“Nosso Black Block estava armado com flores e conhecimento”

Jaqueline Modesto (*)  No final do mês de abril deste ano em Curitiba, os professores enfrentaram momentos de desesperos e indignação a serem confrontados pelo direito de exercer a cidadania. Foram expostos a uma guerra sem precedentes na capital ao se manifestarem contra a uma votação na Assembleia Legislativa do Paraná, que estava na pauta do dia e tratava diretamente sobre a questão previdenciária dos servidores estaduais.

Dentre esses professores estava o professor de Educação Física Dilson Bortolanza, que veio para o ato junto com outros professores da cidade de Mandaguari, da região norte do Estado. Bortolanza foi uma das vítimas do confronto com os policiais estaduais, foi atingido por balas de borracha nas duas pernas. Esse momento foi relatado pelo professor a AGComunique com detalhes da indignação que sentiu.

Qual a formação acadêmica?

Sou formado em dezembro de 1981, pós-graduado em Educação Física e também em Supervisão Escolar.

Atuo nas Escolas desde 1979, ainda como acadêmico trabalhei na APAE de Jandaia.

Leciono há 33 anos, como professor formado.

Em qual escola trabalha?

Atualmente trabalho em quatro Escolas em Mandaguari onde resido.

Colégio Estadual Vera Cruz, Colégio Estadual José Luiz Gori, Escola Estadual São Vicente Pallotti, e CEEBJA

Qual o momento que decidiu ir pra manifestação em Curitiba?

A decisão foi ir à Guarapuava na Assembléia Estadual da Categoria de Professores do Paraná, onde foi aprovada a greve com 100% de adesão da categoria. Depois disso estive em todos os momentos na greve, pois a causa é justa.

O Governador Beto Richa deseja poder ter acesso aos valores da conta que está o dinheiro que garante nossa aposentadoria, onde segundo informações da nossa Categoria, tem 8 bilhões de reais.

Qual o motivo que desejou ao levar as flores?

As flores foi para demonstrar para os Policiais que a Educação é tudo num povo.

Ou seja, as flores eram para mostrar que ali, eu estava pelos meus direitos, mas estava em paz, e a Paz, era tudo que eu desejava. A ideia principal das flores foi dizer que estava em Paz e que a Paz deveria prevalecer.

 

Principalmente quando comecei a observar a operação de Guerra que eles estavam preparados.

Quantos professores partiram de Mandaguari para a manifestação na capital?

O ônibus que fui era pra 42 vagas, se eu não me engano, e não estava lotado.

Ele partiu de Mandaguari, minha cidade, onde temos um Núcleo Sindical do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública (APP).

No momento que foi atingido pela bala do revólver qual o sentimento que veio a cabeça?

Em meus 54 anos de idade, nunca vi terem esse tratamento de guerra, nem em Estádios do Parque Antárctica, atual Allianz Parque, onde já fui à Capital Paulista assistir três clássicos com o maior rival e que sempre tem confusões. Nem na época da ditadura que eu também presenciei, nunca vi nada parecido ou próximo disso. Pois sou nascido em 1960 e a ditadura acabou quando eu já tinha 24 anos de idade.

No momento das duas balas que fui atingido nas pernas, eu estava com a respiração prejudicada. Pois o policial do Batalhão de Operações Policiais (Bope) ou do Choque detonou um spray de pimenta bem próximo ao meu rosto, entre os escudos que os protegia, me atingindo em cheio, fiquei sem respiração e quase sem visão. Fui empurrado com uma mão na testa e outra mão no peito, fazendo com que eu caísse de costas em cima das grades.

Senti queimar as pernas e não pensei em nada, pois acho que perdi os sentidos.

Me recordo que, após isso, ouvi gritos de pessoas, que mais a frente percebi ser meus amigos desconhecidos, recobrei os sentidos no colo de uns seis ou sete professores, todos anônimos.

Eles gritavam: pega ele, segura firme, uma voz feminina dizia: não corram.

Depois disso, meu sentimento foi de muita tristeza, pelas professoras serem atingidas com empurrões, gás de pimenta no rosto e lançadas ao chão antes de mim. Foi aí que fui à frente pra tentar ajudá-las e devo ter sido confundido com black block pelo governador Beto Richa, apesar de eu estar com flores nas mãos oferecendo aos Policiais.

