Professores continuam acampados em frente à Assembleia

Erickson Glauco de Souza (*)

Após uma semana de incessante luta entre o governo Richa e os servidores públicos estaduais em decorrência da tentativa de aprovação, em regime de urgência, de um pacote de austeridade que inclui a perda de vários benefícios do funcionalismo público, além da “apropriação” do fundo previdenciário dos servidores, vê-se que, apesar de o governador ter recuado e solicitado a retirada dos projetos de pauta, a causa ainda não está vencida.

Ainda é mantido um acampamento dos professores da rede pública de ensino em frente ao prédio da Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP), em busca de uma nova negociação com o Governo do Estado quanto aos benefícios atrasados, aos fechamentos de turnos e de turmas, o que demonstra que a causa é muito maior do que a oposição pura e simples ao conhecido “pacotaço de maldades” proposto pelo governador tucano. É visível a tenacidade dos professores, mesmo diante da falta de pronunciamento oficial do chefe do executivo estadual, que aparentemente tem mandado às favas o movimento.

De acordo com a professora Silvana Teresinha, do município de Guarapuava, que acompanha o movimento desde o seu início e leciona na rede pública de ensino há mais de 20 anos, “há muito tempo não se vê uma desídia tão grande com a Educação no Estado. Desde 1988, quando o então governador Álvaro Dias cometeu as conhecidas atrocidades à nossa classe, não tínhamos notícia de tamanha afronta aos nossos direitos”. Na época os professores também estavam em greve, motivados pela redução do piso salarial, o governo se recusava a negociar com a categoria, da mesma forma invadiram a Assembleia. No entanto, no dia 30 de agosto de 1988, houve um confronto com a Polícia Militar. Professores ficaram feridos graças à ação truculenta da PM, que foi comandada pelo então governador Álvaro Dias.

Outra professora ouvida pela reportagem e que preferiu não se identificar elenca as dificuldades enfrentadas nas escolas públicas estaduais, oriundas dos cortes da verba para a rubrica da Educação: “Não podemos viver essa injustiça. Turmas foram fechadas, o pessoal do apoio pedagógico foi reduzido, inclusive a direção das escolas, e isto acarretou um aumento de alunos em outras turmas, que passaram de 30 alunos para quase 40. Isso torna o aprendizado mais complicado. Como que um professor pode dar atenção e sanar a dúvida de 40 alunos na mesma classe?”, argumenta a professora, que leciona História, no Município de Pinhão.

Atualmente mais de 1 milhão de alunos continuam sem aula, e não existe previsão de que a greve termine. Os professores continuam paralisados até que o governo aceite negociar com a categoria. A luta dos professores chegou a comover os pais dos alunos, que agora prometem fazer parte do movimento que briga pela educação. Marcada para a próxima quinta-feira (19), em uma possível negociação com o governo, eles devem marcar presença na manifestação. A dona de casa Ana Lúcia Sousa, moradora de Pinhais e mãe de duas crianças que estão sem aulas, manifesta seu apoio: “Os professores precisam de força neste momento, meus filhos estão sem aulas e nem por isso eu vou deixar de apoiar os professores; muito pelo contrário, a luta não é só deles e a gente precisar ajudar, cobrar desse governo as coisas que precisamos e queremos”.
Entenda o “pacotaço” de Beto Richa (PSDB)

O “pacotaço” que, entre outras medidas, afeta principalmente a carreira dos servidores da área da educação, foi proposto pelo governador Beto Richa (PSDB). A proposta, composta por 13 itens, prevê vários ajustes de aumento de receita e de diminuição de despesas, que inclui a retirada dos benefícios dos servidores estaduais tais como anuênios, quinquênios, além da utilização do fundo previdenciário paranaense.

Questiona-se, no entanto, a distância entre a realidade de campanha política de 2014 e o início de seu segundo mandato. Em meados da campanha para sua reeleição, o então candidato tucano afirmava em entrevista concedida à Gazeta do Povo que “que havia colocado a casa em ordem, após herdar uma dívida de ‘R$ 4,5 bilhões do governo anterior e que, no segundo mandato, poderia investir mais’”. Mesmo antes de começar o seu segundo mandato, ele já tinha remetido à Assembleia um aumento em tributos estaduais. Submeteu também, após o aumento do seu próprio salário (atualmente R$ 33 mil, o mais alto do país) e de seus secretários (R$ 26 mil) um “pacotaço” para aprovação da Assembleia em medida de “tratoraço” (aprovação em regime de urgência), sem oportunidade de discussão. Setores do funcionalismo público perceberam o contraste entre o que foi falado na campanha e a realidade do Estado, e não se contenta em receber e acatar as mesmas desculpas “porque a gestão anterior deixou o estado falido”, porque já se passaram quatro anos e nada foi mudado.

(*) Aluno do CTCOM-UTFPR.

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