Idade Média, no tempo em que a Igreja era a fonte primordial da forma das pessoas verem o mundo e agirem perante ele. A maior detentora de capital e propriedades, verdadeira controladora de um todo.

A minha intenção com esta carta não é voltar no tempo. Não precisamos de mais uma Reforma Protestante, de uma revolução de camponeses e de tantos outros conflitos que resultaram desta época.  Só gostaria de saber onde está, em meio a todo esse caos, a religião pura e verdadeira. Independente de preconceito ou interesse pelo dinheiro. Que não apela por variadas vias para conseguir mais fiéis e iludi-los. Que não os torna amedrontados e dependentes, como acontece em alguns casos, na medida em que afirmam que o único lugar da Salvação é a Igreja, e que isso basta para eles encontrarem a felicidade.

Ainda estou otimista.  Acredito que haja a salvação. Porém, bem longe de tudo isso, com certeza.

(*) Aluna do COMUT-UTFPR.

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