Tem uma foto minha numa faixa, que fixaram na parede da frente da minha casa que diz: “Nosso Black Block estava armado com flores e conhecimento”

Como foi atender o telefonema da filha e avisar o ocorrido?

Eu estava dentro da van do Corpo de Bombeiros e vi na chamada o nome de minha filha no celular, respirei fundo pra não me emocionar. Mas não deu, pois sou emotivo.

Comecei a falar com ela e olhei para o lado, poderia atrapalhar o atendimento dos Bombeiros, então abri a porta e saí. Pois vi que tinham professoras precisando mais que eu, pois tinham ferimentos mais graves.

E já lá fora, chorava e tentava convencer minha filha de que estava bem, como ela tinha visto fotos minhas passando muito mal e ela ouvia pelo celular o som das bombas e gritos desesperados dos demais professores foi difícil fazê-la acreditar que eu estava bem.

Por ser emotivo, chorei junto com ela, mas sempre tentando acalmá-la, até que tive a ideia de dizer que eu tinha feito teatro pra imprensa ver a gravidade de tudo aquilo.

Com isso ela foi se acalmando com minha inverdade e eu juntei forças para me acalmar também, apesar de ver naquele momento mais e mais professores feridos sendo conduzidos às ambulâncias.

Qual sentimento existente agora?

O sentimento que fiz o que pude para tentar salvar a educação, pois sem uma aposentadoria de valor razoável garantida tenho receio que bons professores não se interessem mais para continuar ou adentrarem novos professores na rede Pública Estadual. E com isso, as crianças e os jovens de pais com ganhos menores sejam prejudicados por isso. Já que desta forma enfraqueceria a Educação do Estado.

O que espera agora para o futuro?

Eu espero que vençamos essa batalha no Judiciário nas esferas Estadual e Federal. Para podermos dar continuidade aos conhecimentos de nossos alunos.

Os alunos já conversaram com o professor?

Já, duas alunas e dois alunos meus do ano passado me encontraram ao chegar em casa de Curitiba na noite do dia 30 de abril. As meninas brilharam os olhinhos de lágrimas ao me verem, pararam e em plena rua vieram dar um forte e caloroso abraço. Me perguntaram se estava bem, preocupadas com a minha integridade física e retorno para Escola, dizendo que achavam que eu iria demorar pra me recuperar ao ter visto minhas imagens na internet e na televisão.

Qual a reação que mais marcou neste momento de injustiça após o ocorrido?

Foram os encontros emocionantes com adultos, vizinhos, pais de alunos pelo dia todo de 1º de maio e também da mesma forma eles vêm me dizer das suas angústias em relação a minha saúde na rede social.

Palavras como angústias, preocupação e carinho foram demonstrados.

O que mais marcou foi a indignação de quase todos que falam comigo, compararam que os bandidos não tem o mesmo tratamento que nós professores tivemos na manifestação no dia 29 de abril de 2015.

Um arsenal de guerra contra professores desarmados.

O que deseja que seja uma atitude do governo do Paraná?

Desejo um resultado quase impossível, uma atitude que posso chamar de Utópica, ou seja, ele rever o ocorrido e pedir desculpas às professoras (mulheres), pois os homens são mais fortes. Desista de pagar as contas do Paraná, que ele não soube administrar, com o dinheiro dos trabalhadores e enxugue todos os gastos desnecessários dos políticos, auxilio transportes, auxílio moradia (…)

O projeto foi aprovado pelos deputados na sessão da Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP) por 31 votos, mesmo com a manifestação dos servidores. Os professores continuam em greve e no dia 5 de maio se reuniram em assembleia para o ato contra violência e pela democracia, com concentração na Praça 19 de dezembro em Curitiba. De acordo com a APP mais de 15 mil pessoas estiveram presentes.

 

Mais informações:

https://www.facebook.com/appsindicato

(*) Jornalista, aluna do CTCOM e mestranda em Portugal.

Foto: arquivo família

Foto: arquivo família

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